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Seminário Design e Sociedade
novas práticas, materiais e modelos

 

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Banner na entrada do Auditório



HolandaHoje

Arte, Design, Urbanismo e Responsabilidade Social

Auditório do Hotel Paulista Plaza
São Paulo, 27 de março de 2003

Promoção: Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo
Organização Geral: Anton van Dort / Brazil4Business
Preparação de textos:
Mauricio Ferrari Masson

 

Apresentação:

O Seminário Design e Sociedade -novas práticas, materiais e modelos foi promovido pelo Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo como uma das atividades realizadas no âmbito do evento HolandaHoje -Arte, Design, Urbanismo e Responsabilidade Social, que aconteceu no mês de março de 2003 na cidade de São Paulo, inspirado pela visita de Estado ao Brasil de Sua Majestade a Rainha Beatrix e de Suas Altezas Reais, o Príncipe e a Princesa de Oranje, Willem Alexander e Máxima.

O tema escolhido que serviu de fio condutor para todos os eventos organizados foi responsabilidade social, tema que desperta grande interesse tanto na sociedade holandesa quanto em seus representantes parlamentares na atualidade. Responsabilidade social compreendida também como respeito ao meio ambiente e aos recursos humanos.

Este interesse é compartilhado pela sociedade brasileira, que vivendo e vislumbrando momentos de transformação em sua realidade, procura novos meios, parcerias, conhecimentos e contatos para que esse caminho seja trilhado buscando acima de tudo o desenvolvimento das capacidades e potencialidades do Ser Humano como objetivo essencial.

Esse desenvolvimento passa pelo conhecimento da riqueza contida, e muitas vezes escondida, nas capacidades de criação, trabalho e organização de grande parte da população brasileira. Passa também pela aceitação da arte popular como manifestação legítima, autêntica e merecedora de atenção por parte daqueles que se empenham na busca de caminhos que dignifiquem a vida das pessoas através de seu trabalho, engenho e conhecimentos, que se não forem transmitidos correm até o risco de desaparecerem para as futuras gerações. Transformar em renda a arte e o artesanato de quem - por dom ou aprendizado - é capaz de produzir, é inseri-lo na cidadania, resgatando sua auto-estima e o respeito por suas próprias habilidades.

A Abordagem do Seminário

O uso inovador e responsável dos materiais, a reciclagem, a participação comunitária em projetos e as possibilidades de desenvolvimento social e econômico como resultado de novas experiências nesta área formaram um painel amplo e atualizado sobre o tema. Este documento, a ser apresentado aos governos do Brasil e dos Países Baixos, visa reproduzir as idéias e discussões que surgiram durante o seminário.


Início dos Trabalhos

As palestras foram realizadas na tarde da quinta-feira, 27 de março de 2003, no auditório do Hotel Paulista Plaza, em São Paulo, e tiveram início com uma breve apresentação feita pelo organizador geral do evento, Anton van Dort, que em seguida deu a palavra à Mediadora do Seminário.

Dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos

Dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos*
Mediadora - USP / Brasil

Boa tarde.

Nós agradecemos imensamente a acolhida de vocês ao seminário que estamos fazendo hoje. Tivemos grande prazer em preparar este seminário. Nós escolhemos grandes amigos, e esperamos que vocês também tenham o mesmo prazer, aproveitem e tenham uma tarde produtiva.

O seminário é uma iniciativa do Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo, e se insere no contexto de intercâmbio e compartilhamento entre Holanda e Brasil do projeto HolandaHoje.
O seminário versa sobre uma série de temas emergentes nos quais a Holanda possui excelência, como é o caso do design. Trata de um dos temas que tem merecido crescente atenção da comunidade científica da área do design: Um modelo social para o design.

Quando a maioria das pessoas pensa no design, imediatamente considera o design do ponto de vista da criação de produtos para o mercado, dirigidos ao consumidor. Esse é o paradigma dominante.

Nos anos 1960, o professor Victor Papanek, então diretor do Californian Institute of Arts, publicou seu famoso livro "Design for the Real World", cobrando dos designers maior engajamento e, sobretudo, a criação de um design para atender as necessidades sociais.

A obra de alguns autores de design orientou-se nessa direção, mas foi só em fins do século passado que a agenda social do design passou ao centro do debate, principalmente na comunidade científica internacional.

Entre os designers, é importante destacar a iniciativa do designer japonês Kenji Kuan que propôs em 1997, na cidade de Toronto, a criação daquilo que mais tarde se tornou a grande organização "Design for the World", uma organização internacional, humanitária, que congrega designers de produtos, designers gráficos e designers de interior, para desenvolver projetos para atender populações em severas necessidades.

Em geral, nosso seminário discutirá as novas práticas e paradigmas que emergiram no final do século 20, relacionados ao design e suas relações com a sociedade, que variam de acordo com o contexto social no qual estiveram inseridas. O seminário está iniciando a construção de um diálogo sobre este tema. Mais do que isso: está inspirando uma motivação comum e uma intenção firme de engajar o design na luta pelo combate à exclusão social e na promoção da inclusão.

O Brasil tem dado uma contribuição muito grande em várias dessas áreas. Por exemplo: a reciclagem de materiais no design brasileiro é tema que vem atraindo a atenção dos estudantes, dos designers e dos empresários.

Por questões estruturais em nossa economia, o país vem se tornando líder na reciclagem de alguns materiais, como por exemplo, o alumínio. O papel também se destaca, extraordinariamente, nesse contexto de reciclagem, porém ainda muito resta a investir, na busca de novos e criativos usos industriais das matérias recicladas.

A sociedade vem participando de maneira crescente desse processo. Escolas, comunidades, etc. Mas o grande destaque de participação na coleta e seleção de materiais recicláveis fica por conta dos catadores dos materiais recicláveis.

Através de seu trabalho organizado e eficiente, nas cooperativas de materiais recicláveis, espalhadas por todo o país.

A sociedade poderá se envolver nesse processo. Seja colaborando com as cooperativas, seja organizando a separação dos resíduos sólidos em geral, nas casas, nos restaurantes, estabelecimentos comerciais, etc.

Minha opinião pessoal é que mais do que nunca temos evidências de que é necessário buscar novos modelos para o design, orientado às necessidades sociais do nosso tempo. Hoje dispomos de uma vasta e sólida literatura sobre o design orientado para o mercado, mas ainda há muito a refletir e escrever sobre o design orientado para as necessidades sociais. Ainda precisamos investir na busca de tecnologias de baixo custo, na busca de novos métodos e também na educação dos designers, preparando os novos profissionais, não apenas para desenvolver os produtos para o mercado, mas também para as populações que vivem em situações severas de carências e necessidade.

A Holanda tem demonstrado, pelos seus produtos, uma altíssima capacidade de criação e inovação. A relação entre as universidades e as indústrias é muito dinâmica. As idéias e experimentações saem do âmbito acadêmico e são implementadas nas indústrias. A Holanda, ao mesmo tempo, como muitos outros países europeus, possui um respeito profundo pelo artesanato e pelo trabalho manual. Acho que podemos aprender. Essas atitudes e essas idéias é que saem ganhando neste diálogo que hoje começa, com a presença de vocês.

Muito obrigada.

* Maria Cecília Loschiavo dos Santos é filósofa, mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo. É professora de Design na mesma Universidade, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde ministra cursos e orienta alunos na graduação e pós-graduação. Realizou programa de pós-doutorado nas seguintes universidades: Universidade da Califórnia, Los Angeles - Estados Unidos; Universidade de Campinas SP, Brasil; Nihon University - Japão; Centre Canadien d'Architecture - Canadá. Participou de congressos e conferências nacionais e internacionais na área de Design e publicou diversos artigos em revistas científicas nessa área. Autora de vários livros, entre eles 'Móvel Moderno no Brasil', patrocinado pela FAPESP e co-publicado pela EDUSP e Estúdio Nobel em São Paulo. Consultora científica de órgãos brasileiros de pesquisa, como FAPESP e CNPq.
Atualmente é coordenadora dos programas de pós-graduação em Design da Universidade de São Paulo e das Oficinas de Design Social da Universidade de São Paulo. Desde 1994 vem pesquisando 'O descarte dos produtos industriais, Design e Moradores de Rua em cidades globais'. Foi agraciada com o Primeiro Prêmio do Museu da Casa Brasileira por seu livro 'Móvel Moderno no Brasil' e com o Prêmio Margarida de Prata da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pelo filme 'A Margem da Imagem', como co-autora do roteiro.


Adélia Borges

Adélia Borges *
Jornalista / Bras
il

Boa tarde.

É um grande prazer estar aqui, nesse encontro com todos vocês. Tanta gente ficou de fora que queria vir. Eu acho que o interesse demonstrado por esse encontro, foi muito baseado nesse tema e a pertinência do tema tão bem apontada pela Maria Cecília Loschiavo. Eu acho que cada vez mais a gente precisa discutir o design desde esse ponto de vista. Realmente das necessidades sociais e não apenas das necessidades do mercado.

Os organizadores do encontro me pediram uma palestra sobre reciclagem, pois até uma certa altura o encontro iria se fixar mais nesse tema específico da reciclagem, então me pediram para fazer um panorama da reciclagem no design contemporâneo brasileiro. Então foi o que eu preparei para vocês: um resumo curto, até para tentar fazer menos do meu tempo, e se houver condição, até de fazer um bate-papo no final.

Eu tenho pesquisado esse tema bastante, e é um tema que emergiu muito no design internacional nos anos 1980, a partir do final dos anos 80. Eu queria lembrar o que a Cecília falou aqui, que essa prática é uma prática antiga na cultura material brasileira. Desde sempre nós reciclamos, desde antes desta palavra existir nos dicionários, nós já estávamos reciclando materiais, bens de consumo, toda sorte de coisas.

E acho que uma das pessoas que mais teve olhar para isso (às vezes a gente fica tão inerte na realidade que a gente vive, que não conseguimos enxergar direito essa realidade; às vezes uma pessoa chega de fora e consegue enxergar melhor) foi a Lina Bo Bardi. Quando ela chegou no Brasil, no final dos anos 1940, ela andou o Brasil afora, e teve um trabalho muito significativo na Bahia especialmente, e no Nordeste em geral, e ficou maravilhada com essa capacidade de transformação do povo brasileiro. Então estou trazendo aqui para vocês alguns poucos elementos, peças do acervo pessoal da Lina, que depois correram o mundo em exposições, para mostrar justamente isso, que essa capacidade de reciclar existia muito pela necessidade de driblar a miséria, driblar a falta de acesso aos bens de consumo. A Lina foi capaz de enxergar nessas manifestações toda a beleza delas e transformá-las quase que em "objetos de arte", ao levá-las a museus brasileiros e internacionais e poder propiciar a apreciação estética dessas peças.

Relembrando o que a Cecília falou aqui do Papanek, eu acho que o que no Brasil a gente sempre reciclou, muito derivado da miséria do nosso povo, do nosso país. No design internacional essa preocupação começou nos anos 1960, e um dos primeiros a alertar para essa necessidade de reciclagem foi o designer grego radicado nos EUA, Victor Papanek, que cunhou uma expressão que para mim é muito feliz. Ele falou dessa coisa da "cultura Kleenex", se referindo aquele lenço de papel, e dizendo que estávamos entrando na era do descartável, vivendo essa compulsão pelo consumo e essa compulsão pelo "use e jogue fora".

Também nos anos 1960, outro grande pensador, Buckminster Fuller, alertou sobre o fato de que "o lixo é o único recurso em crescimento no planeta".

Ou seja, ele via o lixo como recurso, e viu que a água está acabando, o petróleo está acabando, enfim, todos os recursos estão acabando, e o único que está em crescimento é o lixo.

Aliás, hoje, lendo o jornal de manhã, li um anúncio da prefeitura que fala que em São Paulo, são recolhidas diariamente 15.000 toneladas de lixo, o que representa um estádio do Morumbi cheio de lixo até o tampo, a cada dois meses.

Bom, se a gente é capaz de gerar tudo isso, a gente tem que ser capaz da logística reversa de repensar o que está fazendo a gente gerar tanto lixo e repensar que modelo de sociedade é esse, que modelo de progresso que a gente adotou, e repensar também essa coisa de olhar o lixo não como um estorvo, mas como um recurso, como Fuller repensou.

Acho que a primeira vez em que a gente tem (saindo do Brasil, indo para os países desenvolvidos), uma contestação maior a respeito dos usos dos materiais na elaboração dos objetos, vem com a cultura hippie, que é uma cultura que nega o consumismo desenfreado, e que é a cultura que começa a introduzir materiais banais, como os circuitos elétricos, as borrachas, os acrílicos. Começam a introduzir esses materiais nos objetos e bijuterias que faziam mundo afora e vendiam em suas feirinhas.

Essa produção era resultado da contestação também do modelo que estava gerando aquele consumo anterior. No final dos anos 1980, a gente tem um agravamento da crise ambiental no mundo todo, e esse agravamento provoca uma consciência cada vez maior da população, e começa a haver essa discussão, que depois veio a desembocar na Eco-92. Foi o grande momento dessa discussão. Esse pensamento, acho que foi mais em meados de 1980, final dessa década, que a gente começa uma discussão sobre o que poderia ser uma cultura alternativa de produtos.

Em Stuttgart, em 1998, houve a "Exposição Simplicidade Consciente". O curador teve a intenção explícita de mostrar produtos concebidos, produzidos e utilizáveis com simplicidade.

Essa exposição chegou a São Paulo, no Museu da Casa Brasileira. Acho que aqui é uma reciclagem quase que como uma bandeira de luta, então ela é deixada bastante explícita, o material é deixado bastante explícito.

O objeto-ícone desse pensamento foi essa cadeira, que se chamou "Descanso do Consumidor", que foi feita no momento da queda do muro de Berlim, quando a população ocidental viu atônita a população oriental correr com uma sofreguidão enorme às gôndolas dos supermercados, porque podiam por fim ter acesso àqueles bens.

Foi um momento em que o Ocidente já contestava esses padrões. Essa foi uma brincadeira do pessoal do Studio Stiletto (um carrinho de supermercado transformado em cadeira - 1989/90), a respeito da voracidade consumista. Uma provocação que brinca com o imaginário do consumidor. Tornou-se quase que um objeto-ícone deste movimento.

Esse movimento se espalhou por vários países desenvolvidos. O porta-voz na França é o Philippe Starck, quando ele fala muito em que "antes de ser designer, ser cidadão". Isso foi muito desencadeado pelo crash da bolsa de Nova York em outubro de 1987, e pelo fim do "yuppismo". Antes a gente estava glorificando muito as marcas, as grifes, e a partir do final dos anos 1980, também pela crise econômica, as pretensões yuppies são enterradas, assim como as promessas de opulência, de prosperidade que vinham sendo feitas pelo governo Reagan. As pessoas caem na real, acarretando uma mudança no comportamento do mundo em relação à cultura material.

Passa a ocorrer o que chamo de "reinvenção da matéria", e isso passou a haver em todos os domínios. "Recontextualizar, reciclar, reusar" passaram a ser verbos do dia-a dia. Na música existe o sampler (transformação do original), o scanner, na área gráfica, que possibilitou a transformação e deslocamento de idéias. Na moda, através dos grunges em Seattle, EUA, quando a moda sai da rua, indo para a alta-costura. Passa a haver uma realimentação mútua.

No design contemporâneo brasileiro vê-se basicamente três atitudes, que eu procurei mostrar na exposição "Novos Alquimistas":

A primeira atitude foi a reciclagem propriamente dita. Se aquela cadeira do supermercado foi um ícone desse movimento a nível internacional, aqui o objeto-ícone pode ser representado pelo puff de Flávio Verdini, Júlio Sannazzaro e Sandro Verdini. Eles foram, como grupo, os primeiros a realizar uma arqueologia urbana na cidade. Ao extrair das sobras das ruas e dos produtos rejeitados pela sociedade, formam sua matéria-prima. (O puff é feito com o cesto de uma máquina de lavar roupa). Colocar os rodízios e o tampo foi uma decorrência. Ele estava praticamente pronto.

Mudando de matéria-prima, temos o vidro, a partir das garrafas de vinho alemão, que tanto se alastraram pelo nosso país. O Júlio corta a garrafa, que também é uma prática popular brasileira. Ele pega cada pedaço da garrafa e reutiliza em pedaços nessa luminária Eletra e a luminária Babel. Com a mesma garrafa ele faz da base um cinzeiro, e do gargalo, um candelabro. Nesses casos que a gente está mostrando, ao contrário das embalagens de Maggi dos alemães, aqui essa gênese do material não é explicitada. Ela não é escondida nem apontada como uma curiosidade. É simplesmente o uso de um material e pronto.

Ainda falando de vidro, se o Júlio usava as garrafas de vinho apenas cortadas, o Edu e a Beth Prado usam cacos de vidro reciclados, que depois são levados ao forno numa fôrma que resultam nesse bowl que é maravilhoso, um dos best-sellers do design brasileiro.

A reciclagem enquanto processo industrial, de pegar o material e realmente transformá-lo através até de um processo industrial, está muito realizada neste tecido, que é feito inteiramente de garrafas PET reutilizadas. Esse produto ganhou o prêmio Eco-design da Fiesp há dois anos. São tecidos feitos apenas de fibras re-processadas de garrafas plásticas.

A outra atitude que se poderia encontrar no design brasileiro contemporâneo, no que diz respeito a essa reinvenção da matéria, é isso de utilizar o que é inútil. Tem coisa inútil, que ninguém dá bola, que serve para pouca coisa e de repente se dá um uso nobre a isso.

Uma das pessoas que mais tem feito isso é o Renato Imbroisi, com seu trabalho pelo interior do Brasil, unindo design e artesanato. Aqui ele usa fagulha de pinhão, e como acabamento, um tecido feito de algodão. O Renato foi um dos primeiros a utilizar sementes, que eram simplesmente jogadas fora, e a revalorizar o uso do fuxico. Ele foi um dos primeiros a resgatar essa técnica tradicional brasileira, feita com a junção de retalhos, e a palha de milho, que até então, nessas comunidades em que ele ia, era simplesmente alimento para porcos. Ele passa a usar a palha junto com um tecido de algodão feito num tear manual.

Um dos mestres em pegar material banal e reutilizá-lo é o Lino Villaventura, para mim um verdadeiro designer no campo da moda. O Lino é da Amazônia, e traz para o design uma coisa de textura muito interessante, muito amazônica.

Mas nem ele, que veio do Pará, tinha percebido a beleza das sementes de açaí, até que uma designer do Rio de Janeiro, Tereza Xavier, passou a compor a semente do açaí junto com cristais, com pedras preciosas, etc. Ela também tem esse colar/pulseira de palha de arumã, trançado com diamantes. Esse contraste de dois materiais: um banal, outro muito caro, uma coisa mais fria e outra mais quente, é o que traz essa beleza através do contraste dos materiais.
A Carla de Carvalho usa a piaçava em objetos, que normalmente é usada em vassouras. Ela tem um trabalho muito interessante em Ilhéus, na Bahia.

A terceira prática que a gente poderia falar é a prática dos deslocamentos, que é deslocar materiais, funções e componentes feitos originalmente para um uso e deslocar para outro uso diferente.

Neste campo a gente tem desde os componentes industriais, pré-fabricados, como esses anéis de PVC, de Walter Bassivangi transformados em tapetes, barateando muito o produto final. Do mesmo designer, essa concha para pegar cereais. Ele viu nela as propriedades de reflexão de luz e passou a usá-la nessa luminária.

Agora eu acho que quem traz muito essa idéia da reinvenção da matéria, que está na gênese do trabalho deles, são os irmãos Campana, que vão falar depois de mim. Então eu trouxe apenas dois exemplos, que incluí na exposição de 1999.

Essa questão dos materiais é uma das questões mais candentes do design hoje. Isso está desde o começo nos Campana, essa experimentação grande. Eu acho que essa coisa que eles sempre falam, que o cara da favela faz as coisas com uma assemblage de materiais, é que dá essa característica que eles têm, um DNA brasileiro, não do lado folclórico, estereotipado, mas é claramente um DNA brasileiro que está correndo o mundo. Essa mesa pega alguma coisa de um uso bem abjeto, que é a tampa do ralo de esgoto, e coloca na superfície onde se vai comer. Também há um deslocamento de material com as fôrmas de pizza sendo usadas nessa mesa inflável que está sendo vendida na loja do MoMA em Nova York.

O papel: essa grande coisa, que a gente recicla muito. Acho que um dos grandes nomes nisso é Nido Campolongo faz a base dessa mesa toda com bobinas de linha usadas em confecções. E esse tecido de rolinhos de papel, que também é uma prática muito popular brasileira. Ele reinventa isso, faz de roupas a bolsas.

Depois da exposição em 1999, acho que houve um surto muito grande de objetos caminhando nesse sentido. Uma das coisas muito boas que a gente teve foi o nascimento de um grupo chamado Notech. Um grupo que nega o acesso à tecnologia, como a chave para se fazer coisas e que se propõe a trabalhar com materiais baratos. É um grupo que nasceu em um workshop dado pelo Fernando e Humberto Campana no MuBE, um seminário sobre 'A construção do objeto'. Aqui a gente trouxe alguns poucos exemplos, todos usando câmaras de pneus. Uma câmara de motocicleta, câmaras de vários tamanhos, que se interpenetram e são cobertas, e câmaras encaixadas nesse tubo de ferro, formando essa cadeira.

A gente é líder em reciclagem de alumínio. Aqui é uma reutilização, com as latas de lixo amassadas e enfiadas nessa haste, fazendo esse porta-velas, do Carlos Alcantarino.

Esse uso de sementes progrediu muito. É fantástico o que a gente tem de semente brasileira e acho que a gente tem visto coisas fantásticas nessa linha.

Casca de coco que era usada só para cascalhar estradas de terra. Hoje a gente também tem um uso grande em objetos, e eu acho que o melhor uso é esse, desse paulista que está morando em Alagoas, que fez com as cascas de coco prensadas, painéis muito interessantes.

Tetrapak, outro material em uso. Banqueta usando aparas de madeira, do Lars e da Fabíola, que vão falar daqui a pouco. Reutilização de madeirame de construção, a madeira mais banal que vai para queima muitas vezes. O Carlos Motta passou a usar agora apenas essa madeira nos trabalhos dele. Materiais inusitados, como essa com ovo de ema, trançado de crochê com os lacres de latinhas de alumínio.

Esse uso do PET, que eu achei fantástico. Apenas os flocos do PET, formando a instalação dos Campana que está no CCBB em Brasília. Um uso fantástico do PET como elemento cenográfico, e a engenhosidade popular continua.

Na exposição eu mostrei esses aviõezinhos de alumínio. Tem uma infinidade de coisas. Esses cinzeiros que a gente compra nos cruzamentos em São Paulo, e tem a exposição que estava no Museu Nacional de Belas Artes no Rio, que chamava "Rua dos Inventos". É uma estudante de design, que documenta vários desses inventos feitos pelas pessoas nas ruas.

Gostaria de saber o que a Cecília tem pesquisado dessa coisa de design popular, que é uma fonte fantástica de sabedoria para a gente.

Em Salvador tem concurso de carrinho de venda de coisas nas ruas, de café, chocolate, cigarro, balas. Cada vendedor faz o seu e uma vez por ano eles fazem um desfile e vêm quem ganhou o mais bacana. Parece concurso de carnaval.

Esse capacho feito de tampinhas de refrigerante, também em exposição na "Rua dos Inventos".

Para terminar, eu quero dizer que acho que a reciclagem, reciclar exige uma metamorfose. Não só do material, do objeto, mas em primeiro lugar, de nosso olhar e, portanto, de nós mesmos. Então eu gostaria muito de que esta palestra fosse um incentivo à gente para fazer essa transformação, para a gente recuperar um pouco esse olhar novo, que é um pouco o olhar da criança também que é capaz de olhar coisas velhas e descobrir nela coisas novas.

Eu gostaria que essa palestra fosse entendida como um convite a essa metamorfose, e a essa transformação que em primeiro lugar deveria ser uma transformação pessoal de cada um de nós.
Obrigada.

* Adélia Borges é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (1973) e curadora especializada em Design. Autora dos livros 'Designer não é Personal Trainer', de 2002; 'Maurício Azeredo, A Construção da Identidade Brasileira no Mobiliário', de 1999; Prêmio Design - Museu da Casa Brasileira, de 1996; e Cadeiras Brasileiras, de 1994. Professora de História do Design Brasileiro na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Artigos seus estão em várias publicações nacionais e estrangeiras, como na revista 'Design & Interiores', que dirigiu de 1987 a 1994 e no jornal Gazeta Mercantil, do qual foi editora de Design de 1998 a 2001. Das exposições em que foi curadora destacam-se 'Uma História do Sentar', no NovoMuseu de Curitiba (PR), 'Novos Alquimistas', no Instituto Itaú Cultural (SP), e 'Maurício Azeredo', no MASP (SP). Realiza palestras sobre Design no Brasil e no exterior.

Fernando e Humberto Campana

Fernando e Humberto Campana(*)
Estúdio Campana / Brasil

Evolução do pensamento e dos princípios na produção do Estúdio Campana

Sobre o que a Adélia falou, muito se reflete no nosso trabalho. Nesses 19 anos trabalhando juntos, temos feito esse tipo de deslocamento, algumas vezes de reciclagem, ou mesmo choque de materiais.

Acima de tudo queremos apontar caminhos, nosso trabalho visa indicar caminhos para materiais que já existem, para serem introduzidos no universo do mobiliário.

Acho que isso é mais que uma utilização para uma mesma matéria, de certa forma para evitar que se inventem novas repetições de um plástico ou de outra matéria. Mas a gente vai contar um pouco sobre de onde vem tudo isso. Acho que tem uma fusão do lado rural e do lado urbano, que nos deu muita base.

Brincando, quando éramos crianças, com mandacaru, bambu, barro no fundo do quintal, foi um treino, um laboratório para o que hoje é o nosso trabalho.

A gente até recusava brinquedos de alumínio, plástico, da época, para brincar com essas coisas que eram mais engenhosas.

As nuvens serviram como fonte de inspiração no imaginário, de onde víamos cadeiras, luminárias, etc.

Também importante foi a investigação de elementos da cultura popular, como os santuários de beira de estrada.

Muita coisa que a gente faz é baseada no acúmulo, no excesso. A gente nunca deixou de lado essa filosofia. É até engraçado: na primeira vez que a gente se apresentou em uma conferência em Milão, nos anos 1990, era o auge do neominimalismo. As coisas eram muito limpas e industriais, e a gente apareceu com uma série de slides só com o excesso, com o acúmulo. Mas a gente sempre foi fiel. Na hora fiquei meio envergonhado pensando: a gente está completamente fora da história, mas na verdade a gente estava sendo fiel a uma filosofia, a uma raiz que a gente trabalha até hoje.

Essa é uma pilha de eucaliptos cortados, na região onde nascemos, em Brotas. Quando eles cortam isso, parecem catedrais, se comparado à escala humana. É muito inspirador.

Mesmo em São Paulo, nos cruzamentos da cidade, nas partes mais nobres, vê-se uma instalação, com pessoas vendendo morangos, espanadores, etc. Existe até essa reciclagem de espaços, de reinvenção de cantos da cidade. Se a gente recortar SP em tiras, temos tudo, como Japão, Itália, China, Coréia, Holanda, África... É uma colcha de retalhos.

Na avenida Pacaembu as pessoas vendem cabeças de vacas. É meio surrealista. Nos chamam atenção essas mini-estações de trabalho, onde se concentra tudo num tabuleiro ou num carrinho desses.

Os catadores de papelão de SP são verdadeiros heróis. Estão reciclando tudo. Pegam caixas de papelão no fim do dia para reciclagem. Às vezes esses caras nos atrapalham no trânsito, mas é um programa informal de reciclagem. Isso inspirou muito nossa coleção de móveis de papelão, esse acúmulo, empilhamento.

Foi aí que a gente começou a investigar, cortar e colar pedacinhos de papelão e depois fizemos a coleção de móveis.

As pessoas também usam o corpo para criar um novo objeto. Usa-se o corpo como apoio do tabuleiro de damas, e o corpo se transforma num móvel, como base para o prazer.

É como a Adélia falou: mesmo antes de existir a palavra reciclar, os países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento tiveram que adotar essa postura, não tem outra solução. Acho que isso se reflete muito no nosso trabalho.

Quando a gente não consegue o plástico adequado a gente tenta procurar o plástico já existente. Esse choque de materiais, de cores, é muito interessante.

O Oscar Niemeyer também nos influenciou muito. Crescemos com Brasília, com a modernidade, desse futuro que nunca chegou, nem sei se vai chegar.

O processo construtivo das favelas. A gente está acostumado com isso, é uma realidade triste. A gente passa e vê; é muito interessante essa arquitetura espontânea, aonde os espaços vão sendo ocupados, com liberdade, intuição.

A criatividade popular gera essa expansão caótica, onde não se segue uma regularidade. Temos a possibilidade de mudar a linha que a gente está seguindo de uma hora para a outra, diferentemente de outros países com um tempo maior de história, onde é mais difícil aceitar certas mudanças de comportamento ou arquitetura.

A fusão de raças no Brasil, com os índios, europeus, africanos e asiáticos, neste país que abriga todos de forma generosa, pela própria generosidade geográfica.

Sobre o nosso trabalho: a primeira exposição teve o nome de "Desconfortáveis". A gente estava investigando a matéria-prima, o sentar, o erro, a imperfeição. Foi um laboratório de idéias, que foi gerando novos trabalhos. Foi no final dos anos 1980, início dos anos 1990.

Nosso trabalho vai para museus, mas também vende. É a nossa marca registrada. Essa cadeira vermelha foi produzida em 1998 pela Edra na Itália. Fizemos um vídeo para mostrar passo-a-passo como se monta a cadeira.

O início do trabalho com papelão é uma investigação sobre a transparência, da passagem de luz no papelão, começando com as luminárias até os móveis. Hoje são produzidos na Itália. Fazemos paredes de papelão, também.

Essa é uma embalagem que se torna o próprio móvel. A gente queira fazer um móvel de plástico, mas não tinha dinheiro para a injeção, então fomos buscar o plástico já existente, o plástico bolha. São 40 lâminas de plástico dobrado.

O contato diário com essa paisagem das ruas, os materiais, fica na nossa memória e cria uma curiosidade. O primeiro móvel nasce do material, que vai ditar a forma e a função dos objetos. Fruteiras, biombos, a cadeira Anêmona, produzida pela Edra na Itália.

É um processo mental, nosso, de fazer essas coisas pararem em pé ou ficarem prontas. E a gente passa essa tecnologia. É engraçado, pois estamos levando artesanato para a Europa, e o que a gente está criticando aqui como projeto, nas indústrias, é muito mais limpo, muito mais industrial. Estamos fazendo uma troca. Nosso último trabalho se chama "sushi". Trouxemos essa fruteira, que gerou até uma cadeira, feita pela Edra.

Mas sempre começa assim, com a pesquisa de diversos materiais, como PVA, borracha, feltro.
Todo esse trabalho está nessa exposição em Brasília, no CCBB, onde ficamos investigando tipos de estofamento, até trabalhar com bichinhos de pelúcia, ou mesmo com esses bonecos que a gente trabalhou com a Comunidade Solidária, na cidade de Esperança (PB), onde eles fazem essas bonecas. A gente fez uma cadeira só com esses bonecos. Demos o nome de "Multidão".

Os projetos mais limpos, industriais são feitos aqui, enquanto o artesanato é feito na Europa.

Naquele curso do MuBE não queríamos criar clones dos Campana. Queríamos dar o estímulo para que cada um encontrasse seu próprio caminho de comunicar idéias.

Obrigado.

* Os irmãos Fernando e Humberto Campana têm-se destacado desde o final dos anos 1980 nos cenários nacional e internacional pela criativa e inovadora de produção de design. Uma das principais características do trabalho desta dupla de designers paulistas é a (re)utilização inusitada de materiais como papelão, plástico e cordas, além de material reciclado. Têm seus projetos autoproduzidos e também produzidos por empresas no Brasil (La Lampe) e no exterior (Edra/Mazzei, O Luce, Fontana Arte - Itália). Realizaram palestras, workshops e exposições individuais e coletivas em diversas cidades no Brasil e do exterior. Os Campana têm várias peças em coleções de museus, como Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York e Museu de Arte Moderna de São Paulo. Receberam diversos prêmios, como Prêmio Aquisição Museu de Arte Brasileira (1992), Prêmios Categoria Móveis Residenciais (1997 e 1998) e George Nelson Design Award (EUA-1999).

 

Liesbeth in 't Hout

Liesbeth in 't Hout *
Design Academy Eindhoven / Holanda

Man and Humanity e a Design Academy Eindhoven

Esta é a minha terceira vez no Brasil, e gostaria de dizer que me sinto muito honrada em poder falar sobre um projeto importante de uma das menores escolas de arte de um dos menores países do mundo. É muito interessante fazer isso.

Gostaria de contar sobre a academia, e como ela é organizada.

Já foi mencionado o projeto Design Solidário, que foi a razão da minha primeira vinda ao Brasil. Para a academia foi um projeto muito importante, um dos pilotos de alguns desenvolvimentos muito interessantes, sobre o qual eu contarei algumas estórias.

Talvez seja interessante ver como projetos como esse podem crescer na escola.

A escola fica no edifício "De Witte Dame" (a Senhora Branca), um velho prédio da Philips, que também abriga a Philips Design, em Eindhoven.

São apresentados os espaços da academia, como ateliês, estúdios, etc.

A estrutura dos cursos de graduação. São nove departamentos:

Homem e atividade, Homem e identidade, Homem e comunicação, Homem e mobilidade, Homem e espaço público, Homem e bem estar, Homem e lazer, Homem e o viver, e o ateliê.

Um dos aspectos mais importantes do tipo de formação da academia é que tentamos ensinar as pessoas a pensar conceitos, não produtos.

São trabalhados temas, que têm a duração de um trimestre, e dependendo da sua área, isso pode resultar em diversos produtos finais. Procuramos desenvolver as idéias pessoais dos estudantes, para que desenvolvam seus trabalhos de forma muito ampla, ou seja, nunca focados apenas nos produtos.

O curso de graduação dura quatro anos, com 650 estudantes, sendo que 17% são estrangeiros. A academia é patrocinada pelo governo holandês.

O curso de pós-graduação se divide em Design Industrial, Design de Interior e Design de Identidade, com duração de dois anos e com 30 estudantes (95% estrangeiros).

Mestrado em Design Humanitário e Estilo Sustentável.

Alguns trabalhos: já que estamos falando de trabalho para a sociedade (não mais a alta sociedade), é importante ver que os estudantes não querem projetar para alta sociedade. Se você pensar que a academia tem 650 alunos, se todos forem fazer uma cafeteira no final, não tem sentido. Na Holanda temos bom design, que pode ser comprado por um preço baixo.

Acho que isso faz os estudantes pensarem: o que estou fazendo nessa escola, e o que vou fazer depois? Será que eu poderia fazer coisas diferentes? Aí se vê que eles querem fazer coisas diferentes, para as pessoas, e para ajudar as pessoas. Vamos ver alguns trabalhos normais, do curso de graduação, para vocês verem como os estudantes pensam em diferentes temas sobre design. São apresentados diversos exemplos de trabalhos de estudantes, com diversos tipos de usos e materiais.

Todos os anos fazemos uma exposição em Milão, nesta importante feira de móveis. No ano passado (2002) ficamos um pouco cansados daqueles móveis maravilhosos, e pensamos: podemos fazer uma exposição também maravilhosa, com os melhores trabalhos de nossos estudantes. Mas então resolvemos não fazer isso: já é suficiente. E o que fizemos? Enviamos dez estudantes, para criar uma exposição lá, a partir do nada. Eles tiveram que achar os materiais, em todos os lugares, e montar a exposição. Dependeu deles fazer dar certo. E quando você sabe que a imprensa mundial está lá para ver tudo o que está acontecendo em design, é bastante difícil de fazer. Devo dizer que foi um trabalho infernal para esses graduandos, que tiveram tantas discussões e foi terrível, mas eles conseguiram fazer uma exposição muito boa. Vou mostrar alguns exemplos:

Para decorar a entrada, a recepção, foram usados folders de lojas de moda muito exclusivas.

Em seguida são mostrados exemplos dos trabalhos apresentados pelos alunos na exposição, de nome Improvvisare.

Foi um grande sucesso, apesar de custar muito trabalho a todos. Então a embaixada em Tókio pediu que fizéssemos o mesmo lá, então lá fomos nós. Mas foi diferente, porque Tókio e design no Japão é diferente do que se vê em Milão. É também um design mais industrial. Muito clean. Lá foi mais difícil do que em Milão. Os estudantes criaram de novo um espaço feito de todo tipo de material desprezado, foram ao mercado de peixes, para ver as caixas de poliestireno, e fizeram uma sala a partir disto, só de material encontrado e com fitas adesivas.

Eles também fizeram presentes para todo mundo, pois os japoneses adoram presentes. Eles gostam de receber pequenos presentes quando você parte. Bom, essas duas exposições foram muito importantes para nós. Provavelmente não faremos de novo, mas foi muito bom termos feito, e também para os japoneses.

Man and Humanity

O projeto que fizemos aqui no Brasil, 'Design Solidário', foi um importante projeto piloto para esse departamento que criamos, e nós abrimos este departamento de mestrado em 11 de setembro do ano passado. Há pessoas aqui que estavam lá para o seminário de abertura.

A idéia deste 'Man and Humanity' é que designers estejam repensando design para o futuro, que pensem o design de modo global. Eles fazem um projeto em países em desenvolvimento, onde eles trabalham juntamente com a artesãos locais, e em que se trocam experiências e aprendizados, uns com os outros. Na maioria das vezes (essa é a idéia) tenta-se criar novos modos de sobrevivência para as pessoas que vivem deste artesanato, que aos poucos está desaparecendo.

Agora mostrarei um projeto em Quênia. Eles devem fazer um projeto sobre um assunto local, podendo desta forma trabalhar em prisões, hospitais, casas de repouso, etc. Eles têm de encontrar um projeto bem próximo a eles. Então eles têm que fazer um projeto pessoal, para descobrir o Terceiro Mundo em si mesmo.

O que estou fazendo pelas outras pessoas, como estou me comportando com meus amigos, e como estou trabalhando junto com as outras pessoas?

Então eles estavam fazendo essas três coisas lá, e no segundo ano fizeram seu projeto final individual e assim puderam descobrir qual projeto mais os interessa, colocando pesquisa nisto, e se expressando.

Eles estão há seis meses trabalhando lá.São oito estudantes de diferentes partes do mundo. Eles foram ao Quênia para trabalhar juntos com pessoas de cinco cooperações em todos tipos de materiais. Aqui vê-se o processo, e a idéia era criar novos produtos, ou fazer pequenas modificações nos produtos que já estavam sendo produzidos, para encontrar novos mercados e novos modos de vendê-los, e fazer funcionar.

Não se pode fazer um novo design e colocar lá. Você tem que trabalhar junto, e talvez alguma pequena modificação no que eles estão fazendo. Isso é muito importante, e o mais importante nestes projetos é que você faça isso com respeito mútuo. Pode ser muito difícil quando um grupo de holandeses loiros e saudáveis chega em seu país e diz: Ok, vamos mudar tudo por aqui! É muito delicado fazer projetos como esses, e nós sempre aprendemos com isso, e vemos que ainda temos que aprender muito, para encontrar a maneira certa de lidar.

E por fim, nossa exposição na escola, que nós chamamos de "Curta a diferença". O que está acontecendo agora? Nós estivemos lá, e como vamos continuar, já que a idéia é que as instituições de lá assumam e trabalhem junto conosco, para encontrar o modo como vamos continuar com essa estória.

Será algo que eles queiram, não o que nós queremos. Algo que seja útil. Bem, isso é o que estamos fazendo.

Muito obrigada.

* Liesbeth in ´t Hout estudou no Departamento de Moda da Academia de Artes de Arnhem (Holanda). Ex-professora e atualmente membro do Conselho Executivo da Design Academy Eindhoven, atuou como ilustradora independente para várias organizações holandesas, como PTT (Correios), NS (Ferrovia estatal) e Ópera de Amsterdã. É membro do Conselho Supervisor da Academia Holandesa de Artes Visuais (Amsterdã), do Conselho Consultivo do Siemens Design Labor e da Fundação Holandesa para Artes Contemporâneas, Design e Arquitetura. Participou de vários projetos da Design Academy Eindhoven no exterior, como 'Design Solidário' (Brasil) e 'Man and Design' (Quênia).

 

Paul Meurs

Paul Meurs (*)
Urban Fabric / Holanda

Vou falar sobre o projeto 'Design Solidário', que faz parte das experiências da Design Academy Eindhoven, e que foi projeto piloto do 'Man and Humanity'.

O Design Solidário foi feito antes que o projeto no Quênia. O projeto no Quênia faz parte do mestrado da academia, enquanto o 'Design Solidário' é um experimento com os alunos da graduação.
O projeto que, como costumo dizer, constrói pontes sobre o oceano da Holanda para o Brasil, aconteceu no final de 2001, e tentou incorporar questões da economia com questões da educação e de design. Fora as confusões lingüísticas entre Holanda e Brasil, (também houve muitos mal-entendidos) houve aproximações entre várias disciplinas.

Foi muito difícil achar patrocinadores que se identificassem com o processo integral. Todo mundo que quer apoiar coisas econômicas diz: ah, mas isso é educação e quem mexe com a educação diz: ah, mas isso é design, então existe muita dificuldade, muita luta para organizar projetos, e por isso tinha muitas entidades envolvidas. Isso para dar uma idéia da quantidade de organizações envolvidas. Muito importantes foram os patrocinadores que deram poucos dólares, mas o importante do projeto foi o que aconteceu dentro deste círculo, que foi um encontro de 15 alunos holandeses. Tinha uns estrangeiros se formando na Holanda também, e duas comunidades brasileiras de artesãos.

A comunidade aqui em São Paulo de Monte Azul e a comunidade de artesãos do sertão central, que é a de Serrita, uma cidade em Pernambuco.

Nessa apresentação vou explicar esse projeto. Vai ser tão complicado que acho que vou precisar de pelo menos 25 minutos para falar isso.

Vou contar um pouquinho da experiência que nós tivemos, e tentar resumir os resultados. Se o tempo permitir vou tentar dar algumas perspectivas para o futuro do projeto.

No Brasil existem duas comunidades muito diferentes. Serrita e São Paulo ficam a 2.000 km de distância, mas também existe a distância da cidade e do campo, do sertão.

Nosso projeto reuniu campo e cidade com duas comunidades muito diferentes, mas também com laços históricos e muita coisa em comum. Em vez de termos o encontro de duas culturas, temos o encontro de três mundos. O mundo holandês, o mundo do sertão e o mundo da periferia de São Paulo.

É uma longa viagem para se chegar a Serrita. Você sai de Recife e percorre a estrada a noite toda, até chegar na cidade de Salgueiro. De lá tem que pegar carona para chegar à capital dos vaqueiros, como é conhecida a cidade de Serrita.

Fica perto de Juazeiro do Norte e Juazeiro da Bahia, uma região com muita dificuldade, muita pobreza, uma seca impressionante. Se você conhece as chuvas de São Paulo, é muito estranho ver como o mesmo país pode ser tão seco no sertão, onde há muitos séculos se vive com uma monocultura de agricultura.

Aqui umas imagens do clima, da caatinga e umas imagens da cidade, um lugar muito afastado, um mundo voltado para si mesmo, mas também com muitos laços entre si com, por exemplo, São Paulo. Todo mundo tem parente em São Paulo, e para mim, que venho da Holanda, é uma coisa incompreensível como essa pode ser uma parte do sistema, uma rede, um network city que põe Serrita e São Paulo dentro das mesmas cabeças das pessoas.

Aqui as moradias feitas de taipa, a criação de gado e os pequenos sítios, onde as pessoas moram, e têm pequenos cultivos de subsistência. Em geral pode-se dizer que cada época de seca traz mais pobreza, mais dificuldades. Então muitas pessoas vão embora. Vêm para São Paulo para trabalhar e ao mesmo tempo não surgem novas perspectivas naquelas áreas. Então esse é o grande desafio: pensar em como essas regiões secas podem criar, inventar novas economias sustentáveis para evitar a saída do campo.

Podemos falar dos problemas, da pobreza, mas também podemos falar da riqueza cultural que as comunidades têm.

Só coloquei alguns exemplos da criatividade em design, como essas malas em papel machê, imitando couro, um material mais caro.

As famílias têm laços muito íntimos umas com as outras, e principalmente a música. Todo mundo aqui conhece o Luiz Gonzaga, mas também aprendemos a dançar o forró pé-de-serra, o que não é fácil.

Isso já dá uma outra perspectiva em relação aos problemas. Ao mesmo tempo é uma região muito rica, sem querer ser romântico. Tem esses dois lados. No Brasil pensa-se muito, principalmente nos programas de combate à seca. Em cultivar a música e também no que as pessoas sabem fazer, e criar essas novas economias.

Um dos exemplos, além da música, que pode criar novas saídas, novas entradas para a economia.

Este é o curtume de Salgueiro, onde é feito um processo de couro artesanal. É uma técnica que existe há 400 anos. Cheira muito mal, mas que é um couro muito grosso, muito bonito e que é usado e aplicado em vários produtos que são usados tradicionalmente na região para a agricultura.

Aqui tem os bordados e as técnicas de trabalhar com o couro, como por exemplo, as celas de cavalo, usadas na caatinga, com o gado, e para fazer o gibão, que é o "terno do sertão". É um uniforme que dá proteção contra o sol, o clima, mas também contra a vegetação que existe na caatinga, muito espinhosa. É uma roupa extremamente útil, com muita mão-de-obra envolvida, e também com uma identidade muito própria. Aqui nessas decorações pode-se ver que o artesanato em couro naquela região é uma coisa única, é uma arte, e tem uma identidade muito específica, como os furos, a aplicação de cores, as treliças, a costura, etc.

Tem esse potencial de pensar em como usar esse artesanato, essa técnica, essa experiência, essa produção artística. Só que hoje em dia o mercado para vender gibão e celas está diminuindo. Então tem de pensar novas saídas, tem de reinventar um processo de trabalhar com o couro, para abrir novos mercados, ao mesmo tempo mantendo a identidade, a dignidade e a criatividade das pessoas que trabalham com isso, que são os artesãos de lá. A gente viu mais ou menos o desafio de Serrita.Agora vamos passar para São Paulo.

Monte Azul é uma favela que se localiza ao lado da ponte João Dias, uma das referências da Marginal do rio Pinheiros, onde também está chegando o metrô, tem o terminal de ônibus, a estação de trens.

Monte Azul não é muito grande, mas às vezes as pessoas chamam de favela cinco estrelas, o que eu não acho justo. É uma favela que tem um trabalho social instalado há muito tempo, e com isso a favela conseguiu muito se organizar por si mesma, fazendo contatos com o mundo lá fora, conseguindo verbas, patrocínio, apoio, para a construção de creches, um centro de convivência, um teatro, urbanizando a favela. O córrego foi canalizado, ganharam uma praça. Aos poucos a favela está virando um bairro da cidade, e tem todo esse trabalho social inspirado na antroposofia, que fez a Monte Azul diferente das outras, mas ao mesmo tempo continua uma favela, portanto jamais se pode chamar de um bairro nobre da cidade. Acho interessante para nós trabalharmos juntos com as pessoas da Monte Azul é que lá tem uma infra-estrutura instalada para receber pessoas de fora, então não teve esse choque total. Todo mundo se acostumou rápido com o projeto. E também acho que a Monte Azul tem um papel de vitrine, ao mostrar que tem saída para tantas outras realidades piores no Brasil.

Então, ao invés de buscar um desafio, saindo da Holanda, a gente jamais ia conseguir construir um trabalho conjunto numa favela muito decadente. Nosso caminho para a Monte Azul deu certo porque a gente se entendeu bem. Começamos a pensar em alternativas e coisas que podem ser uma referência para outros projetos em tantos outros lugares do Brasil, como tem tantas outras referências.

Uma das coisas que também se instalou na Monte Azul ao longo dos anos foi a marcenaria, que na verdade é uma escola. Tem ateliês, onde as crianças da favela e das favelas vizinhas aprendem técnicas e ganham diplomas, certificados oficiais, do Sebrae. Com esse diplomas eles podem entrar no mercado de trabalho e ao mesmo tempo as marcenarias produzem também produtos. Então é escola e fábrica ao mesmo tempo. Só que a produção da favela é uma coisa meio estranha. Eles produzem brinquedos que são réplicas de brinquedos alemães do século 19, inspirados na antroposofia. A antroposofia é uma linha muito importante em toda a ação social na Monte Azul. É claro que é muito interessante que as crianças aprendem, produzem brinquedos, vendem os brinquedos nas lojas, e com isso ganham dinheiro para construir mais equipamentos sociais para a comunidade. Mas ao mesmo tempo é um pouco chato porque a produção deles é limitada a reproduções européias, que vêem de muito longe.

Outra coisa é que o mercado para brinquedos pesados não está crescendo muito. Só algumas lojas é que vendem. Mas é interessante pensar como esses ateliês da Monte Azul podem procurar outros mercados, pensar em produtos muito mais próprios de uma identidade de uma realidade ligada à periferia de São Paulo do que à realidade antroposófica alemã.
Também se pode pensar em desenvolver tecnologias mais distintas, em que os produtos de lá vão se destacar no mercado.

Estou falando de madeira, mas a Monte Azul também tem ateliês onde são fabricadas bonecas, também inspiradas nos exemplos alemães. Tem o ateliê de papel, onde eles reciclam papel, e fazem um papel muito bonito para cartões de Natal, etc.

E a Monte Azul também tem uma oficina de reciclagem de móveis, onde eles coletam móveis velhos e refazem. Então sentimos que o desafio de Serrita de pensar que a identidade do couro, do artesão do sertão, como base para novos produtos que podem entrar em novos mercados, e o desafio de São Paulo é o de pensar em produtos, linhas com uma identidade nova que também podem ser aplicados em mercados novos.

Mas ao mesmo tempo em que é muito legal fazer projetos com esses três mundos, uma escola da Holanda, artesãos brasileiros, A Casa e muitas entidades, acho que em primeiro lugar devemos ser muito modestos quando a gente pensa num projeto tão ambicioso que está unindo os mundos.

Eu coloquei aqui o que a gente tinha na cabeça quando começamos o projeto. Porque podemos talvez trazer para o Brasil ou desenvolver no Brasil uma cooperação, sem ter nenhuma intenção de vir ao Brasil e falar como tem de ser feito, porque estamos muito conscientes das capacidades brasileiras existentes. Acho que é muito mais o processo de procura. Uma procura que pode ser feita sozinha no Brasil numa comunidade, com entidades que estão trabalhando juntas no Brasil, mas também pode ser feita com entidades que vêm de fora. Essa busca coletiva, acho que é o que fez do 'Design Solidário' um desafio muito grande. E também quero lembrar que é um projeto piloto, então não é para ter as respostas, mas sim para avaliar essas experiências do como nós podemos aprender, seja na Holanda como alunos, seja no Brasil como artesãos e comunidades.

Aqui coloquei como podemos pensar em novos produtos e levar idéias. Temos algumas técnicas novas que podem ser aplicadas nas cooperativas.

O projeto chamou muito a atenção da imprensa. A nossa presença fez Serrita famosa em São Paulo, sem a gente mexer com nada.

Talvez nosso projeto de cooperação seja um ponto a favor de atrair novos investimentos e pensar em exportação dos produtos.

O projeto é modesto, mas não é tímido. Não é para induzir alguma coisa no Brasil, mas para aprender junto e tentar melhorar a profissão dos dois lados.

Esse processo de ver o que acontece no mundo e com isso enriquecer, ficou sendo nosso desafio.

O nosso projeto ficou assim: A primeira parte foi feita em Eindhoven, no ateliê de Hella Jongerius, em que os alunos trabalharam com os materiais a serem usados no Brasil: couro, madeira, papel e bonecas. Pensando em como usar, reciclar esses materiais para novos produtos.

A partir daí dividimos: cinco foram para Serrita, para trabalhar nas cooperativas junto aos artesãos, refazendo, reciclando e reinventando as nossas idéias. Foi um processo de criação e reciclagem. Criação de idéias dos alunos holandeses, sendo reciclados com os artesãos brasileiros.

Dá para imaginar que essa é uma experiência muito rica, para tentar chegar aos resultados, e ao mesmo tempo buscando a reciclagem de soluções para abrir esses novos mercados.

O encontro cultural pode ser o ponto forte, mas também pode ser o ponto fraco do processo. É também um encontro de realidades opostas, com o choque cultural dos dois lados. O choque dos holandeses com a pobreza, o lado sujo do Brasil, muito presente tanto no campo quanto na cidade.

Ao mesmo tempo, dentro deste contexto, nas cidades do interior e nas favelas há muita energia acumulada, criatividade e muita dignidade das pessoas em levar a vida delas. A idéia é de usar essa energia, todas as coisas boas que estão nas favelas e fazer essas coisas crescerem.

O desafio do encontro das culturas, o choque entre riqueza e pobreza em vários sentidos. A língua acabou não sendo um problema. Todo mundo se entendeu bem.

Dentro desse encontro das culturas tem um potencial muito grande para a renovação das tradições brasileiras. Se a gente faz projeto com holandeses, as idéias vindas de lá podem ser férteis aqui no Brasil.

Os experimentos com couro têm muito mais perspectiva, porque lá foi repensado o que se pode fazer com os objetos, mas deixando toda a identidade do produto.

Quanto aos resultados, eles estão presentes dentro de todos que participaram do projeto. A experiência do encontro já valeu a pena.

Os resultados do projeto foram apresentados um mês depois que chegamos do Brasil. Foi um mês de trabalho duro. Foi feita uma mostra em São Paulo e outra em Recife, com os objetos criados e os produtos feitos na cooperativa.

Um bom resultado foi a publicidade gerada, um passo a mais nesse caminho de pensar o artesanato não como uma coisa da periferia da economia, mas como uma potência muito grande para a renovação da economia brasileira. Para se criar empregos no Brasil, é muito mais nas pequenas empresas, pequenas indústrias, e talvez esse projeto possa ajudar um pouco, como tantos outros, a descobrir o potencial imenso na economia brasileira.

O resultado final nos produtos: foi desenvolvida uma linha de produtos em couro em Serrita, onde os produtos não têm exatamente a ver com a cultura local, mas em que o artesão pode deixar sua marca específica.

Foram feitas 500 peças de couro em Serrita, e objetos de papelão na Monte Azul.

O futuro da experiência: a idéia da Academia é voltar para trabalhar junto com essas comunidades. Pensamos em fazer um Design Solidário 2, melhorando as técnicas, aumentando a produção, estimulando a exportação e criando novos produtos.
Obrigado.

* Paul Meurs é arquiteto, sócio da empresa de pesquisa Urban Fabric Schiedam e associado de 'Mecanoo Architecten' em Delft. Doutor pela Universidade Livre (VU) de Amsterdã e professor da Universidade Tecnológica de Delft. É pesquisador da Arquitetura brasileira, organizador do livro 'Brazilië – laboratorium van architectuur en stedebouw' e autor de diversos artigos publicados no Brasil e na Holanda. Organizador do projeto 'Design Solidário' para desenvolvimento de produtos e marketing para cooperativas de artesãos de couro em Serrita (PE) e várias oficinas na Favela Monte Azul (São Paulo), em colaboração com a Design Academy Eindhoven, 'A Casa', Acoma (São Paulo) e Fundação Padre João Câncio (Serrita) Curador das exposições ‘Motopias’ e ‘A2, the Trans Netherlands Highway’ na I Bienal de Arquitetura de Roterdã, em maio de 2003.

 

Público do evento

Perguntas do público

Renata, coordenadora da 'A Casa' (www.acasa.org.br - que tem como foco de interesse os universos do artesanato e do design e de suas inter-relações): "Fomos parceiros no projeto inovador 'Design Solidário' Brasil-Holanda, e como nossa experiência até então incluía designers e artesãos brasileiros, pudemos avaliar a complexidade e os desdobramentos inerentes a um projeto do porte do Design Solidário.

Pergunta para Paul Meurs: como vocês poderiam considerar a possibilidade de colaboração de designers também de países onde se realizam os projetos?

E como é decidido o tempo que a ação educativa dispõe para que os estudantes realizem o projeto em determinado país? É um tempo fixo, ou variável, de acordo com o projeto a ser realizado?"

Paul Meurs: o que enriquece o design, a arquitetura, qualquer disciplina, é o contato com coisas inovadoras. Quanto mais idéias, de mais longe, mais lugares possíveis, enriquece mais. Claro que posso imaginar projetos como Design Solidário com a participação de brasileiros, assim como a presença de designers brasileiros na Holanda. Isso já acontece na Arquitetura. Não existe um escritório holandês só com holandeses.

Qualquer desafio de design deve ter idéias de todo o mundo. Mas cada projeto deve ser pensado muito bem, pragmaticamente. Como é viável organizar. Devido à quantidade de entidades envolvidas, e como pode ir para frente.

Quanto ao tempo do projeto: é uma loucura fazer um projeto em três semanas, e me surpreendo muito com os resultados, muito além do que imaginamos com antecedência. Se for para dar continuidade ao Design Solidário, temos que pensar em maneiras mais flexíveis. Se em Serrita eles querem, por exemplo, em vez de cinco estudantes, só um estagiário para ficar um ano ajudando na produção. Também temos que acertar melhor as futuras tarefas, mas ao mesmo tempo tem que se encaixar nas oportunidades dentro da estrutura de ensino. Acho muito rico que o Design Solidário não é empresa, mas escola, e ao mesmo tempo tem que ser viável em termos financeiros.

Juliana – (jornalista) Quer saber de Paul Meurs se o projeto vai ter continuidade, se os produtos foram levados para a Holanda e qual a aceitação.

Paul diz que sim, os produtos foram levados para uma mostra na escola em Eindhoven e depois voltaram para o Brasil, mas não estão no mercado. Existe algum interesse dos EUA para importar os objetos, mas que estão em processo de pesquisa para viabilizar.

José Carlos Mendonça pergunta aos Campana se eles perceberam alguma mudança de percepção ou oportunidades em relação ao trabalho deles no circuito Milão-Tókio, e se agora o trabalho deles é tratado como design sério por esses mercados.

Fernando Campana: Sim. Houve uma modificação, causada por uma insistência, por uma crença num fazer manual de móveis e de nossa expressão própria, de conquistar um mercado, um respeito no mundo do design. Isso é uma forma de exemplificar que existem outros caminhos a serem percorridos além dos já estabelecidos. Levar o artesanato para uma empresa européia é um desafio, e para isso você tem que ter um respeito. No começo nosso trabalho foi tratado um pouco como pitoresco, mas com o tempo nós provamos o contrário. O mundo provou, com as peças que foram a diversos museus do mundo, que não era folclore. O mundo está mais receptivo, a Itália inclusive, ao que vem de fora.

Outros centros também estão mais receptivos. Nosso trabalho passa por uma linha sutil entre o kitsch e o regional. Deve ser trabalhado com muita delicadeza.

Design se tornou mundial. O desenho dos objetos passou a ser determinante na escolha do consumidor. Design não é só mobiliário. Tudo que tem projeto é design.

Adélia: acho que por modéstia, os Campana não disseram que têm sido apontados como o acontecimento mais importante dos últimos tempos. Antes não havia interesse sobre a produção do hemisfério sul. O tremendo sucesso dos Campana lá fora existe por uma razão básica: eles não se travestiram de italianos ou holandeses para fazerem sucesso lá.

Queria fazer um comentário sobre o Design Solidário:

Eu achei maravilhosa a estrutura da escola de Eindhoven. Gostaria de cumprimentá-los por essa disciplina e achei interessante o interesse da Holanda e a apresentação do Paul. Mas gostaria de fazer uma observação: como vejo esse projeto como um piloto que vai ser aperfeiçoado; os estudantes trouxeram os protótipos prontos, fazer o projeto tanto em Serrita quanto na Monte Azul, deu mais ou menos no mesmo. Como disse o Paul "o produto é extremamente fashion. Não tem nada a ver com Serrita". Acho isso muito sério. Esses programas devem ser feitos com extremo cuidado, porque às vezes é o erudito que ganha nesse contato com o popular. A comunidade de Serrita ainda estava muito virgem e muito genuína. O resultado do projeto lá levou uma linguagem internacional, clean, padronizada, de que até o Primeiro Mundo já se cansou. Em Serrita não houve uma verdadeira troca. A questão do respeito mútuo, e de se achar a identidade do local em que se está trabalhando, é muito importante, assim como se deve envolver professores e alunos do local. Quero cumprimentar a iniciativa, mas dizer que alguns cuidados devem ser tomados, para que se celebre a diferença, mas que não se padronize e acabe com a diversidade, que é uma das riquezas do mundo hoje.

Liesbeth: quero dizer que concordo com você. Essa foi nossa primeira conclusão.

Por isso foi um piloto. Foi a primeira vez que fizemos isso na escola. Ficamos muito felizes de ter a oportunidade de trabalhar com algo que estávamos desejando, e de um modo muito sério. Porém quando o projeto terminou, achamos que não era o modo certo de fazer. Quando você trabalha com artesãos, deve realmente trabalhar junto, e aprender com eles. Eles são profissionais em seu artesanato, e nós somos apenas estudantes criativos. Também acho que deveríamos incluir gente daqui, que pudessem continuar e dar seqüência, desde que é o país deles.

Mas a partir do momento em que assumimos o projeto, nos sentimos responsáveis por ele. Nossa responsabilidade é com todos os envolvidos, e não somente com a escola holandesa. Também fizemos isso pensando que nossos estudantes deveriam aprender – e aprenderam muito -, e onde eles mais aprenderam foi ao viver junto com aquelas pessoas, com as famílias, cozinhando com eles, fazendo música com eles, e aprendendo uns com os outros. Foi uma experiência maravilhosa para ambos os lados. Todo o processo foi fantástico. Nós não vemos de um modo em que temos as respostas. Temos a mesma idéia sua, de que temos de trabalhar e respeitar os produtos que já são feitos lá. Podemos inclusive chegar a um ponto de dizer: nós não podemos fazer nada. Eu não acho. Penso que é justo fazer isso. Aquelas pessoas são muito pobres, e precisam de alguma ajuda. Talvez de nós ou de outras pessoas, outros estudantes. Nós queríamos muito fazer isso, e ficamos muito felizes por ter feito.

A mediadora Maria Cecília coloca que o assunto levantado é muito sério, e por isso mesmo o objetivo deste seminário é colocar em discussão e repensar as relações entre design e sociedade. "O Paul colocou que eles chegaram para trabalhar nos dois projetos com muita modéstia. Essa atitude de modéstia é a mesma dos artesãos que estão excluídos do mercado, de produtos, de comercialização. Seja a exclusão social imensa que encontramos no nosso país e que hoje é a grande agenda do presente governo federal. Essa atitude de modéstia não pode gerar uma posição de estetização desta miséria, como tanto vem gerando uma grande discussão na produção de imagem e na própria mídia. Esse tema é bastante profundo e complexo. Queria deixar uma questão para ser pensada: esses produtos que nós vimos, seja dos artesãos, seja dos catadores de papel ou outros produtos de design espontâneos que aqui foram mostrados, que vieram de pessoas severamente excluídas da sociedade. É preciso que a gente considere e tenha em mente que essas pessoas não se consideram vítimas. Elas não se consideram passíveis de uma visão exótica, seja de nós brasileiros, seja de quem vier de fora. São pessoas que trabalham profundamente, e a capacidade de projeto mais do que nunca foi demonstrada e manifestada aqui. Essa é uma questão crucial. Nós não temos como não enfrentar, mas devemos enfrentar com a devida profundidade que a complexidade da questão nos coloca."

Maria Lucia Barbosa (joalheira) cita que trabalhou com resíduos minerais em Quixeramobim (CE). Segundo ela, o trabalho dos holandeses foi riquíssimo, ao incentivar o uso da memória cultural (na forma da transformação de objetos dessa cultura) para gerar trabalho e renda. O design tem essa função de servir de antena para o que acontece, unindo o novo à memória.

Neto – (estudante de design) pergunta aos Campana se existe uma idéia ou intenção por partes deles, que já conseguiram introduzir o design brasileiro no "centro sagrado" do design, como Itália, de realizar sua produção aqui no Brasil.

Fernando: nos últimos slides mostramos objetos produzidos aqui, pela La Lampe, Arredamento, etc. No último projeto, de Brasília, usamos matéria-prima produzida pelo projeto da Comunidade Solidária. Nós não queremos ser produtores, mas tentamos indicar caminhos para que empresas peguem nossos projetos e levem a essas comunidades. A Edra tem interesse em produzir nossos móveis no Brasil, porque a mão-de-obra aqui é mais barata, o que iria baratear os custos.

 

Ida van Zijl

Ida van Zijl *
Holanda

Obrigada.

Vou tentar contar algo sobre as idéias e filosofias de Droog Design (DD).

Este é considerado um ícone da coleção de DD. Foi desenhado em 1980 por um jovem designer de Utrecht. A principal coisa que ele queria quando fez isso não era projetar. Ele queria começar com um croqui, de um jeito como Robinson Crusoé em sua ilha. Ele queria fazer coisas com tudo ao seu redor. Ele coletou 20 gavetas antigas, de diferentes usos. Fez uma moldura de madeira para cada uma delas e amarrou tudo com um cinto. Foi isso. Ele pegou as gavetas como elas eram, incluindo seus defeitos. Foi uma improvisação deliberada.

Este design não é apenas um objeto, mas um tipo de crítica. Muita crítica. Ele critica o design elegante e estabelecido, critica a abundância em design, o consumismo excessivo. É também um protesto contra a crescente complexidade da profissão.

Pelo menos no começo muitas pessoas não gostaram. Também foi difícil de aceitar, por exemplo, que não tem uma forma fixa. Você pode espalhar as gavetas do jeito que você quiser.

O Museu de Roterdã comprou essa peça para sua coleção, e quando foi emprestada para uma exposição em outro lugar, o pessoal do museu passou metade de um dia tentando fazer parecer exatamente como estava na foto feita antes. Essa não era, absolutamente, a idéia do autor.

Nos dez anos após a execução desta peça, foram vendidas 25 cópias a museus e colecionadores. É uma peça muito cara. Para cada nova peça o designer tem que encontrar 20 outras gavetas e um marceneiro tem que fazer as molduras para cada uma.

Design é comunicação

As teorias da nova economia, como a tecnologia da informação, estão especulando sobre menos propriedade. De acordo com essas teorias, nós não deveríamos possuir as coisas que usamos. Para os ambientalistas isso é uma boa nova. Neste novo modelo, produtos materiais seriam um meio ao invés de um fim.

Além do objeto

Há alguns anos atrás uma agência de publicidade holandesa criou uma marca baseada nesse princípio. A marca "Do", que não era ligada a um produto específico. A companhia queria estimular mais ação por parte dos consumidores.

"Do" pode ser qualquer coisa, desde que consiga que os usuários partam para a ação.

Design é experiência

Os produtos ganham vida quando você os ativa.

As coisas mostradas até agora são baseadas em mentalidade.

Renny Ramakers e Gijs Bakker começaram em 1993 porque eles descobriram um novo desenvolvimento no design jovem holandês e queriam apresentá-los num palco internacional.

Todo design era baseado em conceitos. Por isso o nome "Droog" (seco).

Começou como uma reação ao Design (com D maiúsculo), ao modo como design deveria parecer.

Assim começou o DD. Colecionando produtos para apresentá-los com o nome Droog Design. Representa uma mentalidade. Agora há mais de 100 produtos na coleção. Todos esses produtos são apresentados mundo afora em exposições, feiras e lojas.

O que mais está fazendo DD? Estamos trabalhando em encomendas para companhias e instituições internacionais e convidando jovens designers para participar.

Esses projetos e objetos são apresentados em Milão todos os anos, e agora DD tem uma loja/galeria. É um pequeno lugar no centro histórico de Amsterdã, ligado ao estúdio. Eles apresentam os produtos da coleção DD, mas também exposições temporárias.

Por DD não ser um estilo, ou modo de desenhar, mas principalmente uma mentalidade, eles podem ser muito flexíveis. A abordagem conceitual os encoraja a se mover pelas fronteiras de diferentes disciplinas, desenhando produtos, mas também interiores de lojas, vitrines e outros conceitos de comércio varejista.

Ao construir uma rede, DD é capaz de - se necessário - contar com o conhecimento de especialistas, e rapidamente e facilmente obtê-los.

Também os critérios são flexíveis. DD está interessado em produtos baseados em idéias frescas, feitas de um modo seco, limpo e interessante. Essa flexibilidade é uma necessidade de estar na linha de fronte. Qualidade é uma noção dinâmica, sujeita a transformação pelas culturas.

DD apresenta produtos, mas quer comunicar, através deles um novo modo de design. Design deve manter o diálogo com o mundo ao seu redor. Inspirar-se na tecnologia, assim como na vida cotidiana. Redefinir a profissão em relação ao tempo e contexto.

Fazer mais com menos.

Produtos ocupam espaço.

O mundo precisa de novos produtos o tempo todo?

Às vezes é melhor não fazer nada.

Foi feita a apresentação em Milão do 'Hotel Droog', um hotel no centro da cidade. Adicionamos alguns itens para torná-lo mais agradável. Foram 6.000 visitantes em quatro dias, e acho que a maioria gostou muito.

Ideologia do novo e do velho / depreciação natural

Incorporar as devastações do tempo

Re-uso

Produtos podem ganham uma nova vida.

Incorporar futuras possibilidades

Perfeição / imperfeição (como qualidade no design)

A relação entre pessoas e produtos

Lembranças / familiaridade

Interação

Globalização / identidade

Conclusão:

Todas essas atitudes representam um sinal do tempo.

Algumas palavras-chave: globalização, velocidade, novidade, beleza, perfeição, atração, estilo, consumo, lucro.

Essas atitudes estão fortemente conectadas com a atual cultura global, mas de certo modo também complementar a essa cultura. Nem todos os produtos têm de satisfazer às mesmas demandas.

É por isso que os designers devem ter o espaço para fazer designs que não sirvam necessariamente a meios práticos, mas que apelem à imaginação e abram novos horizontes.

A prática do design onde o produto é seja o resultado de um processo criativo.

Um processo inspirado por tecnologia nova ou velha.

Acho que ficou claro que para DD em design os imperativos culturais vêm em primeiro lugar.

Obrigada

* Ida van Zijl estudou História da Arte na Universidade de Leiden. É vice-diretora do Centraal Museum em Utrecht, onde também é curadora. Tem experiências em vários comitês e conselhos, entre outros, Comissão para Artes Visuais e Fundação para Designers Gráficos. Foi curadora de várias exposições, entre elas uma que veio ao Brasil, sobre a obra do designer Gerrit Rietveld, exibida na Bienal de São Paulo em 1992. Foi curadora da exposição Droog Design em 1997, que foi a vários países, como Holanda, Israel, Dinamarca e Japão. Sua exposição mais recente é "Ideaal Woning" (viver ideal), no Centraal Museum de Utrecht. Ida escreveu vários livros e fez várias publicações, entre outros um livro sobre Droog Design, em 1997, e "Objects to Use - Gijs Bakker", que é um dos fundadores do Droog Design.

 

Fabíola Duva Bergamo e Lars Diederichsen

Fabíola Duva Bergamo e Lars Diederichsen*
Terra Design / Brasil

Responsabilidade Social e Ambiental do Design

Lars: Boa tarde a todos

Acho muito legal o interesse por esse tema, porque há uns anos atrás havia pouca gente participando dessas discussões, e hoje esse interesse tem aumentado.

Vamos mostrar um trabalho que fazemos desde 1995 com artesãos, mas antes gostaria de dizer como é ser designer no Brasil.

Para suplantar as dificuldades técnicas que temos no Brasil, temos que usar a mais criatividade. Talvez seja um paralelo com a Holanda, não no sentido de conceito, mas no sentido de necessidade.

Como trabalhamos com pequenas empresas, é difícil conseguir investimentos em moldes, por exemplo, então temos que pensar em projetos simples e inteligentes, como famílias de produtos.

Na questão ambiental, fazemos uso de madeiras com o selo verde, mas é uma questão que só agora começa a despertar o interesse dos empresários, de usar material ecologicamente correto.

Algumas mostras, como 'Brasil faz Design', ou 'Brasil Natureza' ajudam os designers a desenvolver a criatividade e a brincar com esses materiais.

Fizemos experimentos com mesas de tampo látex com fibra de coco e outros.

Firmas que trabalham com fibras, como o vime, hoje estão fazendo parcerias com o design, e valorizando as técnicas tradicionais.

Hoje ocupamos grande parte de nosso tempo com o trabalho junto às comunidades de artesãos, e temos trabalhado menos com design.

Aqui alguns pontos importantes, que são a base do nosso trabalho:
Identidade local / regional
Meio-ambiente
Matéria-prima local
Cooperação
Técnicas tradicionais
Auto-estima

Em 1995/96 participamos de um workshop na Sebrae, que foi o início deste projeto, que dura até hoje.

Numa cooperativa de senhoras japonesas, desenvolvemos produtos de bambu, a partir de alguns já existentes.

Diversos produtos, junto a diversas comunidades do interior, foram desenvolvidos utilizando matéria-prima da natureza por eles usados, como sementes, palhas e madeiras.

Fazemos também as logomarcas e a identidade visual para levar os produtos ao mercado e viabilizar a comercialização.

Fabíola: Complementando essa estória das embalagens. Normalmente os artesãos enviam seus produtos em caixas que eles arrumam em mercados, etc. e isso também é uma forma de reciclagem. Para acabar com isso e não ter que fazer uma caixa para cada produto, o que seria inviável, foi pensado num papel de embrulho com uma etiqueta. Eles continuam colocando dentro das caixas que eles arrumam, porém embalados com a etiqueta com os dados sobre o produto. Assim cria-se uma apresentação de qualidade sem um gasto excessivo.

Duas das coisas principais nessas oficinas são: Responsabilidade e Valorização.

Ao chegar nessas comunidades, mexe-se em relações há muito estabelecidas:
Artesão – trabalho / importância (p. ex.: local inadequado, sem boas condições)
Artesão – artesão / cooperação (a maioria trabalha separadamente)
Artesão – família / conflitos (quando as mulheres passam a ganhar mais que os homens, ou crianças que podem ganhar como trabalho, p. ex.).
Artesão – design / direcionar (não chegar com produtos prontos, mas abrir caminhos para seguirem em frente).
Expectativas – lidar com as expectativas geradas com a chegada das oficinas.
Valorização
Artesão – profissional – pessoa
Produto – Matéria-prima
Técnica
Elementos culturais
Qualidade
Relação – produto / mercado
Diretrizes
Extrativismo - replantio de capim-dourado, diversificação de produtos, novos modelos; barro para cerâmica, buriti, sisal.
Uso de resíduos - folha de bananeira, casca de laranja, fibra de bagaço de cana.
Criatividade popular – com o uso de técnicas tradicionais e materiais muitas vezes à disposição, pode-se alcançar uma grande qualidade e um mercado para o artesanato popular.

* Fabíola Duva Bergamo formou-se em Desenho Industrial pela Universidade Mackenzie (1982). Fez mestrado na Academia Domus de Milão, Itália (1986/1991) onde trabalhou posteriormente em vários estúdios. Lars Diederichsen formou-se em Desenho Industrial pela Faculdade FH Kiel, Alemanha, após um curso técnico de marcenaria e madeiras na empresa Heuer (Kiel). Em 1990 trabalhou no Studio Raul Barbieri (Milão). Fabíola e Lars fundaram em 1993 o Terra Design em São Paulo, onde elaboram projetos para diversas empresas do ramo moveleiro e de iluminação. Fabíola e Lars trabalham há vários anos como consultores do Sebrae, elaborando projetos junto a comunidades artesanais em vários Estados do Brasil. Participaram de várias mostras nacionais e internacionais e ganharam importantes prêmios, como o Dupont Design Award, Abilux e Museu da Casa Brasileira. Prestam consultoria para empresas e instituições, como USP, Sebrae, Senai, Senac e Pnud.

 

Dodora Guimarães

Dodora Guimarães(*)
Centro de Artes Visuais Raimundo Cela / Brasil

Juazeiro do Norte, a terra da re(i)novação

Boa tarde a todos, e obrigada pela oportunidade de trazer o Ceará e Juazeiro do Norte até São Paulo.

Que aqui já teve a oportunidade de conhecer esse universo da terra do Padre Cícero vai compreender que vou falar aqui de alma.

A alma do negócio, da fé, da clarividência de alguém que vislumbrou a possibilidade de uma cidade fundada nos princípios que ele chamava "a oração e o trabalho".

Antes mesmo de existirem as escolas de design e o Sebrae, um missionário o sertão viu na cultura do povo, na grande imaginação, a possibilidade de uma nova vida.

Esse homem tinha diversas qualidades além dessa grande visão. Foram essas qualidade, e sobretudo sua crença no sonho que fez com que surgisse essa cidade.

Ao contrário do que muita gente pensa, o sertanejo não é um desculturado, mas uma pessoa detentora de muita sabedoria, cultura e uma visão de mundo muito particular.

Em 1985 fui ao Juazeiro, e fiquei seduzida por aquela cidade com seu ritmo cinematográfico, e onde as pessoas eram motivadas por valores que a gente achava que nem existiam.

Quando o padre Cícero resolveu fazer aquela cidade, ele pregou que cada casa deveria ter na entrada um santuário, e nos fundos, uma oficina.

Juazeiro é marcada pela história das secas, assim como todo o Ceará, e é também um entroncamento do Nordeste, pela localização geográfica (no vale do Cariri), fazendo divisa com Pernambuco, Piauí e Paraíba.

Além de ser uma cidade onde tudo se renova constantemente, esse sentido da renovação também está ligado à religiosidade do lugar.

Os santuários domésticos têm de ser renovados anualmente, então essa é uma prática comum, tendo sido acumulada ao cotidiano.

As inovações são assimiladas, de acordo com a cultura local.

Segundo o imaginário popular o padre Cícero não morreu, mas viajou. Reze a lenda que fez sua viagem subindo numa escada de luz rumo ao céu, onde está ao lado de Nossa Senhora das Dores.

Lá eles se referem ao padre Cícero como se eles estivesse vivo e presente.

A fé transforma o tempo, espaço e o cotidiano deste território mágico.

O padre Cícero (1844-1934) foi um líder religioso, mas principalmente líder político, e é considerado santo por seu povo.

O local atraiu fiéis de toda a redondeza, atendendo ao pedido do padre Cícero: "Romeiros, tragam a sua arte para Juazeiro do Norte".

Em 1889 aconteceu o milagre da hóstia, quando numa Sexta-feira Santa ao dar a comunhão para a beata Maria de Araújo e essa hóstia transformou-se em sangue.

Por essa razão o povo passou a conclamá-lo o santo do sertão, e ao mesmo tempo a Igreja o afastou.

Esse fato fez com que a cidade se desenvolvesse bastante, atraindo gente de toda a redondeza.

Quando as pessoas iam se instalar em Juazeiro, o padre perguntava sobre o ofício de cada um, e se estivesse de acordo com as necessidades da cidade, essa pessoa era orientada para que desenvolvesse aquele ofício. Assim a cidade foi sendo organizada de acordo com os ofícios.

Isso foi estruturado de tal forma, que sobreviveu ao tempo e a cidade continua nesse ritmo.

As tradições populares estão vivas na sociedade de Juazeiro.

É um exemplo para que trabalha com arte, invenção e qualidade de vida.

O retalho é usado como material (reciclado) de artesanato, com o qual se fazem panos e mesmo objetos, além da técnica do fuxico.

A exposição "Admiráveis Belezas do Ceará ou o Desabusado Mundo da Cultura Popular", no Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza, resume bem o que é esse povo "desabusado" do Ceará.

* Dodora Guimarães é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (1977) e especializada em Teorias da Comunicação e da Imagem (1993). Iniciou sua carreira como publicitária, com criação e redação. Em 1982 abriu a Arte Galeria (Fortaleza), voltada para difusão e comércio de arte contemporânea, em atividade até 1993. Fundou, com Sérvulo Esmeraldo, a Xisto Colonna Edições de Arte, (livros de artista, múltiplos e gravuras). Curadora-assistente da I e da II Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras (Fortaleza, 1986 e 1991). Dirige o Centro de Artes Visuais Raimundo Cela, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará desde 1994. Coordenou o sub-programa 'Design e Artesanato' do Instituto Dragão do Mar (1996-1997). Curadora de exposições como 'Universo Cariri', 'Jangada', 'Admiráveis Belezas do Ceará ou o Desabusado Mundo da Cultura Popular'. Curadora-adjunta do Itaú Cultural - Projeto Rumos Visuais 1999/2000. Co-autora do livro 'Ceará feito à mão' (Terra da Luz, Fortaleza, 2000). Vive e trabalha em Fortaleza.


Lacides Manuel Marquez * Philips Design / Holanda

Philips Design e Sociedade: Pesquisa de Design, o diálogo contínuo.

Gostaria de dizer que minha palestra vai ser um pouco diferente, porque a perspectiva que temos numa companhia como a Philips (especificamente Philips Design), tem pouco a ver com resíduos de cocos e plantas. De fato nós somos uma indústria de tecnologia. Queria passar a nossa visão sobre o que deveríamos visar em termos de sociedade e sustentabilidade.

Quando Stefano Marzano me pediu para representar a Philips Design neste evento, fui dominado pelo pensamento de como eu, um simples designer de produtos poderia descrever a complexidade das parcerias que temos tentado desenvolver, e o entendimento e conhecimento que tentamos construir, aos nos esforçarmos para investigar as relações que o design tem com a sociedade. (enquanto uma empresa, designers e indivíduos).

De fato, tudo o que a Philips Design faz, tem a ver com a sociedade, uma vez que não investimos ou desenvolvemos nossas tecnologias, nossos metodologias, produtos, sistemas e serviços, num vácuo sem contexto. Estamos sempre focando nas pessoas e seus ambientes, suas necessidades, aspirações, sonhos e, talvez agora, seus medos. Antes disso, porém, temos de ter a humildade de nos perguntar o que realmente acreditamos ser design.

Vários conceitos dentro de vários contextos podem defini-lo: design como moda, atividades de design e design no sentido holístico, e design com D maiúsculo.

Design é uma questão de atitude, mas que tipo de atitude?

Design como aperfeiçoamento de processo, mas qual aperfeiçoamento?

Mas para essa palestra, sejamos mais pragmáticos.

Nas línguas latinas a palavra "design" não tem uma tradução exata. Em português traduz-se o verbo como "projetar". Em inglês, significa pensar e preparar um plano, feito e planejado para uma proposta ou uso particular, assim como, estabelecer e submeter-se a um processo de investigação e criação com um objetivo identificado. Um processo de criação!

Assumindo que esse processo criativo seja investigativo, tudo que começa de um pensamento abstrato, se desenvolve através de um processo concreto e é finalizado através de uma articulação tangível, foi projetado. Desta forma, Design é uma atividade muito ampla e complexa que envolve uma fase de pesquisa, pensamento estratégico (o aperfeiçoamento do processo) e a capacidade de articular e implementar.

Como o design se relaciona com a sociedade? O que tem o design a ver com isso!

As estratégias dos designers, focadas em soluções, são de grande valor por levantar as questões certas e construir cenários para que as coisas apareçam. Design não é apenas sobre a criação de coisas, é um modo de pensar que pode ajudar a moldar o futuro.

O design pode ajudar companhias a criar o que Stefano Marzano descreveu como "descontinuidade contínua".

Design = Arte da Convergência

O design é uma disciplina que ajudar a unir as competências entre as diferentes companhias. Design é, por sua natureza, aberto ao mundo externo.

Sua linguagem é a linguagem do povo, pois é ao povo que ele deve ser capaz de falar, em último caso, através de formas, cores, texturas e usos.

Qual é a abordagem da Philips Design no desenvolvimento e entendimento de como Design pode influenciar positivamente e beneficiar a sociedade?

Philips Design é reconhecida internacionalmente pela capacidade de articular e implementar, como evidenciam seus muitos produtos de sucesso e premiados que são oferecidos ao mercado.

Porém para ir de encontro às necessidades de nossos acionistas, clientes e consumidores, devemos ir além de produtos bonitos. Devemos estabelecer um diálogo contínuo com a sociedade.

Devemos desenvolver um melhor entendimento da sempre crescente complexidade e diversidade da nossa sociedade local e global, e as necessidades e desejos dos indivíduos. Indivíduos de comunidades industrializadas do planeta, assim como de comunidades em desenvolvimento, onde em muitos casos as pessoas estão lutando simplesmente para sobreviver no dia-a-dia.

Devemos investigar e desenvolver um modo estratégico de assegurar que nossos esforços em beneficiar a sociedade, e que nossas manifestações sejam responsáveis e em harmonia com a inovação sustentável.

É portanto, através deste diálogo contínuo com a sociedade que design pode identificar o papel integrador que deve desempenhar; um diálogo que nos ajude a identificar os novos valores que se desenvolvem dentro da sociedade, e como ajudar a empresas como a Philips a dedicar-se a esses novos valores.

Na Philips design este diálogo é baseado em nossos três principais núcleos de competência independentes, de nosso processo de criação estratégico, baseado em pesquisa:

Competência sócio-cultural

Competência integrada inovadora

Articulação tangível de design

De particular interesse para mim, como um dos membros da equipe de currículo, é nossa colaboração iniciada recentemente com a Universidade Tecnológica de Eindhoven, onde estamos com um papel ativo no auxílio do desenvolvimento da nova faculdade de Engenharia de Design Industrial e seu programa de pesquisa.

Um papel, do qual podemos desenvolver também uma nova posição vantajosa, por nosso esforço em identificar os desafios e novos valores da sociedade, e assegurar um diálogo contínuo através da perspectiva de indivíduos que estão embarcando numa nova viagem de descoberta, ao estarem investigando o potencial de tecnologias emergentes e pesquisa de questões sócio-culturais que estão sendo enfrentadas a cada dia, e o serão no futuro.

Para concluir, e com a intenção de expandir esse diálogo contínuo que eu me sinto privilegiado em ter participado desta conferência. Assim podemos ajudar a abrir novos caminhos de exploração para dividir as experiências humanas. E desta forma eu talvez possa ser um veículo que possa estabelecer futuros diálogos.

Obrigado.

* Lacides Manuel Marquez (Nova York) iniciou sua formação em Engenharia Mecânica, formando-se em Desenho Industrial (Instituto Pratt-EUA). Trabalhou na área de Design de Produtos em empresas como AT&T e Gordon Perry Design, tendo sido recentemente diretor de criação e coordenador de projetos da CTAI Design (Brasil). Participou de workshops internacionais, tendo colaborado com artesãos indígenas e designers na Colômbia. Atualmente é Consultor Senior de Design na Philips Design em Eindhoven, onde é responsável por design de produtos nas áreas de sistemas de segurança, telecomunicação, assim como gerência de projeto e desenvolvimento de estratégias e projetos de pesquisas.Diretor de Unidade e membro da Equipe de Gerenciamento de Currículo da Faculdade de Engenharia de Desenho Industrial da Universidade Técnica de Eindhoven.

 

Debate com o público

Palestrantes

Márcia pergunta a Dodora qual a relação de Juazeiro com o resto da economia no Brasil:

Dodora: Juazeiro tem 258.000 habitantes e recebe cerca de 2 milhões de romeiros por ano. Isso gera um movimento da economia local, além da ida de pesquisadores e compradores de arte e artesanato, o que vem desenvolvendo uma rede de comércio. Essa cultura, porém, não é valorizada pelo poder local em termos de desenvolvimento turístico. Comerciantes de artesanato se aproveitam dos artesãos locais, revendendo os produtos a preços muito maiores do que os pagos lá, sem reverter esse lucro para os artesãos locais. A Economia Solidária deveria se ocupar desses assuntos.

Márcia pergunta a Terra Design qual a relação deles com o Economia Solidária:

Lars: a maioria dos nossos trabalhos são feitos para o Sebrae, então não podemos de cuidar do trabalho todo, até o mercado, mas o Sebrae tem mecanismo de inserção dos artesãos no mercado. Os consumidores dos grandes centros vêm criando demanda, o que viabiliza a produção. Temos que trabalhar tanto no mercado, na valorização, quanto na divulgação e popularização dos produtos. É importante criar produtos utilitários para manter o crescimento dos mercados.

Fábio Bellini, estudante de arquitetura, para Lacides: o sr. disse que a Philips usa o usuário como pesquisador. Fale um pouco mais sobre isso, a relação usuário-consumidor.

Lacides: - o projeto se dedica a uma pesquisa, e não tanto a realizar produtos, e a investigar e iniciar um diálogo novo, fazendo parcerias com diversos grupos, envolvendo usuários na pesquisa.

Fábio pergunta aTerra Design se existe o risco de descaracterização da cultura dos artesão, de se tornarem excessivamente mercantilistas, por exemplo:

Fabíola: nós tratamos com os artesãos os valores culturais, estéticos e artístico, e não o valor comercial. Nosso trabalho visa explorar e desenvolver esse potencial, dando diretrizes. Às vezes ajudamos na formatação dos preços, mas o que procuramos fazer é valorizar o processo de trabalho.


Regina (OAF): trabalha com cooperativas de catadores em São Paulo. Segundo ela, os catadores vêm perdendo seu trabalho devido à "invasão" de outras pessoas e entidades que passaram a fazer essa atividade. Ela discorda da reciclagem "espontânea", defendendo uma "reserva de mercado" por parte dessas pessoas.

Mauro Claro pergunta a Terra Design sobre a qualidade do trabalho dos artesãos (gestão do design).

Fabíola: o artesanato é pouco valorizado, então dificilmente isso passa de pai para filho, a não ser que não tenham outra opção. Deve ser criada uma consciência por parte dos consumidores. Lars: esse processo acontece também em outros países. Tem-se que buscar mercados para o artesanato, e não tornar isso peças de museu.

Marli Brandão para os Campana: hoje, depois de passarem por dificuldades de execução de seus produtos, porém com tantos projetos colocados, existem empresas interessadas em executar suas peças, investindo nos moldes, e se vocês manteriam a mesma atitude de projeto?

Philippe Starck disse que sentia falta das dificuldades do início. Vocês chegaram a sentir essa saudade?

Fernando: - Não, não sentimos saudades. A dificuldade é presente. O nosso caminho não é fácil. Não nos contentamos com a fórmula fácil. Imprimimos nossa linguagem nos nossos produtos. Acabamos criando um estigma em relação a nosso trabalho, que é feito com muita reflexão. O sucesso é bom mas devemos sempre ir atrás, sem sucumbir.

Juliana Cooperman, estudante de arquitetura: há espaço no mundo para o design brasileiro. Há espaço no Brasil para esse design? Há interesse da indústria em fabricar em larga escala? Fernando Campana: Sim, o Brasil está investindo nessa área. Lançamos uma linha de móveis com OSB, um tipo de pinus prensado, que tem um custo mais baixo. Tem nichos de mercado para todos os setores.

Mariana Dupas, de Notech Design, pergunta sobre a estrutura do Droog Design:

Ida: DD são duas pessoas que convidam designers para fazerem parte dos projetos que estão sendo desenvolvidos naquele momento. Não tem a estrutura de um grupo. Financeiramente é difícil, e às vezes se ganha dinheiro e em outras se perde. Alguns projetos são subsidiados pelo governo holandês.

Fábio Ferreiro, professor de Desenho Industrial da FAAP, para Paul Meurs e Terra Design: como é feito o registro graficamente (sem ser iconograficamente) os produtos, e como é feita a documentação.

Paul: - chegamos com protótipos,e tudo foi documentado com textos, filmes e desenhos. Também foi gravado um documentário com os holandeses e com os brasileiros, e foi publicado um livro na Holanda. Fabíola: - no começo fazíamos uma ficha técnica dos produtos, com todos os dados. Como a maioria das pessoas não sabe ler, tentamos convencê-los a não vender seus mostruários, pois essa é a forma de documentação para a comunidade. Desenho nesse caso não tem serventia.

Fernando – pergunta aos holandeses sobre o humor no design holandês. Se esse humor é do prazer em trabalhar com design e se isso é consumido pelo público. Liesbeth: - deveríamos relativizar um pouco, pois temos muitos bons designers na Holanda hoje em dia. Na maioria das vezes esse tipo de produto não é feito em larga escala, são produtos pessoais, como para DD, por exemplo.

Eduardo - aluno da FAUUSP, questiona a posição de Regina (OAF), pois ninguém é catador porque quer, e pergunta se os projetos de reciclagem devem ser abandonados. Regina: não se deve abandonar esses projetos, mas ser mantidos nas mãos dos catadores "profissionais".

Ana Lúcia, decoradora, pergunta para Paul e Fabíola qual foram os valores agregados a vocês como indivíduos a partir das experiências com as comunidades? Paul: para mim é difícil de separar, porque trabalho com diversos projetos no Brasil, mas o contato com as pessoas foi a parte mais rica do projeto.

Fabíola: a pobreza econômica não tem nada a ver com a pobreza de espírito. Essas pessoas, apesar de não ter nada, têm uma alegria de viver, são muito hospitaleiros têm uma felicidade intrínseca.

A mediadora faz a fala final, ressaltando que se encerra o seminário com o tema do design e emoção, uma temática presente exigindo de nós um questionamento e um repensar das nossas atitudes. Destaca a participação das mulheres nesse processo, em todas as comunidades. Agradece a presença de todos em nome da organização do seminário, e pede que cada um faça um último comentário.

Todos os participantes agradecem a participação no evento, e é feito um agradecimento por parte da mediadora ao organizador geral do seminário, Anton van Dort.

 

Conclusão

A realização do seminário 'Design e Sociedade – novas práticas, materiais e modelos', pelo Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo, possibilitou que se reunissem, num mesmo espaço, diversos profissionais da área de design, com experiências bastante variadas.

Estiveram presentes, e dividiram suas idéias e experiências com o interessado público, dez profissionais, sendo seis do Brasil e quatro da Holanda, além da mediadora, a Professora Dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos, da Universidade de São Paulo.

Da área acadêmica esteve presente Liesbeth in 't Hout, da Design Academy Eindhoven. Explicou o funcionamento e estrutura desta escola e trouxe as experiências do departamento Man and Humanity, através do Projeto Design Solidário, no Brasil e Quênia.

Paul Meurs narrou as experiências, também do Projeto Design Solidário, em Serrita, sertão de Pernambuco, e na comunidade Monte Azul, na periferia de São Paulo. O enriquecimento mútuo, tanto dos estudantes, quanto dos artesãos e das comunidades envolvidas foi a tônica dessas palestras.

A jornalista Adélia Borges, que iniciou as palestras, discorreu sobre a reinvenção da matéria, relatando diversas experiências e iniciativas que atualmente se realizam do cenário do design.
Os irmãos Fernando e Humberto Campana apontaram os caminhos que os levaram a alcançar fama e reconhecimento internacional, ao apresentarem uma via brasileira, autêntica, de utilização de materiais alternativos para a criação de novos produtos, porém com uma linguagem universal e com grande qualidade criativa.

Ida van Zijl, representando Droog Design, da Holanda, mostrou um processo produtivo que tem como base um tipo de mentalidade que lida com conceitos e princípios, independentemente dos materiais e suportes a serem empregados.

A palestra de Lars Diederichsen e Fabíola Bergamo levantou questões sobre como a interação de designers (erudito) com artesãos (popular) pode contribuir de forma satisfatória para ambos os lados quando há realmente a intenção de cooperação e a superação de mitos e preconceitos. Trocar conhecimentos com e indicar caminhos alternativos a essas pessoas, mantendo sua autenticidade, ajuda a incluí-los na cidadania através de sua arte e ofício.

Dodora Guimarães nos trouxe um pouco do universo do Nordeste brasileiro, tão bem representado pelo povo de Juazeiro do Norte, que com sua fé e modo de ver o mundo e a realidade, vive em constante re(i)novação. O entusiasmo de Dodora sobre o tema abordado certamente contagiou o público e despertou o interesse por esse aspecto da cultura popular brasileira.

Por fim, o representante da indústria, Lacides Marquez, explanou sobre o processo de criação de produtos da Philips, empresa holandesa que é uma das líderes na produção de objetos de consumo no dia-a-dia de grande parte da população. Mostrou a importância do consumidor nesse processo, e o objetivo de levar ao usuário final o melhor da tecnologia e do progresso científico.

As intervenções finais do público mostraram o interesse que essas áreas despertem hoje em dia, tanto por parte dos estudantes, quanto por professores profissionais, artistas, artesãos e consumidores de design, no mais amplo significado do termo.

Certamente esse seminário levantou questões e promoveu um debate que não se esgotam neste evento, mas que terão desdobramentos posteriores para todos aqueles que se envolvem com um tema tão abrangente como é "Design e Sociedade".

Como bem frisou a mediadora Maria Cecília, a sociedade brasileira clama pela inclusão de todos seus cidadãos aos benefícios disponíveis (e hoje tão concentrados por uma minoria) e o exercício da plena cidadania.

Essa inclusão será possível quando atores e agentes sociais se derem conta das grandes potencialidades existentes (e por vezes escondidas) do povo brasileiro, com toda sua genialidade, inventividade, criatividade, mas sobretudo, sua dignidade.

Este relatório, feito a partir da transcrição das palestras e discussões do Seminário "Design e Sociedade", foi elaborado por Mauricio Ferrari Masson*. Tem como finalidade ser encaminhado a autoridades, patrocinadores e organizadores, e servir como documento para eventuais consultas.



(*)Mauricio Ferrari Masson é arquiteto pela PUC de Campinas (1983). Mudou-se em 1988 para Amsterdã, onde trabalhou em projetos arquitetônicos na área de habitação social e de renovação urbana. Lá estudou "Técnicas de Planejamento Urbano" e fez cursos sobre a Arquitetura holandesa. Em 1990 participou do Curso Internacional em Habitação, Planejamento e Construção do Institute for Housing Studies (Bouwcentrum) de Roterdã. Foi editor-convidado da revista Óculum sobre o projeto Céramique em Maastricht, de Jo Coenen, que teve uma sala especial na III Bienal Internacional de Arquitetura de SP (1997). Trabalhou no escritório de Jo Coenen, em Maastricht, (1998). Participou das equipes de organização de Urbanismo (Rios Urbanos) e Design (Design e Sociedade) do evento HolandaHoje (2003). Atualmente vive em SP, e tem atuado na área de tradução (inglês/holandês/português) e produção de textos ligados a arquitetura, urbanismo e design.

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