HolandaHoje
Arte, Design, Urbanismo e Responsabilidade Social
Auditório do Hotel Paulista Plaza
São Paulo, 27 de março de 2003
Promoção:
Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo
Organização Geral: Anton van Dort / Brazil4Business
Preparação de textos: Mauricio Ferrari Masson
Apresentação:
O Seminário Design e Sociedade -novas práticas,
materiais e modelos foi promovido pelo Consulado Geral dos Países
Baixos em São Paulo como uma das atividades realizadas no âmbito
do evento HolandaHoje -Arte, Design, Urbanismo e Responsabilidade
Social, que aconteceu no mês de março de 2003 na cidade de São
Paulo, inspirado pela visita de Estado ao Brasil de Sua Majestade
a Rainha Beatrix e de Suas Altezas Reais, o Príncipe e a Princesa
de Oranje, Willem Alexander e Máxima.
O tema escolhido que serviu de fio condutor para
todos os eventos organizados foi responsabilidade social,
tema que desperta grande interesse tanto na sociedade holandesa
quanto em seus representantes parlamentares na atualidade. Responsabilidade
social compreendida também como respeito ao meio ambiente e aos
recursos humanos.
Este interesse é compartilhado pela sociedade brasileira,
que vivendo e vislumbrando momentos de transformação em sua realidade,
procura novos meios, parcerias, conhecimentos e contatos para que
esse caminho seja trilhado buscando acima de tudo o desenvolvimento
das capacidades e potencialidades do Ser Humano como objetivo essencial.
Esse desenvolvimento passa pelo conhecimento da
riqueza contida, e muitas vezes escondida, nas capacidades de criação,
trabalho e organização de grande parte da população brasileira.
Passa também pela aceitação da arte popular como manifestação legítima,
autêntica e merecedora de atenção por parte daqueles que se empenham
na busca de caminhos que dignifiquem a vida das pessoas através
de seu trabalho, engenho e conhecimentos, que se não forem transmitidos
correm até o risco de desaparecerem para as futuras gerações. Transformar
em renda a arte e o artesanato de quem - por dom ou aprendizado
- é capaz de produzir, é inseri-lo na cidadania, resgatando sua
auto-estima e o respeito por suas próprias habilidades.
A Abordagem do Seminário
O uso inovador e responsável dos materiais, a reciclagem,
a participação comunitária em projetos e as possibilidades de desenvolvimento
social e econômico como resultado de novas experiências nesta área
formaram um painel amplo e atualizado sobre o tema. Este documento,
a ser apresentado aos governos do Brasil e dos Países Baixos, visa
reproduzir as idéias e discussões que surgiram durante o seminário.
Início dos Trabalhos
As palestras foram realizadas na tarde da quinta-feira,
27 de março de 2003, no auditório do Hotel Paulista Plaza, em São
Paulo, e tiveram início com uma breve apresentação feita pelo organizador
geral do evento, Anton van Dort, que em seguida deu a palavra à
Mediadora do Seminário.
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Dra.
Maria Cecília Loschiavo dos Santos*
Mediadora - USP / Brasil
Boa
tarde.
Nós agradecemos imensamente a acolhida de vocês ao seminário
que estamos fazendo hoje. Tivemos grande prazer em preparar
este seminário. Nós escolhemos grandes amigos, e esperamos
que vocês também tenham o mesmo prazer, aproveitem e tenham
uma tarde produtiva.
O seminário é uma iniciativa do Consulado Geral dos Países
Baixos em São Paulo, e se insere no contexto de intercâmbio
e compartilhamento entre Holanda e Brasil do projeto HolandaHoje.
O seminário versa sobre uma série de temas emergentes nos
quais a Holanda possui excelência, como é o caso do design.
Trata de um dos temas que tem merecido crescente atenção da
comunidade científica da área do design: Um modelo social
para o design.
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| Quando
a maioria das pessoas pensa no design, imediatamente considera
o design do ponto de vista da criação de produtos para o mercado,
dirigidos ao consumidor. Esse é o paradigma dominante.
Nos
anos 1960, o professor Victor Papanek, então diretor do Californian
Institute of Arts, publicou seu famoso livro "Design for the
Real World", cobrando dos designers maior engajamento e, sobretudo,
a criação de um design para atender as necessidades sociais.
A obra de alguns autores de design orientou-se nessa direção,
mas foi só em fins do século passado que a agenda social do
design passou ao centro do debate, principalmente na comunidade
científica internacional.
Entre os designers, é importante destacar a iniciativa do
designer japonês Kenji Kuan que propôs em 1997, na cidade
de Toronto, a criação daquilo que mais tarde se tornou a grande
organização "Design for the World", uma organização internacional,
humanitária, que congrega designers de produtos, designers
gráficos e designers de interior, para desenvolver projetos
para atender populações em severas necessidades.
Em geral, nosso seminário discutirá as novas práticas e paradigmas
que emergiram no final do século 20, relacionados ao design
e suas relações com a sociedade, que variam de acordo com
o contexto social no qual estiveram inseridas. O seminário
está iniciando a construção de um diálogo sobre este tema.
Mais do que isso: está inspirando uma motivação comum e uma
intenção firme de engajar o design na luta pelo combate à
exclusão social e na promoção da inclusão.
O Brasil tem dado uma contribuição muito grande em várias
dessas áreas. Por exemplo: a reciclagem de materiais no design
brasileiro é tema que vem atraindo a atenção dos estudantes,
dos designers e dos empresários.
Por questões estruturais em nossa economia, o país vem se
tornando líder na reciclagem de alguns materiais, como por
exemplo, o alumínio. O papel também se destaca, extraordinariamente,
nesse contexto de reciclagem, porém ainda muito resta a investir,
na busca de novos e criativos usos industriais das matérias
recicladas.
A sociedade vem participando de maneira crescente desse processo.
Escolas, comunidades, etc. Mas o grande destaque de participação
na coleta e seleção de materiais recicláveis fica por conta
dos catadores dos materiais recicláveis.
Através de seu trabalho organizado e eficiente, nas cooperativas
de materiais recicláveis, espalhadas por todo o país.
A sociedade poderá se envolver nesse processo. Seja colaborando
com as cooperativas, seja organizando a separação dos resíduos
sólidos em geral, nas casas, nos restaurantes, estabelecimentos
comerciais, etc.
Minha opinião pessoal é que mais do que nunca temos evidências
de que é necessário buscar novos modelos para o design, orientado
às necessidades sociais do nosso tempo. Hoje dispomos de uma
vasta e sólida literatura sobre o design orientado para o
mercado, mas ainda há muito a refletir e escrever sobre o
design orientado para as necessidades sociais. Ainda precisamos
investir na busca de tecnologias de baixo custo, na busca
de novos métodos e também na educação dos designers, preparando
os novos profissionais, não apenas para desenvolver os produtos
para o mercado, mas também para as populações que vivem em
situações severas de carências e necessidade.
A Holanda tem demonstrado, pelos seus produtos, uma altíssima
capacidade de criação e inovação. A relação entre as universidades
e as indústrias é muito dinâmica. As idéias e experimentações
saem do âmbito acadêmico e são implementadas nas indústrias.
A Holanda, ao mesmo tempo, como muitos outros países europeus,
possui um respeito profundo pelo artesanato e pelo trabalho
manual. Acho que podemos aprender. Essas atitudes e essas
idéias é que saem ganhando neste diálogo que hoje começa,
com a presença de vocês. Muito
obrigada. |
* Maria Cecília Loschiavo dos Santos
é filósofa, mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de São
Paulo. É professora de Design na mesma Universidade, na Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde ministra
cursos e orienta alunos na graduação e pós-graduação. Realizou programa
de pós-doutorado nas seguintes universidades: Universidade da Califórnia,
Los Angeles - Estados Unidos; Universidade de Campinas SP, Brasil;
Nihon University - Japão; Centre Canadien d'Architecture - Canadá.
Participou de congressos e conferências nacionais e internacionais
na área de Design e publicou diversos artigos em revistas científicas
nessa área. Autora de vários livros, entre eles 'Móvel Moderno no
Brasil', patrocinado pela FAPESP e co-publicado pela EDUSP e Estúdio
Nobel em São Paulo. Consultora científica de órgãos brasileiros
de pesquisa, como FAPESP e CNPq.
Atualmente é coordenadora dos programas de pós-graduação em Design
da Universidade de São Paulo e das Oficinas de Design Social da
Universidade de São Paulo. Desde 1994 vem pesquisando 'O descarte
dos produtos industriais, Design e Moradores de Rua em cidades globais'.
Foi agraciada com o Primeiro Prêmio do Museu da Casa Brasileira
por seu livro 'Móvel Moderno no Brasil' e com o Prêmio Margarida
de Prata da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pelo
filme 'A Margem da Imagem', como co-autora do roteiro.
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Adélia
Borges *
Jornalista / Brasil
Boa
tarde.
É
um grande prazer estar aqui, nesse encontro com todos vocês.
Tanta gente ficou de fora que queria vir. Eu acho que o interesse
demonstrado por esse encontro, foi muito baseado nesse tema
e a pertinência do tema tão bem apontada pela Maria Cecília
Loschiavo. Eu acho que cada vez mais a gente precisa discutir
o design desde esse ponto de vista. Realmente das necessidades
sociais e não apenas das necessidades do mercado.
Os organizadores do encontro me pediram uma palestra sobre
reciclagem, pois até uma certa altura o encontro iria se fixar
mais nesse tema específico da reciclagem, então me pediram
para fazer um panorama da reciclagem no design contemporâneo
brasileiro. Então foi o que eu preparei para vocês: um resumo
curto, até para tentar fazer menos do meu tempo, e se houver
condição, até de fazer um bate-papo no final.
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Eu tenho pesquisado esse tema bastante, e é um
tema que emergiu muito no design internacional nos anos 1980, a
partir do final dos anos 80. Eu queria lembrar o que a Cecília falou
aqui, que essa prática é uma prática antiga na cultura material
brasileira. Desde sempre nós reciclamos, desde antes desta palavra
existir nos dicionários, nós já estávamos reciclando materiais,
bens de consumo, toda sorte de coisas.
E acho que uma das pessoas que mais teve olhar
para isso (às vezes a gente fica tão inerte na realidade que a gente
vive, que não conseguimos enxergar direito essa realidade; às vezes
uma pessoa chega de fora e consegue enxergar melhor) foi a Lina
Bo Bardi. Quando ela chegou no Brasil, no final dos anos 1940, ela
andou o Brasil afora, e teve um trabalho muito significativo na
Bahia especialmente, e no Nordeste em geral, e ficou maravilhada
com essa capacidade de transformação do povo brasileiro. Então estou
trazendo aqui para vocês alguns poucos elementos, peças do acervo
pessoal da Lina, que depois correram o mundo em exposições, para
mostrar justamente isso, que essa capacidade de reciclar existia
muito pela necessidade de driblar a miséria, driblar a falta de
acesso aos bens de consumo. A Lina foi capaz de enxergar nessas
manifestações toda a beleza delas e transformá-las quase que em
"objetos de arte", ao levá-las a museus brasileiros e internacionais
e poder propiciar a apreciação estética dessas peças.
Relembrando o que a Cecília falou aqui do Papanek,
eu acho que o que no Brasil a gente sempre reciclou, muito derivado
da miséria do nosso povo, do nosso país. No design internacional
essa preocupação começou nos anos 1960, e um dos primeiros a alertar
para essa necessidade de reciclagem foi o designer grego radicado
nos EUA, Victor Papanek, que cunhou uma expressão que para mim é
muito feliz. Ele falou dessa coisa da "cultura Kleenex", se referindo
aquele lenço de papel, e dizendo que estávamos entrando na era do
descartável, vivendo essa compulsão pelo consumo e essa compulsão
pelo "use e jogue fora".
Também nos anos 1960, outro grande pensador, Buckminster
Fuller, alertou sobre o fato de que "o lixo é o único recurso em
crescimento no planeta".
Ou seja, ele via o lixo como recurso, e viu que
a água está acabando, o petróleo está acabando, enfim, todos os
recursos estão acabando, e o único que está em crescimento é o lixo.
Aliás, hoje, lendo o jornal de manhã, li um anúncio
da prefeitura que fala que em São Paulo, são recolhidas diariamente
15.000 toneladas de lixo, o que representa um estádio do Morumbi
cheio de lixo até o tampo, a cada dois meses.
Bom, se a gente é capaz de gerar tudo isso, a
gente tem que ser capaz da logística reversa de repensar o que está
fazendo a gente gerar tanto lixo e repensar que modelo de sociedade
é esse, que modelo de progresso que a gente adotou, e repensar também
essa coisa de olhar o lixo não como um estorvo, mas como um recurso,
como Fuller repensou.
Acho que a primeira vez em que a gente tem (saindo
do Brasil, indo para os países desenvolvidos), uma contestação maior
a respeito dos usos dos materiais na elaboração dos objetos, vem
com a cultura hippie, que é uma cultura que nega o consumismo desenfreado,
e que é a cultura que começa a introduzir materiais banais, como
os circuitos elétricos, as borrachas, os acrílicos. Começam a introduzir
esses materiais nos objetos e bijuterias que faziam mundo afora
e vendiam em suas feirinhas.
Essa produção era resultado da contestação também
do modelo que estava gerando aquele consumo anterior. No final dos
anos 1980, a gente tem um agravamento da crise ambiental no mundo
todo, e esse agravamento provoca uma consciência cada vez maior
da população, e começa a haver essa discussão, que depois veio a
desembocar na Eco-92. Foi o grande momento dessa discussão. Esse
pensamento, acho que foi mais em meados de 1980, final dessa década,
que a gente começa uma discussão sobre o que poderia ser uma cultura
alternativa de produtos.
Em Stuttgart, em 1998, houve a "Exposição Simplicidade
Consciente". O curador teve a intenção explícita de mostrar produtos
concebidos, produzidos e utilizáveis com simplicidade.
Essa exposição chegou a São Paulo, no Museu da
Casa Brasileira. Acho que aqui é uma reciclagem quase que como uma
bandeira de luta, então ela é deixada bastante explícita, o material
é deixado bastante explícito.
O objeto-ícone desse pensamento foi essa cadeira,
que se chamou "Descanso do Consumidor", que foi feita no momento
da queda do muro de Berlim, quando a população ocidental viu atônita
a população oriental correr com uma sofreguidão enorme às gôndolas
dos supermercados, porque podiam por fim ter acesso àqueles bens.
Foi um momento em que o Ocidente já contestava
esses padrões. Essa foi uma brincadeira do pessoal do Studio Stiletto
(um carrinho de supermercado transformado em cadeira - 1989/90),
a respeito da voracidade consumista. Uma provocação que brinca com
o imaginário do consumidor. Tornou-se quase que um objeto-ícone
deste movimento.
Esse movimento se espalhou por vários países desenvolvidos.
O porta-voz na França é o Philippe Starck, quando ele fala muito
em que "antes de ser designer, ser cidadão". Isso foi muito desencadeado
pelo crash da bolsa de Nova York em outubro de 1987, e pelo fim
do "yuppismo". Antes a gente estava glorificando muito as marcas,
as grifes, e a partir do final dos anos 1980, também pela crise
econômica, as pretensões yuppies são enterradas, assim como as promessas
de opulência, de prosperidade que vinham sendo feitas pelo governo
Reagan. As pessoas caem na real, acarretando uma mudança no comportamento
do mundo em relação à cultura material.
Passa a ocorrer o que chamo de "reinvenção da
matéria", e isso passou a haver em todos os domínios. "Recontextualizar,
reciclar, reusar" passaram a ser verbos do dia-a dia. Na música
existe o sampler (transformação do original), o scanner, na área
gráfica, que possibilitou a transformação e deslocamento de idéias.
Na moda, através dos grunges em Seattle, EUA, quando a moda sai
da rua, indo para a alta-costura. Passa a haver uma realimentação
mútua.
No design contemporâneo brasileiro vê-se basicamente
três atitudes, que eu procurei mostrar na exposição "Novos Alquimistas":
A primeira atitude foi a reciclagem propriamente
dita. Se aquela cadeira do supermercado foi um ícone desse movimento
a nível internacional, aqui o objeto-ícone pode ser representado
pelo puff de Flávio Verdini, Júlio Sannazzaro e Sandro Verdini.
Eles foram, como grupo, os primeiros a realizar uma arqueologia
urbana na cidade. Ao extrair das sobras das ruas e dos produtos
rejeitados pela sociedade, formam sua matéria-prima. (O puff é feito
com o cesto de uma máquina de lavar roupa). Colocar os rodízios
e o tampo foi uma decorrência. Ele estava praticamente pronto.
Mudando de matéria-prima, temos o vidro, a partir
das garrafas de vinho alemão, que tanto se alastraram pelo nosso
país. O Júlio corta a garrafa, que também é uma prática popular
brasileira. Ele pega cada pedaço da garrafa e reutiliza em pedaços
nessa luminária Eletra e a luminária Babel. Com a mesma garrafa
ele faz da base um cinzeiro, e do gargalo, um candelabro. Nesses
casos que a gente está mostrando, ao contrário das embalagens de
Maggi dos alemães, aqui essa gênese do material não é explicitada.
Ela não é escondida nem apontada como uma curiosidade. É simplesmente
o uso de um material e pronto.
Ainda falando de vidro, se o Júlio usava as garrafas
de vinho apenas cortadas, o Edu e a Beth Prado usam cacos de vidro
reciclados, que depois são levados ao forno numa fôrma que resultam
nesse bowl que é maravilhoso, um dos best-sellers do design brasileiro.
A reciclagem enquanto processo industrial, de
pegar o material e realmente transformá-lo através até de um processo
industrial, está muito realizada neste tecido, que é feito inteiramente
de garrafas PET reutilizadas. Esse produto ganhou o prêmio Eco-design
da Fiesp há dois anos. São tecidos feitos apenas de fibras re-processadas
de garrafas plásticas.
A outra atitude que se poderia encontrar no design
brasileiro contemporâneo, no que diz respeito a essa reinvenção
da matéria, é isso de utilizar o que é inútil. Tem coisa inútil,
que ninguém dá bola, que serve para pouca coisa e de repente se
dá um uso nobre a isso.
Uma das pessoas que mais tem feito isso é o Renato
Imbroisi, com seu trabalho pelo interior do Brasil, unindo design
e artesanato. Aqui ele usa fagulha de pinhão, e como acabamento,
um tecido feito de algodão. O Renato foi um dos primeiros a utilizar
sementes, que eram simplesmente jogadas fora, e a revalorizar o
uso do fuxico. Ele foi um dos primeiros a resgatar essa técnica
tradicional brasileira, feita com a junção de retalhos, e a palha
de milho, que até então, nessas comunidades em que ele ia, era simplesmente
alimento para porcos. Ele passa a usar a palha junto com um tecido
de algodão feito num tear manual.
Um dos mestres em pegar material banal e reutilizá-lo
é o Lino Villaventura, para mim um verdadeiro designer no campo
da moda. O Lino é da Amazônia, e traz para o design uma coisa de
textura muito interessante, muito amazônica.
Mas nem ele, que veio do Pará, tinha percebido
a beleza das sementes de açaí, até que uma designer do Rio de Janeiro,
Tereza Xavier, passou a compor a semente do açaí junto com cristais,
com pedras preciosas, etc. Ela também tem esse colar/pulseira de
palha de arumã, trançado com diamantes. Esse contraste de dois materiais:
um banal, outro muito caro, uma coisa mais fria e outra mais quente,
é o que traz essa beleza através do contraste dos materiais.
A Carla de Carvalho usa a piaçava em objetos, que normalmente é
usada em vassouras. Ela tem um trabalho muito interessante em Ilhéus,
na Bahia.
A terceira prática que a gente poderia falar é
a prática dos deslocamentos, que é deslocar materiais, funções e
componentes feitos originalmente para um uso e deslocar para outro
uso diferente.
Neste campo a gente tem desde os componentes industriais,
pré-fabricados, como esses anéis de PVC, de Walter Bassivangi transformados
em tapetes, barateando muito o produto final. Do mesmo designer,
essa concha para pegar cereais. Ele viu nela as propriedades de
reflexão de luz e passou a usá-la nessa luminária.
Agora eu acho que quem traz muito essa idéia da
reinvenção da matéria, que está na gênese do trabalho deles, são
os irmãos Campana, que vão falar depois de mim. Então eu trouxe
apenas dois exemplos, que incluí na exposição de 1999.
Essa questão dos materiais é uma das questões
mais candentes do design hoje. Isso está desde o começo nos Campana,
essa experimentação grande. Eu acho que essa coisa que eles sempre
falam, que o cara da favela faz as coisas com uma assemblage de
materiais, é que dá essa característica que eles têm, um DNA brasileiro,
não do lado folclórico, estereotipado, mas é claramente um DNA brasileiro
que está correndo o mundo. Essa mesa pega alguma coisa de um uso
bem abjeto, que é a tampa do ralo de esgoto, e coloca na superfície
onde se vai comer. Também há um deslocamento de material com as
fôrmas de pizza sendo usadas nessa mesa inflável que está sendo
vendida na loja do MoMA em Nova York.
O papel: essa grande coisa, que a gente recicla
muito. Acho que um dos grandes nomes nisso é Nido Campolongo faz
a base dessa mesa toda com bobinas de linha usadas em confecções.
E esse tecido de rolinhos de papel, que também é uma prática muito
popular brasileira. Ele reinventa isso, faz de roupas a bolsas.
Depois da exposição em 1999, acho que houve um
surto muito grande de objetos caminhando nesse sentido. Uma das
coisas muito boas que a gente teve foi o nascimento de um grupo
chamado Notech. Um grupo que nega o acesso à tecnologia, como a
chave para se fazer coisas e que se propõe a trabalhar com materiais
baratos. É um grupo que nasceu em um workshop dado pelo Fernando
e Humberto Campana no MuBE, um seminário sobre 'A construção do
objeto'. Aqui a gente trouxe alguns poucos exemplos, todos usando
câmaras de pneus. Uma câmara de motocicleta, câmaras de vários tamanhos,
que se interpenetram e são cobertas, e câmaras encaixadas nesse
tubo de ferro, formando essa cadeira.
A gente é líder em reciclagem de alumínio. Aqui
é uma reutilização, com as latas de lixo amassadas e enfiadas nessa
haste, fazendo esse porta-velas, do Carlos Alcantarino.
Esse uso de sementes progrediu muito. É fantástico
o que a gente tem de semente brasileira e acho que a gente tem visto
coisas fantásticas nessa linha.
Casca de coco que era usada só para cascalhar
estradas de terra. Hoje a gente também tem um uso grande em objetos,
e eu acho que o melhor uso é esse, desse paulista que está morando
em Alagoas, que fez com as cascas de coco prensadas, painéis muito
interessantes.
Tetrapak, outro material em uso. Banqueta usando
aparas de madeira, do Lars e da Fabíola, que vão falar daqui a pouco.
Reutilização de madeirame de construção, a madeira mais banal que
vai para queima muitas vezes. O Carlos Motta passou a usar agora
apenas essa madeira nos trabalhos dele. Materiais inusitados, como
essa com ovo de ema, trançado de crochê com os lacres de latinhas
de alumínio.
Esse uso do PET, que eu achei fantástico. Apenas
os flocos do PET, formando a instalação dos Campana que está no
CCBB em Brasília. Um uso fantástico do PET como elemento cenográfico,
e a engenhosidade popular continua.
Na exposição eu mostrei esses aviõezinhos de alumínio.
Tem uma infinidade de coisas. Esses cinzeiros que a gente compra
nos cruzamentos em São Paulo, e tem a exposição que estava no Museu
Nacional de Belas Artes no Rio, que chamava "Rua dos Inventos".
É uma estudante de design, que documenta vários desses inventos
feitos pelas pessoas nas ruas.
Gostaria de saber o que a Cecília tem pesquisado
dessa coisa de design popular, que é uma fonte fantástica de sabedoria
para a gente.
Em Salvador tem concurso de carrinho de venda
de coisas nas ruas, de café, chocolate, cigarro, balas. Cada vendedor
faz o seu e uma vez por ano eles fazem um desfile e vêm quem ganhou
o mais bacana. Parece concurso de carnaval.
Esse capacho feito de tampinhas de refrigerante,
também em exposição na "Rua dos Inventos".
Para terminar, eu quero dizer que acho que a reciclagem,
reciclar exige uma metamorfose. Não só do material, do objeto, mas
em primeiro lugar, de nosso olhar e, portanto, de nós mesmos. Então
eu gostaria muito de que esta palestra fosse um incentivo à gente
para fazer essa transformação, para a gente recuperar um pouco esse
olhar novo, que é um pouco o olhar da criança também que é capaz
de olhar coisas velhas e descobrir nela coisas novas.
Eu gostaria que essa palestra fosse entendida
como um convite a essa metamorfose, e a essa transformação que em
primeiro lugar deveria ser uma transformação pessoal de cada um
de nós.
Obrigada.
* Adélia Borges é jornalista, graduada
pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(1973) e curadora especializada em Design. Autora dos livros 'Designer
não é Personal Trainer', de 2002; 'Maurício Azeredo, A Construção
da Identidade Brasileira no Mobiliário', de 1999; Prêmio Design
- Museu da Casa Brasileira, de 1996; e Cadeiras Brasileiras, de
1994. Professora de História do Design Brasileiro na Fundação Armando
Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Artigos seus estão em várias
publicações nacionais e estrangeiras, como na revista 'Design &
Interiores', que dirigiu de 1987 a 1994 e no jornal Gazeta Mercantil,
do qual foi editora de Design de 1998 a 2001. Das exposições em
que foi curadora destacam-se 'Uma História do Sentar', no NovoMuseu
de Curitiba (PR), 'Novos Alquimistas', no Instituto Itaú Cultural
(SP), e 'Maurício Azeredo', no MASP (SP). Realiza palestras sobre
Design no Brasil e no exterior.
 |
Fernando
e Humberto Campana(*)
Estúdio Campana / Brasil
Evolução
do pensamento e dos princípios na produção do Estúdio Campana
Sobre
o que a Adélia falou, muito se reflete no nosso trabalho.
Nesses 19 anos trabalhando juntos, temos feito esse tipo de
deslocamento, algumas vezes de reciclagem, ou mesmo choque
de materiais.
Acima de tudo queremos apontar caminhos, nosso trabalho visa
indicar caminhos para materiais que já existem, para serem
introduzidos no universo do mobiliário. |
Acho que isso é mais que uma utilização para uma
mesma matéria, de certa forma para evitar que se inventem novas
repetições de um plástico ou de outra matéria. Mas a gente vai contar
um pouco sobre de onde vem tudo isso. Acho que tem uma fusão do
lado rural e do lado urbano, que nos deu muita base.
Brincando, quando éramos crianças, com mandacaru,
bambu, barro no fundo do quintal, foi um treino, um laboratório
para o que hoje é o nosso trabalho.
A gente até recusava brinquedos de alumínio, plástico,
da época, para brincar com essas coisas que eram mais engenhosas.
As nuvens serviram como fonte de inspiração no
imaginário, de onde víamos cadeiras, luminárias, etc.
Também importante foi a investigação de elementos
da cultura popular, como os santuários de beira de estrada.
Muita coisa que a gente faz é baseada no acúmulo,
no excesso. A gente nunca deixou de lado essa filosofia. É até engraçado:
na primeira vez que a gente se apresentou em uma conferência em
Milão, nos anos 1990, era o auge do neominimalismo. As coisas eram
muito limpas e industriais, e a gente apareceu com uma série de
slides só com o excesso, com o acúmulo. Mas a gente sempre foi fiel.
Na hora fiquei meio envergonhado pensando: a gente está completamente
fora da história, mas na verdade a gente estava sendo fiel a uma
filosofia, a uma raiz que a gente trabalha até hoje.
Essa é uma pilha de eucaliptos cortados, na região
onde nascemos, em Brotas. Quando eles cortam isso, parecem catedrais,
se comparado à escala humana. É muito inspirador.
Mesmo em São Paulo, nos cruzamentos da cidade,
nas partes mais nobres, vê-se uma instalação, com pessoas vendendo
morangos, espanadores, etc. Existe até essa reciclagem de espaços,
de reinvenção de cantos da cidade. Se a gente recortar SP em tiras,
temos tudo, como Japão, Itália, China, Coréia, Holanda, África...
É uma colcha de retalhos.
Na avenida Pacaembu as pessoas vendem cabeças
de vacas. É meio surrealista. Nos chamam atenção essas mini-estações
de trabalho, onde se concentra tudo num tabuleiro ou num carrinho
desses.
Os catadores de papelão de SP são verdadeiros
heróis. Estão reciclando tudo. Pegam caixas de papelão no fim do
dia para reciclagem. Às vezes esses caras nos atrapalham no trânsito,
mas é um programa informal de reciclagem. Isso inspirou muito nossa
coleção de móveis de papelão, esse acúmulo, empilhamento.
Foi aí que a gente começou a investigar, cortar
e colar pedacinhos de papelão e depois fizemos a coleção de móveis.
As pessoas também usam o corpo para criar um novo
objeto. Usa-se o corpo como apoio do tabuleiro de damas, e o corpo
se transforma num móvel, como base para o prazer.
É como a Adélia falou: mesmo antes de existir
a palavra reciclar, os países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento
tiveram que adotar essa postura, não tem outra solução. Acho que
isso se reflete muito no nosso trabalho.
Quando a gente não consegue o plástico adequado
a gente tenta procurar o plástico já existente. Esse choque de materiais,
de cores, é muito interessante.
O Oscar Niemeyer também nos influenciou muito.
Crescemos com Brasília, com a modernidade, desse futuro que nunca
chegou, nem sei se vai chegar.
O processo construtivo das favelas. A gente está
acostumado com isso, é uma realidade triste. A gente passa e vê;
é muito interessante essa arquitetura espontânea, aonde os espaços
vão sendo ocupados, com liberdade, intuição.
A criatividade popular gera essa expansão caótica,
onde não se segue uma regularidade. Temos a possibilidade de mudar
a linha que a gente está seguindo de uma hora para a outra, diferentemente
de outros países com um tempo maior de história, onde é mais difícil
aceitar certas mudanças de comportamento ou arquitetura.
A fusão de raças no Brasil, com os índios, europeus,
africanos e asiáticos, neste país que abriga todos de forma generosa,
pela própria generosidade geográfica.
Sobre o nosso trabalho: a primeira exposição teve
o nome de "Desconfortáveis". A gente estava investigando a matéria-prima,
o sentar, o erro, a imperfeição. Foi um laboratório de idéias, que
foi gerando novos trabalhos. Foi no final dos anos 1980, início
dos anos 1990.
Nosso trabalho vai para museus, mas também vende.
É a nossa marca registrada. Essa cadeira vermelha foi produzida
em 1998 pela Edra na Itália. Fizemos um vídeo para mostrar passo-a-passo
como se monta a cadeira.
O início do trabalho com papelão é uma investigação
sobre a transparência, da passagem de luz no papelão, começando
com as luminárias até os móveis. Hoje são produzidos na Itália.
Fazemos paredes de papelão, também.
Essa é uma embalagem que se torna o próprio móvel.
A gente queira fazer um móvel de plástico, mas não tinha dinheiro
para a injeção, então fomos buscar o plástico já existente, o plástico
bolha. São 40 lâminas de plástico dobrado.
O contato diário com essa paisagem das ruas, os
materiais, fica na nossa memória e cria uma curiosidade. O primeiro
móvel nasce do material, que vai ditar a forma e a função dos objetos.
Fruteiras, biombos, a cadeira Anêmona, produzida pela Edra na Itália.
É um processo mental, nosso, de fazer essas coisas
pararem em pé ou ficarem prontas. E a gente passa essa tecnologia.
É engraçado, pois estamos levando artesanato para a Europa, e o
que a gente está criticando aqui como projeto, nas indústrias, é
muito mais limpo, muito mais industrial. Estamos fazendo uma troca.
Nosso último trabalho se chama "sushi". Trouxemos essa fruteira,
que gerou até uma cadeira, feita pela Edra.
Mas sempre começa assim, com a pesquisa de diversos
materiais, como PVA, borracha, feltro.
Todo esse trabalho está nessa exposição em Brasília, no CCBB, onde
ficamos investigando tipos de estofamento, até trabalhar com bichinhos
de pelúcia, ou mesmo com esses bonecos que a gente trabalhou com
a Comunidade Solidária, na cidade de Esperança (PB), onde eles fazem
essas bonecas. A gente fez uma cadeira só com esses bonecos. Demos
o nome de "Multidão".
Os projetos mais limpos, industriais são feitos
aqui, enquanto o artesanato é feito na Europa.
Naquele curso do MuBE não queríamos criar clones
dos Campana. Queríamos dar o estímulo para que cada um encontrasse
seu próprio caminho de comunicar idéias.
Obrigado.
* Os irmãos Fernando e Humberto
Campana têm-se destacado desde o final dos anos 1980 nos cenários
nacional e internacional pela criativa e inovadora de produção de
design. Uma das principais características do trabalho desta dupla
de designers paulistas é a (re)utilização inusitada de materiais
como papelão, plástico e cordas, além de material reciclado. Têm
seus projetos autoproduzidos e também produzidos por empresas no
Brasil (La Lampe) e no exterior (Edra/Mazzei, O Luce, Fontana Arte
- Itália). Realizaram palestras, workshops e exposições individuais
e coletivas em diversas cidades no Brasil e do exterior. Os Campana
têm várias peças em coleções de museus, como Museu de Arte Moderna
(MoMA) de Nova York e Museu de Arte Moderna de São Paulo. Receberam
diversos prêmios, como Prêmio Aquisição Museu de Arte Brasileira
(1992), Prêmios Categoria Móveis Residenciais (1997 e 1998) e George
Nelson Design Award (EUA-1999).
 |
Liesbeth in 't Hout *
Design
Academy Eindhoven / Holanda
Man
and Humanity e a Design Academy Eindhoven
Esta
é a minha terceira vez no Brasil, e gostaria de dizer que
me sinto muito honrada em poder falar sobre um projeto importante
de uma das menores escolas de arte de um dos menores países
do mundo. É muito interessante fazer isso.
Gostaria de contar sobre a academia, e como ela é organizada.
Já foi mencionado o projeto Design Solidário, que foi a razão
da minha primeira vinda ao Brasil. Para a academia foi um
projeto muito importante, um dos pilotos de alguns desenvolvimentos
muito interessantes, sobre o qual eu contarei algumas estórias.
|
Talvez seja interessante ver como projetos como
esse podem crescer na escola.
A escola fica no edifício "De Witte Dame" (a Senhora
Branca), um velho prédio da Philips, que também abriga a Philips
Design, em Eindhoven.
São apresentados os espaços da academia, como
ateliês, estúdios, etc.
A estrutura dos cursos de graduação. São nove
departamentos:
Homem e atividade, Homem e identidade, Homem e
comunicação, Homem e mobilidade, Homem e espaço público, Homem e
bem estar, Homem e lazer, Homem e o viver, e o ateliê.
Um dos aspectos mais importantes do tipo de formação
da academia é que tentamos ensinar as pessoas a pensar conceitos,
não produtos.
São trabalhados temas, que têm a duração de um
trimestre, e dependendo da sua área, isso pode resultar em diversos
produtos finais. Procuramos desenvolver as idéias pessoais dos estudantes,
para que desenvolvam seus trabalhos de forma muito ampla, ou seja,
nunca focados apenas nos produtos.
O curso de graduação dura quatro anos, com 650
estudantes, sendo que 17% são estrangeiros. A academia é patrocinada
pelo governo holandês.
O curso de pós-graduação se divide em Design Industrial,
Design de Interior e Design de Identidade, com duração de dois anos
e com 30 estudantes (95% estrangeiros).
Mestrado em Design Humanitário e Estilo Sustentável.
Alguns trabalhos: já que estamos falando de trabalho para a sociedade
(não mais a alta sociedade), é importante ver que os estudantes
não querem projetar para alta sociedade. Se você pensar que a academia
tem 650 alunos, se todos forem fazer uma cafeteira no final, não
tem sentido. Na Holanda temos bom design, que pode ser comprado
por um preço baixo.
Acho que isso faz os estudantes pensarem: o que
estou fazendo nessa escola, e o que vou fazer depois? Será que eu
poderia fazer coisas diferentes? Aí se vê que eles querem fazer
coisas diferentes, para as pessoas, e para ajudar as pessoas. Vamos
ver alguns trabalhos normais, do curso de graduação, para vocês
verem como os estudantes pensam em diferentes temas sobre design.
São apresentados diversos exemplos de trabalhos de estudantes, com
diversos tipos de usos e materiais.
Todos os anos fazemos uma exposição em Milão,
nesta importante feira de móveis. No ano passado (2002) ficamos
um pouco cansados daqueles móveis maravilhosos, e pensamos: podemos
fazer uma exposição também maravilhosa, com os melhores trabalhos
de nossos estudantes. Mas então resolvemos não fazer isso: já é
suficiente. E o que fizemos? Enviamos dez estudantes, para criar
uma exposição lá, a partir do nada. Eles tiveram que achar os materiais,
em todos os lugares, e montar a exposição. Dependeu deles fazer
dar certo. E quando você sabe que a imprensa mundial está lá para
ver tudo o que está acontecendo em design, é bastante difícil de
fazer. Devo dizer que foi um trabalho infernal para esses graduandos,
que tiveram tantas discussões e foi terrível, mas eles conseguiram
fazer uma exposição muito boa. Vou mostrar alguns exemplos:
Para decorar a entrada, a recepção, foram usados
folders de lojas de moda muito exclusivas.
Em seguida são mostrados exemplos dos trabalhos
apresentados pelos alunos na exposição, de nome Improvvisare.
Foi um grande sucesso, apesar de custar muito
trabalho a todos. Então a embaixada em Tókio pediu que fizéssemos
o mesmo lá, então lá fomos nós. Mas foi diferente, porque Tókio
e design no Japão é diferente do que se vê em Milão. É também um
design mais industrial. Muito clean. Lá foi mais difícil do que
em Milão. Os estudantes criaram de novo um espaço feito de todo
tipo de material desprezado, foram ao mercado de peixes, para ver
as caixas de poliestireno, e fizeram uma sala a partir disto, só
de material encontrado e com fitas adesivas.
Eles também fizeram presentes para todo mundo,
pois os japoneses adoram presentes. Eles gostam de receber pequenos
presentes quando você parte. Bom, essas duas exposições foram muito
importantes para nós. Provavelmente não faremos de novo, mas foi
muito bom termos feito, e também para os japoneses.
Man and Humanity
O projeto que fizemos aqui no Brasil, 'Design
Solidário', foi um importante projeto piloto para esse departamento
que criamos, e nós abrimos este departamento de mestrado em 11 de
setembro do ano passado. Há pessoas aqui que estavam lá para o seminário
de abertura.
A idéia deste 'Man and Humanity' é que designers
estejam repensando design para o futuro, que pensem o design de
modo global. Eles fazem um projeto em países em desenvolvimento,
onde eles trabalham juntamente com a artesãos locais, e em que se
trocam experiências e aprendizados, uns com os outros. Na maioria
das vezes (essa é a idéia) tenta-se criar novos modos de sobrevivência
para as pessoas que vivem deste artesanato, que aos poucos está
desaparecendo.
Agora mostrarei um projeto em Quênia. Eles devem
fazer um projeto sobre um assunto local, podendo desta forma trabalhar
em prisões, hospitais, casas de repouso, etc. Eles têm de encontrar
um projeto bem próximo a eles. Então eles têm que fazer um projeto
pessoal, para descobrir o Terceiro Mundo em si mesmo.
O que estou fazendo pelas outras pessoas, como
estou me comportando com meus amigos, e como estou trabalhando junto
com as outras pessoas?
Então eles estavam fazendo essas três coisas lá,
e no segundo ano fizeram seu projeto final individual e assim puderam
descobrir qual projeto mais os interessa, colocando pesquisa nisto,
e se expressando.
Eles estão há seis meses trabalhando lá.São oito
estudantes de diferentes partes do mundo. Eles foram ao Quênia para
trabalhar juntos com pessoas de cinco cooperações em todos tipos
de materiais. Aqui vê-se o processo, e a idéia era criar novos produtos,
ou fazer pequenas modificações nos produtos que já estavam sendo
produzidos, para encontrar novos mercados e novos modos de vendê-los,
e fazer funcionar.
Não se pode fazer um novo design e colocar lá.
Você tem que trabalhar junto, e talvez alguma pequena modificação
no que eles estão fazendo. Isso é muito importante, e o mais importante
nestes projetos é que você faça isso com respeito mútuo. Pode ser
muito difícil quando um grupo de holandeses loiros e saudáveis chega
em seu país e diz: Ok, vamos mudar tudo por aqui! É muito delicado
fazer projetos como esses, e nós sempre aprendemos com isso, e vemos
que ainda temos que aprender muito, para encontrar a maneira certa
de lidar.
E por fim, nossa exposição na escola, que nós
chamamos de "Curta a diferença". O que está acontecendo agora? Nós
estivemos lá, e como vamos continuar, já que a idéia é que as instituições
de lá assumam e trabalhem junto conosco, para encontrar o modo como
vamos continuar com essa estória.
Será algo que eles queiram, não o que nós queremos.
Algo que seja útil. Bem, isso é o que estamos fazendo.
Muito obrigada.
* Liesbeth in ´t Hout estudou no
Departamento de Moda da Academia de Artes de Arnhem (Holanda). Ex-professora
e atualmente membro do Conselho Executivo da Design Academy Eindhoven,
atuou como ilustradora independente para várias organizações holandesas,
como PTT (Correios), NS (Ferrovia estatal) e Ópera de Amsterdã.
É membro do Conselho Supervisor da Academia Holandesa de Artes Visuais
(Amsterdã), do Conselho Consultivo do Siemens Design Labor e da
Fundação Holandesa para Artes Contemporâneas, Design e Arquitetura.
Participou de vários projetos da Design Academy Eindhoven no exterior,
como 'Design Solidário' (Brasil) e 'Man and Design' (Quênia).
 |
Paul
Meurs
(*)
Urban Fabric / Holanda
Vou
falar sobre o projeto 'Design Solidário', que faz parte
das experiências da Design Academy Eindhoven, e que
foi projeto piloto do 'Man and Humanity'.
O Design Solidário foi feito antes que o projeto no
Quênia. O projeto no Quênia faz parte do mestrado
da academia, enquanto o 'Design Solidário' é
um experimento com os alunos da graduação.
O projeto que, como costumo dizer, constrói pontes
sobre o oceano da Holanda para o Brasil, aconteceu no final
de 2001, e tentou incorporar questões da economia com
questões da educação e de design. Fora
as confusões lingüísticas entre Holanda
e Brasil, (também houve muitos mal-entendidos) houve
aproximações entre várias disciplinas.
|
Foi muito difícil achar patrocinadores que
se identificassem com o processo integral. Todo mundo que quer apoiar
coisas econômicas diz: ah, mas isso é educação
e quem mexe com a educação diz: ah, mas isso é
design, então existe muita dificuldade, muita luta para organizar
projetos, e por isso tinha muitas entidades envolvidas. Isso para
dar uma idéia da quantidade de organizações
envolvidas. Muito importantes foram os patrocinadores que deram
poucos dólares, mas o importante do projeto foi o que aconteceu
dentro deste círculo, que foi um encontro de 15 alunos holandeses.
Tinha uns estrangeiros se formando na Holanda também, e duas
comunidades brasileiras de artesãos.
A comunidade aqui em São Paulo de Monte
Azul e a comunidade de artesãos do sertão central,
que é a de Serrita, uma cidade em Pernambuco.
Nessa apresentação vou explicar
esse projeto. Vai ser tão complicado que acho que vou precisar
de pelo menos 25 minutos para falar isso.
Vou contar um pouquinho da experiência que
nós tivemos, e tentar resumir os resultados. Se o tempo permitir
vou tentar dar algumas perspectivas para o futuro do projeto.
No Brasil existem duas comunidades muito diferentes.
Serrita e São Paulo ficam a 2.000 km de distância,
mas também existe a distância da cidade e do campo,
do sertão.
Nosso projeto reuniu campo e cidade com duas comunidades
muito diferentes, mas também com laços históricos
e muita coisa em comum. Em vez de termos o encontro de duas culturas,
temos o encontro de três mundos. O mundo holandês, o
mundo do sertão e o mundo da periferia de São Paulo.
É uma longa viagem para se chegar a Serrita.
Você sai de Recife e percorre a estrada a noite toda, até
chegar na cidade de Salgueiro. De lá tem que pegar carona
para chegar à capital dos vaqueiros, como é conhecida
a cidade de Serrita.
Fica perto de Juazeiro do Norte e Juazeiro da
Bahia, uma região com muita dificuldade, muita pobreza, uma
seca impressionante. Se você conhece as chuvas de São
Paulo, é muito estranho ver como o mesmo país pode
ser tão seco no sertão, onde há muitos séculos
se vive com uma monocultura de agricultura.
Aqui umas imagens do clima, da caatinga e umas
imagens da cidade, um lugar muito afastado, um mundo voltado para
si mesmo, mas também com muitos laços entre si com,
por exemplo, São Paulo. Todo mundo tem parente em São
Paulo, e para mim, que venho da Holanda, é uma coisa incompreensível
como essa pode ser uma parte do sistema, uma rede, um network city
que põe Serrita e São Paulo dentro das mesmas cabeças
das pessoas.
Aqui as moradias feitas de taipa, a criação
de gado e os pequenos sítios, onde as pessoas moram, e têm
pequenos cultivos de subsistência. Em geral pode-se dizer
que cada época de seca traz mais pobreza, mais dificuldades.
Então muitas pessoas vão embora. Vêm para São
Paulo para trabalhar e ao mesmo tempo não surgem novas perspectivas
naquelas áreas. Então esse é o grande desafio:
pensar em como essas regiões secas podem criar, inventar
novas economias sustentáveis para evitar a saída do
campo.
Podemos falar dos problemas, da pobreza, mas também
podemos falar da riqueza cultural que as comunidades têm.
Só coloquei alguns exemplos da criatividade
em design, como essas malas em papel machê, imitando couro,
um material mais caro.
As famílias têm laços muito
íntimos umas com as outras, e principalmente a música.
Todo mundo aqui conhece o Luiz Gonzaga, mas também aprendemos
a dançar o forró pé-de-serra, o que não
é fácil.
Isso já dá uma outra perspectiva
em relação aos problemas. Ao mesmo tempo é
uma região muito rica, sem querer ser romântico. Tem
esses dois lados. No Brasil pensa-se muito, principalmente nos programas
de combate à seca. Em cultivar a música e também
no que as pessoas sabem fazer, e criar essas novas economias.
Um dos exemplos, além da música,
que pode criar novas saídas, novas entradas para a economia.
Este é o curtume de Salgueiro, onde é
feito um processo de couro artesanal. É uma técnica
que existe há 400 anos. Cheira muito mal, mas que é
um couro muito grosso, muito bonito e que é usado e aplicado
em vários produtos que são usados tradicionalmente
na região para a agricultura.
Aqui tem os bordados e as técnicas de trabalhar
com o couro, como por exemplo, as celas de cavalo, usadas na caatinga,
com o gado, e para fazer o gibão, que é o "terno
do sertão". É um uniforme que dá proteção
contra o sol, o clima, mas também contra a vegetação
que existe na caatinga, muito espinhosa. É uma roupa extremamente
útil, com muita mão-de-obra envolvida, e também
com uma identidade muito própria. Aqui nessas decorações
pode-se ver que o artesanato em couro naquela região é
uma coisa única, é uma arte, e tem uma identidade
muito específica, como os furos, a aplicação
de cores, as treliças, a costura, etc.
Tem esse potencial de pensar em como usar esse
artesanato, essa técnica, essa experiência, essa produção
artística. Só que hoje em dia o mercado para vender
gibão e celas está diminuindo. Então tem de
pensar novas saídas, tem de reinventar um processo de trabalhar
com o couro, para abrir novos mercados, ao mesmo tempo mantendo
a identidade, a dignidade e a criatividade das pessoas que trabalham
com isso, que são os artesãos de lá. A gente
viu mais ou menos o desafio de Serrita.Agora vamos passar para São
Paulo.
Monte Azul é uma favela que se localiza
ao lado da ponte João Dias, uma das referências da
Marginal do rio Pinheiros, onde também está chegando
o metrô, tem o terminal de ônibus, a estação
de trens.
Monte Azul não é muito grande, mas
às vezes as pessoas chamam de favela cinco estrelas, o que
eu não acho justo. É uma favela que tem um trabalho
social instalado há muito tempo, e com isso a favela conseguiu
muito se organizar por si mesma, fazendo contatos com o mundo lá
fora, conseguindo verbas, patrocínio, apoio, para a construção
de creches, um centro de convivência, um teatro, urbanizando
a favela. O córrego foi canalizado, ganharam uma praça.
Aos poucos a favela está virando um bairro da cidade, e tem
todo esse trabalho social inspirado na antroposofia, que fez a Monte
Azul diferente das outras, mas ao mesmo tempo continua uma favela,
portanto jamais se pode chamar de um bairro nobre da cidade. Acho
interessante para nós trabalharmos juntos com as pessoas
da Monte Azul é que lá tem uma infra-estrutura instalada
para receber pessoas de fora, então não teve esse
choque total. Todo mundo se acostumou rápido com o projeto.
E também acho que a Monte Azul tem um papel de vitrine, ao
mostrar que tem saída para tantas outras realidades piores
no Brasil.
Então, ao invés de buscar um desafio,
saindo da Holanda, a gente jamais ia conseguir construir um trabalho
conjunto numa favela muito decadente. Nosso caminho para a Monte
Azul deu certo porque a gente se entendeu bem. Começamos
a pensar em alternativas e coisas que podem ser uma referência
para outros projetos em tantos outros lugares do Brasil, como tem
tantas outras referências.
Uma das coisas que também se instalou na
Monte Azul ao longo dos anos foi a marcenaria, que na verdade é
uma escola. Tem ateliês, onde as crianças da favela
e das favelas vizinhas aprendem técnicas e ganham diplomas,
certificados oficiais, do Sebrae. Com esse diplomas eles podem entrar
no mercado de trabalho e ao mesmo tempo as marcenarias produzem
também produtos. Então é escola e fábrica
ao mesmo tempo. Só que a produção da favela
é uma coisa meio estranha. Eles produzem brinquedos que são
réplicas de brinquedos alemães do século 19,
inspirados na antroposofia. A antroposofia é uma linha muito
importante em toda a ação social na Monte Azul. É
claro que é muito interessante que as crianças aprendem,
produzem brinquedos, vendem os brinquedos nas lojas, e com isso
ganham dinheiro para construir mais equipamentos sociais para a
comunidade. Mas ao mesmo tempo é um pouco chato porque a
produção deles é limitada a reproduções
européias, que vêem de muito longe.
Outra coisa é que o mercado para brinquedos
pesados não está crescendo muito. Só algumas
lojas é que vendem. Mas é interessante pensar como
esses ateliês da Monte Azul podem procurar outros mercados,
pensar em produtos muito mais próprios de uma identidade
de uma realidade ligada à periferia de São Paulo do
que à realidade antroposófica alemã.
Também se pode pensar em desenvolver tecnologias mais distintas,
em que os produtos de lá vão se destacar no mercado.
Estou falando de madeira, mas a Monte Azul também
tem ateliês onde são fabricadas bonecas, também
inspiradas nos exemplos alemães. Tem o ateliê de papel,
onde eles reciclam papel, e fazem um papel muito bonito para cartões
de Natal, etc.
E a Monte Azul também tem uma oficina de
reciclagem de móveis, onde eles coletam móveis velhos
e refazem. Então sentimos que o desafio de Serrita de pensar
que a identidade do couro, do artesão do sertão, como
base para novos produtos que podem entrar em novos mercados, e o
desafio de São Paulo é o de pensar em produtos, linhas
com uma identidade nova que também podem ser aplicados em
mercados novos.
Mas ao mesmo tempo em que é muito legal
fazer projetos com esses três mundos, uma escola da Holanda,
artesãos brasileiros, A Casa e muitas entidades, acho que
em primeiro lugar devemos ser muito modestos quando a gente pensa
num projeto tão ambicioso que está unindo os mundos.
Eu coloquei aqui o que a gente tinha na cabeça
quando começamos o projeto. Porque podemos talvez trazer
para o Brasil ou desenvolver no Brasil uma cooperação,
sem ter nenhuma intenção de vir ao Brasil e falar
como tem de ser feito, porque estamos muito conscientes das capacidades
brasileiras existentes. Acho que é muito mais o processo
de procura. Uma procura que pode ser feita sozinha no Brasil numa
comunidade, com entidades que estão trabalhando juntas no
Brasil, mas também pode ser feita com entidades que vêm
de fora. Essa busca coletiva, acho que é o que fez do 'Design
Solidário' um desafio muito grande. E também quero
lembrar que é um projeto piloto, então não
é para ter as respostas, mas sim para avaliar essas experiências
do como nós podemos aprender, seja na Holanda como alunos,
seja no Brasil como artesãos e comunidades.
Aqui coloquei como podemos pensar em novos produtos
e levar idéias. Temos algumas técnicas novas que podem
ser aplicadas nas cooperativas.
O projeto chamou muito a atenção
da imprensa. A nossa presença fez Serrita famosa em São
Paulo, sem a gente mexer com nada.
Talvez nosso projeto de cooperação
seja um ponto a favor de atrair novos investimentos e pensar em
exportação dos produtos.
O projeto é modesto, mas não é
tímido. Não é para induzir alguma coisa no
Brasil, mas para aprender junto e tentar melhorar a profissão
dos dois lados.
Esse processo de ver o que acontece no mundo e
com isso enriquecer, ficou sendo nosso desafio.
O nosso projeto ficou assim: A primeira parte
foi feita em Eindhoven, no ateliê de Hella Jongerius, em que
os alunos trabalharam com os materiais a serem usados no Brasil:
couro, madeira, papel e bonecas. Pensando em como usar, reciclar
esses materiais para novos produtos.
A partir daí dividimos: cinco foram para
Serrita, para trabalhar nas cooperativas junto aos artesãos,
refazendo, reciclando e reinventando as nossas idéias. Foi
um processo de criação e reciclagem. Criação
de idéias dos alunos holandeses, sendo reciclados com os
artesãos brasileiros.
Dá para imaginar que essa é uma
experiência muito rica, para tentar chegar aos resultados,
e ao mesmo tempo buscando a reciclagem de soluções
para abrir esses novos mercados.
O encontro cultural pode ser o ponto forte, mas
também pode ser o ponto fraco do processo. É também
um encontro de realidades opostas, com o choque cultural dos dois
lados. O choque dos holandeses com a pobreza, o lado sujo do Brasil,
muito presente tanto no campo quanto na cidade.
Ao mesmo tempo, dentro deste contexto, nas cidades
do interior e nas favelas há muita energia acumulada, criatividade
e muita dignidade das pessoas em levar a vida delas. A idéia
é de usar essa energia, todas as coisas boas que estão
nas favelas e fazer essas coisas crescerem.
O desafio do encontro das culturas, o choque entre
riqueza e pobreza em vários sentidos. A língua acabou
não sendo um problema. Todo mundo se entendeu bem.
Dentro desse encontro das culturas tem um potencial
muito grande para a renovação das tradições
brasileiras. Se a gente faz projeto com holandeses, as idéias
vindas de lá podem ser férteis aqui no Brasil.
Os experimentos com couro têm muito mais
perspectiva, porque lá foi repensado o que se pode fazer
com os objetos, mas deixando toda a identidade do produto.
Quanto aos resultados, eles estão presentes
dentro de todos que participaram do projeto. A experiência
do encontro já valeu a pena.
Os resultados do projeto foram apresentados um
mês depois que chegamos do Brasil. Foi um mês de trabalho
duro. Foi feita uma mostra em São Paulo e outra em Recife,
com os objetos criados e os produtos feitos na cooperativa.
Um bom resultado foi a publicidade gerada, um
passo a mais nesse caminho de pensar o artesanato não como
uma coisa da periferia da economia, mas como uma potência
muito grande para a renovação da economia brasileira.
Para se criar empregos no Brasil, é muito mais nas pequenas
empresas, pequenas indústrias, e talvez esse projeto possa
ajudar um pouco, como tantos outros, a descobrir o potencial imenso
na economia brasileira.
O resultado final nos produtos: foi desenvolvida
uma linha de produtos em couro em Serrita, onde os produtos não
têm exatamente a ver com a cultura local, mas em que o artesão
pode deixar sua marca específica.
Foram feitas 500 peças de couro em Serrita,
e objetos de papelão na Monte Azul.
O futuro da experiência: a idéia
da Academia é voltar para trabalhar junto com essas comunidades.
Pensamos em fazer um Design Solidário 2, melhorando as técnicas,
aumentando a produção, estimulando a exportação
e criando novos produtos.
Obrigado.
* Paul Meurs é arquiteto,
sócio da empresa de pesquisa Urban Fabric Schiedam e associado
de 'Mecanoo Architecten' em Delft. Doutor pela Universidade Livre
(VU) de Amsterdã e professor da Universidade Tecnológica
de Delft. É pesquisador da Arquitetura brasileira, organizador
do livro 'Brazilië – laboratorium van architectuur en
stedebouw' e autor de diversos artigos publicados no Brasil e na
Holanda. Organizador do projeto 'Design Solidário' para desenvolvimento
de produtos e marketing para cooperativas de artesãos de
couro em Serrita (PE) e várias oficinas na Favela Monte Azul
(São Paulo), em colaboração com a Design Academy
Eindhoven, 'A Casa', Acoma (São Paulo) e Fundação
Padre João Câncio (Serrita) Curador das exposições
‘Motopias’ e ‘A2, the Trans Netherlands Highway’
na I Bienal de Arquitetura de Roterdã, em maio de 2003.
 |
Perguntas do público
Renata, coordenadora da 'A
Casa' (www.acasa.org.br
- que tem como foco de interesse os universos do artesanato
e do design e de suas inter-relações): "Fomos
parceiros no projeto inovador 'Design Solidário' Brasil-Holanda,
e como nossa experiência até então incluía
designers e artesãos brasileiros, pudemos avaliar a
complexidade e os desdobramentos inerentes a um projeto do
porte do Design Solidário.
Pergunta para Paul Meurs:
como vocês poderiam considerar a possibilidade de colaboração
de designers também de países onde se realizam
os projetos? |
E como é decidido o tempo que a ação
educativa dispõe para que os estudantes realizem o projeto
em determinado país? É um tempo fixo, ou variável,
de acordo com o projeto a ser realizado?"
Paul Meurs: o que enriquece o design, a arquitetura,
qualquer disciplina, é o contato com coisas inovadoras. Quanto
mais idéias, de mais longe, mais lugares possíveis,
enriquece mais. Claro que posso imaginar projetos como Design Solidário
com a participação de brasileiros, assim como a presença
de designers brasileiros na Holanda. Isso já acontece na
Arquitetura. Não existe um escritório holandês
só com holandeses.
Qualquer desafio de design deve ter idéias
de todo o mundo. Mas cada projeto deve ser pensado muito bem, pragmaticamente.
Como é viável organizar. Devido à quantidade
de entidades envolvidas, e como pode ir para frente.
Quanto ao tempo do projeto: é uma loucura
fazer um projeto em três semanas, e me surpreendo muito com
os resultados, muito além do que imaginamos com antecedência.
Se for para dar continuidade ao Design Solidário, temos que
pensar em maneiras mais flexíveis. Se em Serrita eles querem,
por exemplo, em vez de cinco estudantes, só um estagiário
para ficar um ano ajudando na produção. Também
temos que acertar melhor as futuras tarefas, mas ao mesmo tempo
tem que se encaixar nas oportunidades dentro da estrutura de ensino.
Acho muito rico que o Design Solidário não é
empresa, mas escola, e ao mesmo tempo tem que ser viável
em termos financeiros.
Juliana – (jornalista) Quer saber de Paul
Meurs se o projeto vai ter continuidade, se os produtos foram levados
para a Holanda e qual a aceitação.
Paul diz que sim, os produtos foram levados para
uma mostra na escola em Eindhoven e depois voltaram para o Brasil,
mas não estão no mercado. Existe algum interesse dos
EUA para importar os objetos, mas que estão em processo de
pesquisa para viabilizar.
José Carlos Mendonça pergunta aos
Campana se eles perceberam alguma mudança de percepção
ou oportunidades em relação ao trabalho deles no circuito
Milão-Tókio, e se agora o trabalho deles é
tratado como design sério por esses mercados.
Fernando Campana: Sim. Houve uma modificação,
causada por uma insistência, por uma crença num fazer
manual de móveis e de nossa expressão própria,
de conquistar um mercado, um respeito no mundo do design. Isso é
uma forma de exemplificar que existem outros caminhos a serem percorridos
além dos já estabelecidos. Levar o artesanato para
uma empresa européia é um desafio, e para isso você
tem que ter um respeito. No começo nosso trabalho foi tratado
um pouco como pitoresco, mas com o tempo nós provamos o contrário.
O mundo provou, com as peças que foram a diversos museus
do mundo, que não era folclore. O mundo está mais
receptivo, a Itália inclusive, ao que vem de fora.
Outros centros também estão mais
receptivos. Nosso trabalho passa por uma linha sutil entre o kitsch
e o regional. Deve ser trabalhado com muita delicadeza.
Design se tornou mundial. O desenho dos objetos
passou a ser determinante na escolha do consumidor. Design não
é só mobiliário. Tudo que tem projeto é
design.
Adélia: acho que por modéstia, os
Campana não disseram que têm sido apontados como o
acontecimento mais importante dos últimos tempos. Antes não
havia interesse sobre a produção do hemisfério
sul. O tremendo sucesso dos Campana lá fora existe por uma
razão básica: eles não se travestiram de italianos
ou holandeses para fazerem sucesso lá.
Queria fazer um comentário sobre o Design
Solidário:
Eu achei maravilhosa a estrutura da escola de
Eindhoven. Gostaria de cumprimentá-los por essa disciplina
e achei interessante o interesse da Holanda e a apresentação
do Paul. Mas gostaria de fazer uma observação: como
vejo esse projeto como um piloto que vai ser aperfeiçoado;
os estudantes trouxeram os protótipos prontos, fazer o projeto
tanto em Serrita quanto na Monte Azul, deu mais ou menos no mesmo.
Como disse o Paul "o produto é extremamente fashion.
Não tem nada a ver com Serrita". Acho isso muito sério.
Esses programas devem ser feitos com extremo cuidado, porque às
vezes é o erudito que ganha nesse contato com o popular.
A comunidade de Serrita ainda estava muito virgem e muito genuína.
O resultado do projeto lá levou uma linguagem internacional,
clean, padronizada, de que até o Primeiro Mundo já
se cansou. Em Serrita não houve uma verdadeira troca. A questão
do respeito mútuo, e de se achar a identidade do local em
que se está trabalhando, é muito importante, assim
como se deve envolver professores e alunos do local. Quero cumprimentar
a iniciativa, mas dizer que alguns cuidados devem ser tomados, para
que se celebre a diferença, mas que não se padronize
e acabe com a diversidade, que é uma das riquezas do mundo
hoje.
Liesbeth: quero dizer que concordo com você.
Essa foi nossa primeira conclusão.
Por isso foi um piloto. Foi a primeira vez que
fizemos isso na escola. Ficamos muito felizes de ter a oportunidade
de trabalhar com algo que estávamos desejando, e de um modo
muito sério. Porém quando o projeto terminou, achamos
que não era o modo certo de fazer. Quando você trabalha
com artesãos, deve realmente trabalhar junto, e aprender
com eles. Eles são profissionais em seu artesanato, e nós
somos apenas estudantes criativos. Também acho que deveríamos
incluir gente daqui, que pudessem continuar e dar seqüência,
desde que é o país deles.
Mas a partir do momento em que assumimos o projeto,
nos sentimos responsáveis por ele. Nossa responsabilidade
é com todos os envolvidos, e não somente com a escola
holandesa. Também fizemos isso pensando que nossos estudantes
deveriam aprender – e aprenderam muito -, e onde eles mais
aprenderam foi ao viver junto com aquelas pessoas, com as famílias,
cozinhando com eles, fazendo música com eles, e aprendendo
uns com os outros. Foi uma experiência maravilhosa para ambos
os lados. Todo o processo foi fantástico. Nós não
vemos de um modo em que temos as respostas. Temos a mesma idéia
sua, de que temos de trabalhar e respeitar os produtos que já
são feitos lá. Podemos inclusive chegar a um ponto
de dizer: nós não podemos fazer nada. Eu não
acho. Penso que é justo fazer isso. Aquelas pessoas são
muito pobres, e precisam de alguma ajuda. Talvez de nós ou
de outras pessoas, outros estudantes. Nós queríamos
muito fazer isso, e ficamos muito felizes por ter feito.
A mediadora Maria Cecília coloca que o assunto
levantado é muito sério, e por isso mesmo o objetivo
deste seminário é colocar em discussão e repensar
as relações entre design e sociedade. "O Paul
colocou que eles chegaram para trabalhar nos dois projetos com muita
modéstia. Essa atitude de modéstia é a mesma
dos artesãos que estão excluídos do mercado,
de produtos, de comercialização. Seja a exclusão
social imensa que encontramos no nosso país e que hoje é
a grande agenda do presente governo federal. Essa atitude de modéstia
não pode gerar uma posição de estetização
desta miséria, como tanto vem gerando uma grande discussão
na produção de imagem e na própria mídia.
Esse tema é bastante profundo e complexo. Queria deixar uma
questão para ser pensada: esses produtos que nós vimos,
seja dos artesãos, seja dos catadores de papel ou outros
produtos de design espontâneos que aqui foram mostrados, que
vieram de pessoas severamente excluídas da sociedade. É
preciso que a gente considere e tenha em mente que essas pessoas
não se consideram vítimas. Elas não se consideram
passíveis de uma visão exótica, seja de nós
brasileiros, seja de quem vier de fora. São pessoas que trabalham
profundamente, e a capacidade de projeto mais do que nunca foi demonstrada
e manifestada aqui. Essa é uma questão crucial. Nós
não temos como não enfrentar, mas devemos enfrentar
com a devida profundidade que a complexidade da questão nos
coloca."
Maria Lucia Barbosa (joalheira) cita que trabalhou
com resíduos minerais em Quixeramobim (CE). Segundo ela,
o trabalho dos holandeses foi riquíssimo, ao incentivar o
uso da memória cultural (na forma da transformação
de objetos dessa cultura) para gerar trabalho e renda. O design
tem essa função de servir de antena para o que acontece,
unindo o novo à memória.
Neto – (estudante de design) pergunta aos
Campana se existe uma idéia ou intenção por
partes deles, que já conseguiram introduzir o design brasileiro
no "centro sagrado" do design, como Itália, de
realizar sua produção aqui no Brasil.
Fernando: nos últimos slides mostramos
objetos produzidos aqui, pela La Lampe, Arredamento, etc. No último
projeto, de Brasília, usamos matéria-prima produzida
pelo projeto da Comunidade Solidária. Nós não
queremos ser produtores, mas tentamos indicar caminhos para que
empresas peguem nossos projetos e levem a essas comunidades. A Edra
tem interesse em produzir nossos móveis no Brasil, porque
a mão-de-obra aqui é mais barata, o que iria baratear
os custos.
 |
Ida
van Zijl
*
Holanda
Obrigada.
Vou tentar contar algo sobre as idéias e filosofias
de Droog Design (DD).
Este é considerado um ícone da coleção
de DD. Foi desenhado em 1980 por um jovem designer de Utrecht.
A principal coisa que ele queria quando fez isso não
era projetar. Ele queria começar com um croqui, de
um jeito como Robinson Crusoé em sua ilha. Ele queria
fazer coisas com tudo ao seu redor. Ele coletou 20 gavetas
antigas, de diferentes usos. Fez uma moldura de madeira para
cada uma delas e amarrou tudo com um cinto. Foi isso. Ele
pegou as gavetas como elas eram, incluindo seus defeitos.
Foi uma improvisação deliberada. |
Este design não é apenas um objeto,
mas um tipo de crítica. Muita crítica. Ele critica
o design elegante e estabelecido, critica a abundância em
design, o consumismo excessivo. É também um protesto
contra a crescente complexidade da profissão.
Pelo menos no começo muitas pessoas não
gostaram. Também foi difícil de aceitar, por exemplo,
que não tem uma forma fixa. Você pode espalhar as gavetas
do jeito que você quiser.
O Museu de Roterdã comprou essa peça
para sua coleção, e quando foi emprestada para uma
exposição em outro lugar, o pessoal do museu passou
metade de um dia tentando fazer parecer exatamente como estava na
foto feita antes. Essa não era, absolutamente, a idéia
do autor.
Nos dez anos após a execução
desta peça, foram vendidas 25 cópias a museus e colecionadores.
É uma peça muito cara. Para cada nova peça
o designer tem que encontrar 20 outras gavetas e um marceneiro tem
que fazer as molduras para cada uma.
Design é comunicação
As teorias da nova economia, como a tecnologia
da informação, estão especulando sobre menos
propriedade. De acordo com essas teorias, nós não
deveríamos possuir as coisas que usamos. Para os ambientalistas
isso é uma boa nova. Neste novo modelo, produtos materiais
seriam um meio ao invés de um fim.
Além do objeto
Há alguns anos atrás uma agência
de publicidade holandesa criou uma marca baseada nesse princípio.
A marca "Do", que não era ligada a um produto específico.
A companhia queria estimular mais ação por parte dos
consumidores.
"Do" pode ser qualquer coisa, desde
que consiga que os usuários partam para a ação.
Design é experiência
Os produtos ganham vida quando você os ativa.
As coisas mostradas até agora são
baseadas em mentalidade.
Renny Ramakers e Gijs Bakker começaram
em 1993 porque eles descobriram um novo desenvolvimento no design
jovem holandês e queriam apresentá-los num palco internacional.
Todo design era baseado em conceitos. Por isso
o nome "Droog" (seco).
Começou como uma reação ao
Design (com D maiúsculo), ao modo como design deveria parecer.
Assim começou o DD. Colecionando produtos
para apresentá-los com o nome Droog Design. Representa uma
mentalidade. Agora há mais de 100 produtos na coleção.
Todos esses produtos são apresentados mundo afora em exposições,
feiras e lojas.
O que mais está fazendo DD? Estamos trabalhando
em encomendas para companhias e instituições internacionais
e convidando jovens designers para participar.
Esses projetos e objetos são apresentados
em Milão todos os anos, e agora DD tem uma loja/galeria.
É um pequeno lugar no centro histórico de Amsterdã,
ligado ao estúdio. Eles apresentam os produtos da coleção
DD, mas também exposições temporárias.
Por DD não ser um estilo, ou modo de desenhar,
mas principalmente uma mentalidade, eles podem ser muito flexíveis.
A abordagem conceitual os encoraja a se mover pelas fronteiras de
diferentes disciplinas, desenhando produtos, mas também interiores
de lojas, vitrines e outros conceitos de comércio varejista.
Ao construir uma rede, DD é capaz de -
se necessário - contar com o conhecimento de especialistas,
e rapidamente e facilmente obtê-los.
Também os critérios são flexíveis.
DD está interessado em produtos baseados em idéias
frescas, feitas de um modo seco, limpo e interessante. Essa flexibilidade
é uma necessidade de estar na linha de fronte. Qualidade
é uma noção dinâmica, sujeita a transformação
pelas culturas.
DD apresenta produtos, mas quer comunicar, através
deles um novo modo de design. Design deve manter o diálogo
com o mundo ao seu redor. Inspirar-se na tecnologia, assim como
na vida cotidiana. Redefinir a profissão em relação
ao tempo e contexto.
Fazer mais com menos.
Produtos ocupam espaço.
O mundo precisa de novos produtos o tempo todo?
Às vezes é melhor não fazer
nada.
Foi feita a apresentação em Milão
do 'Hotel Droog', um hotel no centro da cidade. Adicionamos alguns
itens para torná-lo mais agradável. Foram 6.000 visitantes
em quatro dias, e acho que a maioria gostou muito.
Ideologia do novo e do velho / depreciação
natural
Incorporar as devastações do tempo
Re-uso
Produtos podem ganham uma nova vida.
Incorporar futuras possibilidades
Perfeição / imperfeição
(como qualidade no design)
A relação entre pessoas e produtos
Lembranças / familiaridade
Interação
Globalização / identidade
Conclusão:
Todas essas atitudes representam um sinal do tempo.
Algumas palavras-chave: globalização,
velocidade, novidade, beleza, perfeição, atração,
estilo, consumo, lucro.
Essas atitudes estão fortemente conectadas
com a atual cultura global, mas de certo modo também complementar
a essa cultura. Nem todos os produtos têm de satisfazer às
mesmas demandas.
É por isso que os designers devem ter o
espaço para fazer designs que não sirvam necessariamente
a meios práticos, mas que apelem à imaginação
e abram novos horizontes.
A prática do design onde o produto é
seja o resultado de um processo criativo.
Um processo inspirado por tecnologia nova ou velha.
Acho que ficou claro que para DD em design os
imperativos culturais vêm em primeiro lugar.
Obrigada
* Ida van Zijl estudou História
da Arte na Universidade de Leiden. É vice-diretora do Centraal
Museum em Utrecht, onde também é curadora. Tem experiências
em vários comitês e conselhos, entre outros, Comissão
para Artes Visuais e Fundação para Designers Gráficos.
Foi curadora de várias exposições, entre elas
uma que veio ao Brasil, sobre a obra do designer Gerrit Rietveld,
exibida na Bienal de São Paulo em 1992. Foi curadora da exposição
Droog Design em 1997, que foi a vários países, como
Holanda, Israel, Dinamarca e Japão. Sua exposição
mais recente é "Ideaal Woning" (viver ideal), no
Centraal Museum de Utrecht. Ida escreveu vários livros e
fez várias publicações, entre outros um livro
sobre Droog Design, em 1997, e "Objects to Use - Gijs Bakker",
que é um dos fundadores do Droog Design.
 |
Fabíola Duva
Bergamo e Lars Diederichsen*
Terra Design / Brasil
Responsabilidade Social e
Ambiental do Design
Lars: Boa tarde a
todos
Acho muito legal o interesse
por esse tema, porque há uns anos atrás havia
pouca gente participando dessas discussões, e hoje
esse interesse tem aumentado.
Vamos mostrar um trabalho
que fazemos desde 1995 com artesãos, mas antes gostaria
de dizer como é ser designer no Brasil. |
Para suplantar as dificuldades técnicas
que temos no Brasil, temos que usar a mais criatividade. Talvez
seja um paralelo com a Holanda, não no sentido de conceito,
mas no sentido de necessidade.
Como trabalhamos com pequenas empresas, é
difícil conseguir investimentos em moldes, por exemplo, então
temos que pensar em projetos simples e inteligentes, como famílias
de produtos.
Na questão ambiental, fazemos uso de madeiras
com o selo verde, mas é uma questão que só
agora começa a despertar o interesse dos empresários,
de usar material ecologicamente correto.
Algumas mostras, como 'Brasil faz Design', ou
'Brasil Natureza' ajudam os designers a desenvolver a criatividade
e a brincar com esses materiais.
Fizemos experimentos com mesas de tampo látex
com fibra de coco e outros.
Firmas que trabalham com fibras, como o vime,
hoje estão fazendo parcerias com o design, e valorizando
as técnicas tradicionais.
Hoje ocupamos grande parte de nosso tempo com
o trabalho junto às comunidades de artesãos, e temos
trabalhado menos com design.
Aqui alguns pontos importantes, que são
a base do nosso trabalho:
Identidade local / regional
Meio-ambiente
Matéria-prima local
Cooperação
Técnicas tradicionais
Auto-estima
Em 1995/96 participamos de um workshop na Sebrae,
que foi o início deste projeto, que dura até hoje.
Numa cooperativa de senhoras japonesas, desenvolvemos
produtos de bambu, a partir de alguns já existentes.
Diversos produtos, junto a diversas comunidades
do interior, foram desenvolvidos utilizando matéria-prima
da natureza por eles usados, como sementes, palhas e madeiras.
Fazemos também as logomarcas e a identidade
visual para levar os produtos ao mercado e viabilizar a comercialização.
Fabíola: Complementando essa estória
das embalagens. Normalmente os artesãos enviam seus produtos
em caixas que eles arrumam em mercados, etc. e isso também
é uma forma de reciclagem. Para acabar com isso e não
ter que fazer uma caixa para cada produto, o que seria inviável,
foi pensado num papel de embrulho com uma etiqueta. Eles continuam
colocando dentro das caixas que eles arrumam, porém embalados
com a etiqueta com os dados sobre o produto. Assim cria-se uma apresentação
de qualidade sem um gasto excessivo.
Duas das coisas principais nessas oficinas são:
Responsabilidade e Valorização.
Ao chegar nessas comunidades, mexe-se em relações
há muito estabelecidas:
Artesão – trabalho / importância (p. ex.: local
inadequado, sem boas condições)
Artesão – artesão / cooperação
(a maioria trabalha separadamente)
Artesão – família / conflitos (quando as mulheres
passam a ganhar mais que os homens, ou crianças que podem
ganhar como trabalho, p. ex.).
Artesão – design / direcionar (não chegar com
produtos prontos, mas abrir caminhos para seguirem em frente).
Expectativas – lidar com as expectativas geradas com a chegada
das oficinas.
Valorização
Artesão – profissional – pessoa
Produto – Matéria-prima
Técnica
Elementos culturais
Qualidade
Relação – produto / mercado
Diretrizes
Extrativismo - replantio de capim-dourado, diversificação
de produtos, novos modelos; barro para cerâmica, buriti, sisal.
Uso de resíduos - folha de bananeira, casca de laranja, fibra
de bagaço de cana.
Criatividade popular – com o uso de técnicas tradicionais
e materiais muitas vezes à disposição, pode-se
alcançar uma grande qualidade e um mercado para o artesanato
popular.
* Fabíola Duva Bergamo formou-se em Desenho
Industrial pela Universidade Mackenzie (1982). Fez mestrado na Academia
Domus de Milão, Itália (1986/1991) onde trabalhou
posteriormente em vários estúdios. Lars Diederichsen
formou-se em Desenho Industrial pela Faculdade FH Kiel, Alemanha,
após um curso técnico de marcenaria e madeiras na
empresa Heuer (Kiel). Em 1990 trabalhou no Studio Raul Barbieri
(Milão). Fabíola e Lars fundaram em 1993 o Terra Design
em São Paulo, onde elaboram projetos para diversas empresas
do ramo moveleiro e de iluminação. Fabíola
e Lars trabalham há vários anos como consultores do
Sebrae, elaborando projetos junto a comunidades artesanais em vários
Estados do Brasil. Participaram de várias mostras nacionais
e internacionais e ganharam importantes prêmios, como o Dupont
Design Award, Abilux e Museu da Casa Brasileira. Prestam consultoria
para empresas e instituições, como USP, Sebrae, Senai,
Senac e Pnud.
 |
Dodora
Guimarães(*)
Centro de Artes Visuais Raimundo Cela / Brasil
Juazeiro do Norte, a terra
da re(i)novação
Boa tarde a todos, e obrigada
pela oportunidade de trazer o Ceará e Juazeiro do Norte
até São Paulo.
Que aqui já teve a
oportunidade de conhecer esse universo da terra do Padre Cícero
vai compreender que vou falar aqui de alma.
A alma do negócio,
da fé, da clarividência de alguém que
vislumbrou a possibilidade de uma cidade fundada nos princípios
que ele chamava "a oração e o trabalho". |
Antes mesmo de existirem as escolas de design
e o Sebrae, um missionário o sertão viu na cultura
do povo, na grande imaginação, a possibilidade de
uma nova vida.
Esse homem tinha diversas qualidades além
dessa grande visão. Foram essas qualidade, e sobretudo sua
crença no sonho que fez com que surgisse essa cidade.
Ao contrário do que muita gente pensa,
o sertanejo não é um desculturado, mas uma pessoa
detentora de muita sabedoria, cultura e uma visão de mundo
muito particular.
Em 1985 fui ao Juazeiro, e fiquei seduzida por
aquela cidade com seu ritmo cinematográfico, e onde as pessoas
eram motivadas por valores que a gente achava que nem existiam.
Quando o padre Cícero resolveu fazer aquela
cidade, ele pregou que cada casa deveria ter na entrada um santuário,
e nos fundos, uma oficina.
Juazeiro é marcada pela história
das secas, assim como todo o Ceará, e é também
um entroncamento do Nordeste, pela localização geográfica
(no vale do Cariri), fazendo divisa com Pernambuco, Piauí
e Paraíba.
Além de ser uma cidade onde tudo se renova
constantemente, esse sentido da renovação também
está ligado à religiosidade do lugar.
Os santuários domésticos têm
de ser renovados anualmente, então essa é uma prática
comum, tendo sido acumulada ao cotidiano.
As inovações são assimiladas,
de acordo com a cultura local.
Segundo o imaginário popular o padre Cícero
não morreu, mas viajou. Reze a lenda que fez sua viagem subindo
numa escada de luz rumo ao céu, onde está ao lado
de Nossa Senhora das Dores.
Lá eles se referem ao padre Cícero
como se eles estivesse vivo e presente.
A fé transforma o tempo, espaço
e o cotidiano deste território mágico.
O padre Cícero (1844-1934) foi um líder
religioso, mas principalmente líder político, e é
considerado santo por seu povo.
O local atraiu fiéis de toda a redondeza,
atendendo ao pedido do padre Cícero: "Romeiros, tragam
a sua arte para Juazeiro do Norte".
Em 1889 aconteceu o milagre da hóstia,
quando numa Sexta-feira Santa ao dar a comunhão para a beata
Maria de Araújo e essa hóstia transformou-se em sangue.
Por essa razão o povo passou a conclamá-lo
o santo do sertão, e ao mesmo tempo a Igreja o afastou.
Esse fato fez com que a cidade se desenvolvesse
bastante, atraindo gente de toda a redondeza.
Quando as pessoas iam se instalar em Juazeiro,
o padre perguntava sobre o ofício de cada um, e se estivesse
de acordo com as necessidades da cidade, essa pessoa era orientada
para que desenvolvesse aquele ofício. Assim a cidade foi
sendo organizada de acordo com os ofícios.
Isso foi estruturado de tal forma, que sobreviveu
ao tempo e a cidade continua nesse ritmo.
As tradições populares estão
vivas na sociedade de Juazeiro.
É um exemplo para que trabalha com arte,
invenção e qualidade de vida.
O retalho é usado como material (reciclado)
de artesanato, com o qual se fazem panos e mesmo objetos, além
da técnica do fuxico.
A exposição "Admiráveis
Belezas do Ceará ou o Desabusado Mundo da Cultura Popular",
no Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza, resume bem o que
é esse povo "desabusado" do Ceará.
* Dodora Guimarães é bacharel em
Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará
(1977) e especializada em Teorias da Comunicação e
da Imagem (1993). Iniciou sua carreira como publicitária,
com criação e redação. Em 1982 abriu
a Arte Galeria (Fortaleza), voltada para difusão e comércio
de arte contemporânea, em atividade até 1993. Fundou,
com Sérvulo Esmeraldo, a Xisto Colonna Edições
de Arte, (livros de artista, múltiplos e gravuras). Curadora-assistente
da I e da II Exposição Internacional de Esculturas
Efêmeras (Fortaleza, 1986 e 1991). Dirige o Centro de Artes
Visuais Raimundo Cela, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará
desde 1994. Coordenou o sub-programa 'Design e Artesanato' do Instituto
Dragão do Mar (1996-1997). Curadora de exposições
como 'Universo Cariri', 'Jangada', 'Admiráveis Belezas do
Ceará ou o Desabusado Mundo da Cultura Popular'. Curadora-adjunta
do Itaú Cultural - Projeto Rumos Visuais 1999/2000. Co-autora
do livro 'Ceará feito à mão' (Terra da Luz,
Fortaleza, 2000). Vive e trabalha em Fortaleza.
Lacides Manuel Marquez * Philips Design / Holanda
Philips Design e Sociedade: Pesquisa de Design, o diálogo
contínuo.
Gostaria de dizer que minha palestra vai ser um
pouco diferente, porque a perspectiva que temos numa companhia como
a Philips (especificamente Philips Design), tem pouco a ver com
resíduos de cocos e plantas. De fato nós somos uma
indústria de tecnologia. Queria passar a nossa visão
sobre o que deveríamos visar em termos de sociedade e sustentabilidade.
Quando Stefano Marzano me pediu para representar
a Philips Design neste evento, fui dominado pelo pensamento de como
eu, um simples designer de produtos poderia descrever a complexidade
das parcerias que temos tentado desenvolver, e o entendimento e
conhecimento que tentamos construir, aos nos esforçarmos
para investigar as relações que o design tem com a
sociedade. (enquanto uma empresa, designers e indivíduos).
De fato, tudo o que a Philips Design faz, tem
a ver com a sociedade, uma vez que não investimos ou desenvolvemos
nossas tecnologias, nossos metodologias, produtos, sistemas e serviços,
num vácuo sem contexto. Estamos sempre focando nas pessoas
e seus ambientes, suas necessidades, aspirações, sonhos
e, talvez agora, seus medos. Antes disso, porém, temos de
ter a humildade de nos perguntar o que realmente acreditamos ser
design.
Vários conceitos dentro de vários
contextos podem defini-lo: design como moda, atividades de design
e design no sentido holístico, e design com D maiúsculo.
Design é uma questão de atitude,
mas que tipo de atitude?
Design como aperfeiçoamento de processo,
mas qual aperfeiçoamento?
Mas para essa palestra, sejamos mais pragmáticos.
Nas línguas latinas a palavra "design"
não tem uma tradução exata. Em português
traduz-se o verbo como "projetar". Em inglês, significa
pensar e preparar um plano, feito e planejado para uma proposta
ou uso particular, assim como, estabelecer e submeter-se a um processo
de investigação e criação com um objetivo
identificado. Um processo de criação!
Assumindo que esse processo criativo seja investigativo,
tudo que começa de um pensamento abstrato, se desenvolve
através de um processo concreto e é finalizado através
de uma articulação tangível, foi projetado.
Desta forma, Design é uma atividade muito ampla e complexa
que envolve uma fase de pesquisa, pensamento estratégico
(o aperfeiçoamento do processo) e a capacidade de articular
e implementar.
Como o design se relaciona com a sociedade? O que tem o design
a ver com isso!
As estratégias dos designers, focadas em soluções,
são de grande valor por levantar as questões certas
e construir cenários para que as coisas apareçam.
Design não é apenas sobre a criação
de coisas, é um modo de pensar que pode ajudar a moldar o
futuro.
O design pode ajudar companhias a criar o que Stefano Marzano
descreveu como "descontinuidade contínua".
Design = Arte da Convergência
O design é uma disciplina que ajudar a unir as competências
entre as diferentes companhias. Design é, por sua natureza,
aberto ao mundo externo.
Sua linguagem é a linguagem do povo, pois
é ao povo que ele deve ser capaz de falar, em último
caso, através de formas, cores, texturas e usos.
Qual é a abordagem da Philips Design no
desenvolvimento e entendimento de como Design pode influenciar positivamente
e beneficiar a sociedade?
Philips Design é reconhecida internacionalmente
pela capacidade de articular e implementar, como evidenciam seus
muitos produtos de sucesso e premiados que são oferecidos
ao mercado.
Porém para ir de encontro às necessidades
de nossos acionistas, clientes e consumidores, devemos ir além
de produtos bonitos. Devemos estabelecer um diálogo contínuo
com a sociedade.
Devemos desenvolver um melhor entendimento da
sempre crescente complexidade e diversidade da nossa sociedade local
e global, e as necessidades e desejos dos indivíduos. Indivíduos
de comunidades industrializadas do planeta, assim como de comunidades
em desenvolvimento, onde em muitos casos as pessoas estão
lutando simplesmente para sobreviver no dia-a-dia.
Devemos investigar e desenvolver um modo estratégico
de assegurar que nossos esforços em beneficiar a sociedade,
e que nossas manifestações sejam responsáveis
e em harmonia com a inovação sustentável.
É portanto, através deste diálogo
contínuo com a sociedade que design pode identificar o papel
integrador que deve desempenhar; um diálogo que nos ajude
a identificar os novos valores que se desenvolvem dentro da sociedade,
e como ajudar a empresas como a Philips a dedicar-se a esses novos
valores.
Na Philips design este diálogo é
baseado em nossos três principais núcleos de competência
independentes, de nosso processo de criação estratégico,
baseado em pesquisa:
Competência sócio-cultural
Competência integrada inovadora
Articulação tangível de design
De particular interesse para mim, como um dos membros
da equipe de currículo, é nossa colaboração
iniciada recentemente com a Universidade Tecnológica de Eindhoven,
onde estamos com um papel ativo no auxílio do desenvolvimento
da nova faculdade de Engenharia de Design Industrial e seu programa
de pesquisa.
Um papel, do qual podemos desenvolver também
uma nova posição vantajosa, por nosso esforço
em identificar os desafios e novos valores da sociedade, e assegurar
um diálogo contínuo através da perspectiva
de indivíduos que estão embarcando numa nova viagem
de descoberta, ao estarem investigando o potencial de tecnologias
emergentes e pesquisa de questões sócio-culturais
que estão sendo enfrentadas a cada dia, e o serão
no futuro.
Para concluir, e com a intenção
de expandir esse diálogo contínuo que eu me sinto
privilegiado em ter participado desta conferência. Assim podemos
ajudar a abrir novos caminhos de exploração para dividir
as experiências humanas. E desta forma eu talvez possa ser
um veículo que possa estabelecer futuros diálogos.
Obrigado.
* Lacides Manuel Marquez (Nova York)
iniciou sua formação em Engenharia Mecânica,
formando-se em Desenho Industrial (Instituto Pratt-EUA). Trabalhou
na área de Design de Produtos em empresas como AT&T e
Gordon Perry Design, tendo sido recentemente diretor de criação
e coordenador de projetos da CTAI Design (Brasil). Participou de
workshops internacionais, tendo colaborado com artesãos indígenas
e designers na Colômbia. Atualmente é Consultor Senior
de Design na Philips Design em Eindhoven, onde é responsável
por design de produtos nas áreas de sistemas de segurança,
telecomunicação, assim como gerência de projeto
e desenvolvimento de estratégias e projetos de pesquisas.Diretor
de Unidade e membro da Equipe de Gerenciamento de Currículo
da Faculdade de Engenharia de Desenho Industrial da Universidade
Técnica de Eindhoven.
Debate com o público
Márcia pergunta a Dodora qual a relação
de Juazeiro com o resto da economia no Brasil:
Dodora: Juazeiro tem 258.000 habitantes e recebe
cerca de 2 milhões de romeiros por ano. Isso gera um movimento
da economia local, além da ida de pesquisadores e compradores
de arte e artesanato, o que vem desenvolvendo uma rede de comércio.
Essa cultura, porém, não é valorizada pelo
poder local em termos de desenvolvimento turístico. Comerciantes
de artesanato se aproveitam dos artesãos locais, revendendo
os produtos a preços muito maiores do que os pagos lá,
sem reverter esse lucro para os artesãos locais. A Economia
Solidária deveria se ocupar desses assuntos.
Márcia pergunta a Terra Design qual a relação
deles com o Economia Solidária:
Lars: a maioria dos nossos trabalhos são
feitos para o Sebrae, então não podemos de cuidar
do trabalho todo, até o mercado, mas o Sebrae tem mecanismo
de inserção dos artesãos no mercado. Os consumidores
dos grandes centros vêm criando demanda, o que viabiliza a
produção. Temos que trabalhar tanto no mercado, na
valorização, quanto na divulgação e
popularização dos produtos. É importante criar
produtos utilitários para manter o crescimento dos mercados.
Fábio Bellini, estudante de arquitetura,
para Lacides: o sr. disse que a Philips usa o usuário como
pesquisador. Fale um pouco mais sobre isso, a relação
usuário-consumidor.
Lacides: - o projeto se dedica a uma pesquisa,
e não tanto a realizar produtos, e a investigar e iniciar
um diálogo novo, fazendo parcerias com diversos grupos, envolvendo
usuários na pesquisa.
Fábio pergunta aTerra Design se existe
o risco de descaracterização da cultura dos artesão,
de se tornarem excessivamente mercantilistas, por exemplo:
Fabíola: nós tratamos com os artesãos
os valores culturais, estéticos e artístico, e não
o valor comercial. Nosso trabalho visa explorar e desenvolver esse
potencial, dando diretrizes. Às vezes ajudamos na formatação
dos preços, mas o que procuramos fazer é valorizar
o processo de trabalho.
Regina (OAF): trabalha com cooperativas de catadores em São
Paulo. Segundo ela, os catadores vêm perdendo seu trabalho
devido à "invasão" de outras pessoas e entidades
que passaram a fazer essa atividade. Ela discorda da reciclagem
"espontânea", defendendo uma "reserva de mercado"
por parte dessas pessoas.
Mauro Claro pergunta a Terra Design sobre a qualidade
do trabalho dos artesãos (gestão do design).
Fabíola: o artesanato é pouco valorizado,
então dificilmente isso passa de pai para filho, a não
ser que não tenham outra opção. Deve ser criada
uma consciência por parte dos consumidores. Lars: esse processo
acontece também em outros países. Tem-se que buscar
mercados para o artesanato, e não tornar isso peças
de museu.
Marli Brandão para os Campana: hoje, depois
de passarem por dificuldades de execução de seus produtos,
porém com tantos projetos colocados, existem empresas interessadas
em executar suas peças, investindo nos moldes, e se vocês
manteriam a mesma atitude de projeto?
Philippe Starck disse que sentia falta das dificuldades
do início. Vocês chegaram a sentir essa saudade?
Fernando: - Não, não sentimos saudades.
A dificuldade é presente. O nosso caminho não é
fácil. Não nos contentamos com a fórmula fácil.
Imprimimos nossa linguagem nos nossos produtos. Acabamos criando
um estigma em relação a nosso trabalho, que é
feito com muita reflexão. O sucesso é bom mas devemos
sempre ir atrás, sem sucumbir.
Juliana Cooperman, estudante de arquitetura: há
espaço no mundo para o design brasileiro. Há espaço
no Brasil para esse design? Há interesse da indústria
em fabricar em larga escala? Fernando Campana: Sim, o Brasil está
investindo nessa área. Lançamos uma linha de móveis
com OSB, um tipo de pinus prensado, que tem um custo mais baixo.
Tem nichos de mercado para todos os setores.
Mariana Dupas, de Notech Design, pergunta sobre
a estrutura do Droog Design:
Ida: DD são duas pessoas que convidam designers
para fazerem parte dos projetos que estão sendo desenvolvidos
naquele momento. Não tem a estrutura de um grupo. Financeiramente
é difícil, e às vezes se ganha dinheiro e em
outras se perde. Alguns projetos são subsidiados pelo governo
holandês.
Fábio Ferreiro, professor de Desenho Industrial
da FAAP, para Paul Meurs e Terra Design: como é feito o registro
graficamente (sem ser iconograficamente) os produtos, e como é
feita a documentação.
Paul: - chegamos com protótipos,e tudo foi
documentado com textos, filmes e desenhos. Também foi gravado
um documentário com os holandeses e com os brasileiros, e
foi publicado um livro na Holanda. Fabíola: - no começo
fazíamos uma ficha técnica dos produtos, com todos
os dados. Como a maioria das pessoas não sabe ler, tentamos
convencê-los a não vender seus mostruários,
pois essa é a forma de documentação para a
comunidade. Desenho nesse caso não tem serventia.
Fernando – pergunta aos holandeses sobre
o humor no design holandês. Se esse humor é do prazer
em trabalhar com design e se isso é consumido pelo público.
Liesbeth: - deveríamos relativizar um pouco, pois temos muitos
bons designers na Holanda hoje em dia. Na maioria das vezes esse
tipo de produto não é feito em larga escala, são
produtos pessoais, como para DD, por exemplo.
Eduardo - aluno da FAUUSP, questiona a posição
de Regina (OAF), pois ninguém é catador porque quer,
e pergunta se os projetos de reciclagem devem ser abandonados. Regina:
não se deve abandonar esses projetos, mas ser mantidos nas
mãos dos catadores "profissionais".
Ana Lúcia, decoradora, pergunta para Paul
e Fabíola qual foram os valores agregados a vocês como
indivíduos a partir das experiências com as comunidades?
Paul: para mim é difícil de separar, porque trabalho
com diversos projetos no Brasil, mas o contato com as pessoas foi
a parte mais rica do projeto.
Fabíola: a pobreza econômica não
tem nada a ver com a pobreza de espírito. Essas pessoas,
apesar de não ter nada, têm uma alegria de viver, são
muito hospitaleiros têm uma felicidade intrínseca.
A mediadora faz a fala final, ressaltando que
se encerra o seminário com o tema do design e emoção,
uma temática presente exigindo de nós um questionamento
e um repensar das nossas atitudes. Destaca a participação
das mulheres nesse processo, em todas as comunidades. Agradece a
presença de todos em nome da organização do
seminário, e pede que cada um faça um último
comentário.
Todos os participantes agradecem a participação
no evento, e é feito um agradecimento por parte da mediadora
ao organizador geral do seminário, Anton van Dort.
Conclusão
A realização do seminário
'Design e Sociedade – novas práticas, materiais e modelos',
pelo Consulado Geral dos Países Baixos em São Paulo,
possibilitou que se reunissem, num mesmo espaço, diversos
profissionais da área de design, com experiências bastante
variadas.
Estiveram presentes, e dividiram suas idéias
e experiências com o interessado público, dez profissionais,
sendo seis do Brasil e quatro da Holanda, além da mediadora,
a Professora Dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos, da
Universidade de São Paulo.
Da área acadêmica esteve presente
Liesbeth in 't Hout, da Design Academy Eindhoven. Explicou o funcionamento
e estrutura desta escola e trouxe as experiências do departamento
Man and Humanity, através do Projeto Design Solidário,
no Brasil e Quênia.
Paul Meurs narrou as experiências, também
do Projeto Design Solidário, em Serrita, sertão de
Pernambuco, e na comunidade Monte Azul, na periferia de São
Paulo. O enriquecimento mútuo, tanto dos estudantes, quanto
dos artesãos e das comunidades envolvidas foi a tônica
dessas palestras.
A jornalista Adélia Borges, que iniciou
as palestras, discorreu sobre a reinvenção da matéria,
relatando diversas experiências e iniciativas que atualmente
se realizam do cenário do design.
Os irmãos Fernando e Humberto Campana apontaram os caminhos
que os levaram a alcançar fama e reconhecimento internacional,
ao apresentarem uma via brasileira, autêntica, de utilização
de materiais alternativos para a criação de novos
produtos, porém com uma linguagem universal e com grande
qualidade criativa.
Ida van Zijl, representando Droog Design, da Holanda,
mostrou um processo produtivo que tem como base um tipo de mentalidade
que lida com conceitos e princípios, independentemente dos
materiais e suportes a serem empregados.
A palestra de Lars Diederichsen e Fabíola
Bergamo levantou questões sobre como a interação
de designers (erudito) com artesãos (popular) pode contribuir
de forma satisfatória para ambos os lados quando há
realmente a intenção de cooperação e
a superação de mitos e preconceitos. Trocar conhecimentos
com e indicar caminhos alternativos a essas pessoas, mantendo sua
autenticidade, ajuda a incluí-los na cidadania através
de sua arte e ofício.
Dodora Guimarães nos trouxe um pouco do
universo do Nordeste brasileiro, tão bem representado pelo
povo de Juazeiro do Norte, que com sua fé e modo de ver o
mundo e a realidade, vive em constante re(i)novação.
O entusiasmo de Dodora sobre o tema abordado certamente contagiou
o público e despertou o interesse por esse aspecto da cultura
popular brasileira.
Por fim, o representante da indústria,
Lacides Marquez, explanou sobre o processo de criação
de produtos da Philips, empresa holandesa que é uma das líderes
na produção de objetos de consumo no dia-a-dia de
grande parte da população. Mostrou a importância
do consumidor nesse processo, e o objetivo de levar ao usuário
final o melhor da tecnologia e do progresso científico.
As intervenções finais do público
mostraram o interesse que essas áreas despertem hoje em dia,
tanto por parte dos estudantes, quanto por professores profissionais,
artistas, artesãos e consumidores de design, no mais amplo
significado do termo.
Certamente esse seminário levantou questões
e promoveu um debate que não se esgotam neste evento, mas
que terão desdobramentos posteriores para todos aqueles que
se envolvem com um tema tão abrangente como é "Design
e Sociedade".
Como bem frisou a mediadora Maria Cecília,
a sociedade brasileira clama pela inclusão de todos seus
cidadãos aos benefícios disponíveis (e hoje
tão concentrados por uma minoria) e o exercício da
plena cidadania.
Essa inclusão será possível
quando atores e agentes sociais se derem conta das grandes potencialidades
existentes (e por vezes escondidas) do povo brasileiro, com toda
sua genialidade, inventividade, criatividade, mas sobretudo, sua
dignidade.
Este relatório, feito a partir da transcrição
das palestras e discussões do Seminário "Design
e Sociedade", foi elaborado por Mauricio Ferrari Masson*.
Tem como finalidade ser encaminhado a autoridades, patrocinadores
e organizadores, e servir como documento para eventuais consultas.