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Ambientes Virtuais de Aprendizagem: combinando iniciativas presenciais e a distância

Paulo Lemos (*)

Na palestra "Educando em Ambientais Virtuais: Gerenciamento Inovador de Cursos Presenciais e a Distância", feita no Centro de Computação da Unicamp em 31 de maio, o professor  José Manuel Moran, da Universidade Mackenzie e da PUC-SP,  apresentou os resultados de vários cursos de graduação e pós-graduação que utilizam programas de gerenciamento como o WebCT e pesquisam formas inovadoras de ensinar e aprender nos cursos presenciais e também a distância. 

Segundo ele, o papel do professor como gerenciador de aprendizagem em listas de discussão, fóruns e chats é fundamental, representando uma mudança em relação às atribuições que o professor estava acostumado a desempenhar em sala de aula. Com a chegada da banda larga, novas questões se colocam diante da possibilidade  de aluno e professor atingirem um maior grau de interatividade do que aquele que as ferramentas com poucos recursos audiovisuais podem proporcionar.

Se pensarmos o mundo escolar como um universo de organizações (de "coletividades organizacionais" como as instituições de ensino e até a própria sala de aula vista como uma forma de organização), é possível interpretar que as mudanças tecnológicas e as mudanças sociais e culturais que antes se restringiam ao mundo organizacional das empresas e outros tipos de organizações, também passaram a atuar no mundo escolar. É a complexificação do uso inicial do computador na escola que se transforma na questão dos processos de aprendizagem mediados por tecnologias de informação e comunicação (TICs).

É evidente que a natureza de cada tipo de organização é diferente, cada organização apresenta sua própria complexidade específica, sua própria cultura organizacional. Mas as questões, problemas, reações e expectativas que a implementação de novas TICs em ambientes organizacionais fazem surgir têm características análogas sejam quais forem as organizações que se considera. São mudanças tecnológicas capitaneadas pelo uso de software e hardware que se relacionam aos processos de mudanças (e de geração de resistências) das práticas pedagógicas e, principalmente, da metodologia de aprendizagem.

Nesse contexto, é possível imaginar a realização de cursos e experiências de aprendizagem "integralmente" a distância? É possível pensar, no mundo contemporâneo, em processos de aprendizagem em que a mediação por tecnologias de informação e comunicação não seja imprescindível?

Uma das principais lições da palestra/aula do prof. Moran é que os processos de aprendizagem podem se tornar mais ricos e mais proveitosos em termos do principal objetivo a que se propõem, que é a produção e o compartilhamento do conhecimento, se conseguirem combinar atividades presenciais e a distância.

Mais uma vez verifica-se que as interpretações e expectativas radicalmente opostas sobre o impacto social e cultural das tecnologias de informação e comunicação são pouco férteis dos pontos de vista reflexivo e "prático".

Esperar que cursos a distância alcancem resultados satisfatórios sem a utilização de processos de interação social "ao vivo e em cores" (ou como diria o Prof. Phil Agre, da Universidade da Califórnia, situações onde a "interface é a face" ("the interface is a face")), ou ignorar a potencialidade das tecnologias de informação e comunicação em processos de aprendizagem, são situações extremadas que isolam, de um lado e de outro, os defensores de cada um dessas posições sem chance às possibilidades de diálogo entre as duas perspectivas.

Mais uma vez, a virtude parece estar no meio. Ou ainda, a discussão e as atividades de aprendizagem podem ser mais produtivas se escaparem dessa dicotomia e forem direcionadas à reflexão sobre a relação entre mudança cultural/mudança social e mudança tecnológica em ambientes de aprendizagem, evitando a consideração das situações extremas (ambas "absurdas" se consideradas isoladamente) do "totalmente virtual/a distância" ou do "totalmente não-mediado".

Como disse o prof. Moran, a riqueza que os ambientes universitários podem proporcionar em termos de processos de interação social é difícil (impossível?) de ser reproduzida em ambientes virtuais. Sobretudo na maioria dos ambientes onde predominam formas de interação "fria" que ainda não foram ultrapassadas (o que poderá ser atingido com o desenvolvimento e o crescimento do uso de tecnologias mais poderosas em termos de recursos interativos áudio-visuais). A sala de aula ou o processo "formal" de aprendizagem pode ser até, por vezes, "chato" e "entediante", mas o ambiente potencial de convívio e de troca de experiências pessoais e coletivas, do conhecimento tácito, pode se apresentar como uma realidade difícil de ser recriada. Nas palavras do prof. Moran, "O grande problema do campus virtual é recriar a riqueza dos bons campi presenciais".

Maiores possibilidades de interatividade podem significar maiores custos (inclusive financeiros) de desenvolvimento dos cursos a distancia, o que aponta para o fato de que a qualidade dos cursos está diretamente relacionada ao grau de interatividade que eles podem proporcionar aos participantes. E em relação a esses aspectos, o prof. Moran também aponta uma perspectiva que seja mais equilibrada. Em geral, as metodologias dos cursos de ensino a distância ou estão focadas na informação ou estão concentradas privilegiadamente na questão da interação. As metodologias devem tratar em conjunto e de forma equilibrada interação e informação.

Há "novos" (ou seria melhor, "renovados"?) papéis para o educador que se utiliza das tecnologias de informação e comunicação, como por exemplo, informar e orientar a pesquisa, gerenciar pessoas, grupos e tecnologias, facilitar a comunicação com e entre todos, e incentivar a produção, a visualização e a divulgação do conhecimento realizado pelos alunos.

É possível portanto, pensar que com o uso de TICs, as capacidades (ou incapacidades) de comunicação por parte de quem tem que criar, transmitir e compartilhar conhecimento afloram com mais intensidade, vigor e visibilidade do que quando não se usa a tecnologia? É possível pensar que com o uso das TICs expressa-se de forma mais eloqüente (ou pelo menos, de forma potencialmente mais visível) o fato de que a criação e o compartilhamento do conhecimento são processos, ao mesmo tempo, informacionais e comunicacionais? Que o processso de comunicação deve ser entendido, principalmente, como uma "abertura à prática do diálogo" (a refinada arte de saber ouvir e saber falar) por parte dos que convivem nos processos de aprendizagem?

Educar e aprender talvez seja mais bem do que transmitir e receber informação: é comunicar informação e conhecimento. E o papel do educador como comunicador parece estar mais evidenciado quando se utilizam TICs, evidentemente, correndo-se o risco de caminhos perversos como a confusão da figura do educador com a caricata imagem de mero "animador" do processo de aprendizagem. Criar e gerir o que se cria é um grande desafio quando se utilizam os recursos das TICs (como por exemplo, pode ilustrar o simples ato de um professor que cria uma "lista de discussão" e na qualidade de moderador não é capaz de mantê-la "acesa" e viva).

Não se pode, evidentemente, desprezar os riscos que ocorrem quando por exemplo, a mercantilização dos processos de aprendizagem redunda em distorções como as que consideram a aprendizagem como mais uma mercadoria ("a visão do cliente/consumidor" e do "produtor" que se encontram num grande mercado para a troca de bens e serviços educacionais). O "cliente" da educação muita vezes acha que pode considerar o processo de aprendizagem como um bem/produto que deve ser tão bem "acabado" e "empacotado" quanto outros produtos que consome, motivado pela justificativa de que está pagando pelo bem ou serviço mas se abstraindo da idéia de que a aprendizagem e o conhecimento resultam de uma construção coletiva. É quando se dá possibilidade de gerar a "inteligência coletiva" descrita por Pierre Lévy e marcada por processos colaborativos e participativos, ao mesmo tempo cooperativos e competitivos.

A questão principal não reside portanto, no uso das melhores "ferramentas" (que existem em profusão) mas no gerenciamento de acordo com o aspecto principal que pode embasar os processos de gestão: metodologia e conhecimento.

Metodologia e conhecimento são atributos que podem revalorizar o papel da universidade pública como a principal fonte de excelência na produção de conhecimento no Brasil, e por isso, destacar seu papel como potencial agente de liderança do processo de desenvolvimento da educação e da aprendizagem mediada por TICs.


Quem é Moran

Professor de novas tecnologias nos Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade Mackenzie e da PUC-SP, José Manuel Moran é assessor do Ministério de Educação para avaliação de cursos superiores de educação a distância e coordenador de programas de educação a distância. Páginas na web: www.mackenzie.br/moran e www.eca.usp.br/prof/moran.


(*) Paulo Lemos é economista e mestre em antropologia social pela Unicamp. É pesquisador e coordenador de projetos e pesquisas da Cidade do Conhecimento.

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