A Universidade, como instituição, surge no mundo ocidental sob o pretexto de servir como um local de criação de conhecimento de modo sistematizado e coerente com o projeto científico da nossa civilização.
A geração do conhecimento, antes privilégio de poucos eleitos cuja disposição diletante ou dedicação monástica permitia seu exercício, passou por um processo longo de institucionalização e profissionalização de seus processos, até atingir graus nunca imaginados de especialização nas mais variadas áreas e temas, tornando esse conhecimento específico cada vez mais isolado em seus núcleos de pesquisa.
O desafio de organizar esses saberes e devolve-los à sociedade é a missão descrita como atividade fim de extensão universitária que consta, nos mais variados graus e formas em estatutos de Universidades, das quais a USP não se exclui.
A própria sociedade não deixa de criar mecanismos de criação e compartilhamento de conhecimento e é com essas ferramentas que nos dispomos a trabalhar para restaurar esse laço entre o lócus de geração e as comunidades destinatárias desse conhecimento.
Se a Sociedade é o espaço do contrato, da informalidade e das instituições formais, a Comunidade é por excelência a forma de organização que privilegia o consenso e o diálogo.
Ao reatar os laços da universidade com comunidades de interesse, esse projeto busca resgatar da maneira entendida como a mais eficiente e eficaz, a troca de valores e o intercâmbio de conhecimento entre os especialistas na clausura da academia e os produtores e consumidores de bens simbólicos gerados pelo homem nas mais diversas situações.
Entender arranjos comunitários como riquíssimas fontes de conteúdos culturais, sujeitas a todo tipo de influências e proprietários de sofisticadas ferramentas de incorporação de elementos novos às suas formas de expressão, permite que se estabeleça de fato uma relação de diálogo.
Nós acreditamos que, ao restabelecer esse laço com comunidades que por circunstâncias históricas, políticas ou sociais perderam os vínculos com o que se pratica na academia, é possível contribuir para a extensão dos serviços da Universidade.
Como parte integrante do conhecimento humano, a tecnologia é matéria de estudo na universidade, embora seu domínio não implique em estabelecer práticas de sua utilização de modo a contribuir para a emancipação de modos antiquados de aglutinação e integração de cadeias de produção nas mais variadas localidades e contextos. Projetos encampados
No projeto da Rede Pipa Sabe, por exemplo, membros de uma comunidade remota de pescadores e de jovens em um contexto urbano, subordinados à crueldade da indústria predatória do turismo, foram capacitados a apropriar-se de tecnologias antes inacessíveis, tornando-se produtores de conteúdos culturalmente ricos, baseados em conhecimentos locais, de forma economicamente viável.
Entre as ações práticas, foi resgatado e documentado o coco de zambê, batuque peculiar praticado em contextos festivos e rituais pela comunidade, e transformado em ringtone1, para sua exploração, assim como outras formas de expressão tem se transformado em conteúdos passíveis de integração à cadeia de trocas econômicas, transformando, em última instância, pescadores em produtores de conteúdos para mídias nascentes.
Outro projeto abraçado pelo Cidade Móvel é o Navegar Amazônia. O Navegar é um Ponto de Cultura flutuante, que percorre comunidades ribeirinhas amazônicas realizando pesquisas e documentação de manifestações culturais locais, e realizando oficinas de capacitação para uso de tecnologia. Uma parte do material coletado nessas expedições pode ser acessada no catálogo do projeto hospedado no sítio do projeto Cidade Móvel.