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Cidade do Conhecimento, novembro de 2002 - Ano 1 - No 4
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entrevista


Incentivar os alunos a cultivar o hábito da leitura em uma época marcada pelo advento da Internet é um desafio para os professores. Em entrevista ao Educar em Tempo, Jorge de Almeida, professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP e coordenador do módulo 2 -  “Literatura na Sociedade da Informação”, discute esta e outras questões sobre literatura contemporânea.

Educar - A Internet afasta as crianças e jovens dos livros ou, ao contrário, promove a leitura?

Jorge - Acho que a Internet deve ser julgada tanto por suas características enquanto meio de comunicação quanto pelo conteúdo que eventualmente pode transmitir. Atualmente, ela se apresenta às crianças e aos jovens, em primeiro lugar, como uma poderosa ferramenta de entretenimento, que sem dúvida consome um tempo que poderia ser dedicado a outras atividades importantes para a formação, entre as quais a leitura. Por outro lado, o uso da Internet exige, em alguma medida, a prática da leitura e da escrita, tanto nas conversas virtuais quanto nos “passeios” pela rede. A questão é complexa: o tipo de leitura exigido pela Internet pode servir de incentivo à leitura de livros? Isso depende muito do modo como o jovem se apropria do meio, na medida das possibilidades que este proporciona. Há, de fato, inúmeros sítios criativos e interessantes, muitos deles capazes de despertar na criança o interesse e o prazer da leitura, na medida em que incentivam uma atitude ativa e  crítica diante dos conteúdos transmitidos. Mas há também uma enorme quantidade de lixo em sítios voltados unicamente para a promoção do consumo deste ou daquele “produto cultural”, sítios onde a suposta “interatividade” da rede é engessada em escolhas previamente estipuladas, sem nenhuma intenção educativa ou emancipatória. Como a Internet, ainda que supostamente “virtual”, tem raízes profundas na realidade econômica e social em que vivemos (e os números da indústria da informação estão aí para provar este ponto), a questão é saber se ela ainda permanecerá “pública”, instrumento de formação e integração, ou sucumbirá ao ímpeto colonizador dos departamentos de “marketing” das grandes corporações da indústria cultural. A importância da Internet para a formação de bons leitores passa certamente por essa questão crucial.

Educar - Em que medida a velocidade com que as informações são transmitidas no mundo atual influenciou a literatura, por exemplo, na temática ou no estilo dos escritores contemporâneos?

Jorge - A literatura incorpora e reflete criticamente as questões fundamentais de sua época, mesmo quando não trata explicitamente de determinado tema. Vários grandes autores do século passado, como Kafka e Joyce, pretendiam justamente romper com a forma tradicional do “relato”, que até então havia dominado a narrativa. Nesse sentido, podemos dizer que a grande literatura tem resistido à idéia de ser lida como mera “informação” sobre acontecimentos ou estados de espírito. Ela é, na verdade, formação, no sentido amplo do termo. Por isso, reage criticamente a um mundo onde a velocidade e o acúmulo das informações passam ao primeiro plano. Os escritores contemporâneos, e mesmo os modernos, tiveram de enfrentar esse problema, em suas mais variadas formas. A questão fundamental é justamente o esvaziamento da noção de “experiência”, que não resiste à velocidade imposta pela nova noção de tempo, inerente à sociedade da informação. Italo Calvino, por exemplo, incorpora esse estilhaçamento do tempo como tema e forma de várias de suas narrativas. Na poesia, o ritmo fragmentado da vida contemporânea também deixa sua marca na forma, corroendo as estruturas tradicionais e abrindo novas possibilidades expressivas, mesmo quando não há mais nada o que exprimir.

Educar - Usando o email, crianças e jovens enviam cartas. Os blogs (espécie de diários virtuais) fazem crianças e jovens escreverem crônicas. Como essas inovações podem ser aproveitadas em sala de aula?

Jorge - A experiência do diário pessoal sempre foi considerada importante para a formação, não apenas como exercício de escrita, mas como momento de reflexão em meio a uma vida cada vez mais agitada. Os blogs cumprem em parte essa função, embora seu caráter público acabe muitas vezes por transformar o que seria um momento de instrospecção em uma mera apresentação de dados e “vivências”, narcisisticamente publicadas na rede.

Como outras inovações, os blogs também podem, e devem, ser discutidos e aproveitados em sala de aula, mas de modo crítico e criativo. No módulo 2 do Curso Educar, que coordeno, há alguns projetos muito interessantes nesse sentido, desenvolvidos por professores do ensino médio de escolas públicas e particulares. Um desses projetos, por exemplo, tem como objetivo utilizar os fóruns e chats da Internet para a discussão de textos literários lidos em sala. Outro propõe a criação de “classes gêmeas”, localizadas em diferentes estados ou países, como forma de integração lingüística e cultural através de mensagens eletrônicas e atividades comuns na rede.

Educar - Apesar de todas as crianças serem obrigadas a ler livros na escola, poucas incorporam o hábito da leitura. O que o professor pode fazer para reverter esta situação?

Jorge - Este é o nosso grande desafio. Não apenas o hábito, mas a qualidade da leitura está em jogo. O primeiro passo é certamente convencer o professor a incentivar a leitura atenta de bons textos literários. Isso parece óbvio, mas não é. A literatura perdeu seu caráter evidente, até mesmo em sua versão “edificante”. Basta ver os currículos dos cursos de língua e literatura no ensino médio: há cada vez menos espaço para a discussão de textos literários. O módulo “A literatura na sociedade da informação” pretende discutir esses problemas, apresentando sugestões e discutindo projetos de incentivo à leitura. O fundamental é mostrar ao aluno a importância e riqueza da literatura como forma de expressão e conhecimento do mundo e de si mesmo.

Educar - Tolstoi disse que, para ser global, era preciso cultivar sua aldeia. A idéia mantém-se válida para a literatura da era da informação?

Jorge - A frase de Tolstoi se referia ao possível, e necessário, caráter universal de um relato específico, e não à idéia de aldeia global, tal como esta foi definida posteriormente por Macluhan. Diante da chamada “globalização”, o problema adquire um novo significado. Tomemos como exemplo a obra de Paulo Lins,  “Cidade de Deus”. Ao narrar as aventuras e desventuras dos moradores de um bairro na periferia do Rio de Janeiro, o autor desvenda as conseqüências locais de mecanismos econômicos e de poder que atuam mundialmente, em larga escala. Falar do seu quintal, hoje, e permanecer digno de ser lido, é uma tarefa justamente da literatura que enfrenta, em algum objeto específico, a própria possibilidade de sobrevivência em um mundo onde mercadoria e informação cada vez mais se confundem.



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