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entrevista
Incentivar
os alunos a cultivar o hábito da leitura em uma época marcada pelo advento da
Internet é um desafio para os professores. Em entrevista ao Educar em Tempo,
Jorge de Almeida, professor do Departamento de Teoria Literária e
Literatura Comparada da USP e coordenador
do módulo 2 - “Literatura na Sociedade da Informação”, discute esta
e outras questões sobre literatura contemporânea.
Educar
- A Internet afasta as crianças e jovens dos livros ou, ao contrário, promove
a leitura?
Jorge
- Acho que a Internet deve ser julgada tanto por suas
características enquanto meio de comunicação quanto pelo conteúdo que
eventualmente pode transmitir. Atualmente, ela se apresenta às crianças e aos
jovens, em primeiro lugar, como uma poderosa ferramenta de entretenimento, que
sem dúvida consome um tempo que poderia ser dedicado a outras atividades
importantes para a formação, entre as quais a leitura. Por outro lado, o uso
da Internet exige, em alguma medida, a prática da leitura e da escrita, tanto
nas conversas virtuais quanto nos “passeios” pela rede. A questão é
complexa: o tipo de leitura exigido pela Internet pode servir de incentivo à
leitura de livros? Isso depende muito do modo como o jovem se apropria do meio,
na medida das possibilidades que este proporciona. Há, de fato, inúmeros sítios
criativos e interessantes, muitos deles capazes de despertar na criança o
interesse e o prazer da leitura, na medida em que incentivam uma atitude ativa e
crítica diante dos conteúdos transmitidos. Mas há também uma enorme
quantidade de lixo em sítios voltados unicamente para a promoção do consumo
deste ou daquele “produto cultural”, sítios onde a suposta
“interatividade” da rede é engessada em escolhas previamente estipuladas,
sem nenhuma intenção educativa ou emancipatória. Como a Internet, ainda que
supostamente “virtual”, tem raízes profundas na realidade econômica e
social em que vivemos (e os números da indústria da informação estão aí
para provar este ponto), a questão é saber se ela ainda permanecerá “pública”,
instrumento de formação e integração, ou sucumbirá ao ímpeto colonizador
dos departamentos de “marketing” das grandes corporações da indústria
cultural. A importância da Internet para a formação de bons leitores passa
certamente por essa questão crucial.
Educar
- Em que medida a velocidade com que as informações são transmitidas no mundo
atual influenciou a literatura, por exemplo, na temática ou no estilo dos
escritores contemporâneos?
Jorge
- A literatura incorpora e reflete criticamente as questões fundamentais
de sua época, mesmo quando não trata explicitamente de determinado tema. Vários
grandes autores do século passado, como Kafka e Joyce, pretendiam justamente
romper com a forma tradicional do “relato”, que até então havia dominado a
narrativa. Nesse sentido, podemos dizer que a grande literatura tem resistido à
idéia de ser lida como mera “informação” sobre acontecimentos ou estados
de espírito. Ela é, na verdade, formação, no sentido amplo do termo. Por
isso, reage criticamente a um mundo onde a velocidade e o acúmulo das informações
passam ao primeiro plano. Os escritores contemporâneos, e mesmo os modernos,
tiveram de enfrentar esse problema, em suas mais variadas formas. A questão
fundamental é justamente o esvaziamento da noção de “experiência”, que não
resiste à velocidade imposta pela nova noção de tempo, inerente à sociedade
da informação. Italo Calvino, por exemplo, incorpora esse estilhaçamento do
tempo como tema e forma de várias de suas narrativas. Na poesia, o ritmo
fragmentado da vida contemporânea também deixa sua marca na forma, corroendo
as estruturas tradicionais e abrindo novas possibilidades expressivas, mesmo
quando não há mais nada o que exprimir.
Educar
- Usando o email, crianças e jovens enviam cartas. Os blogs (espécie de diários
virtuais) fazem crianças e jovens escreverem crônicas. Como essas inovações
podem ser aproveitadas em sala de aula?
Jorge
- A experiência do diário pessoal sempre foi considerada importante
para a formação, não apenas como exercício de escrita, mas como momento de
reflexão em meio a uma vida cada vez mais agitada. Os blogs cumprem em parte
essa função, embora seu caráter público acabe muitas vezes por transformar o
que seria um momento de instrospecção em uma mera apresentação de dados e
“vivências”, narcisisticamente publicadas na rede.
Como
outras inovações, os blogs também podem, e devem, ser discutidos e
aproveitados em sala de aula, mas de modo crítico e criativo. No módulo 2 do
Curso Educar, que coordeno, há alguns projetos muito interessantes nesse
sentido, desenvolvidos por professores do ensino médio de escolas públicas e
particulares. Um desses projetos, por exemplo, tem como objetivo utilizar os fóruns
e chats da Internet para a discussão de textos literários lidos em sala. Outro
propõe a criação de “classes gêmeas”, localizadas em diferentes estados
ou países, como forma de integração lingüística e cultural através de
mensagens eletrônicas e atividades comuns na rede.
Educar
- Apesar de todas as crianças serem obrigadas a ler livros na escola, poucas
incorporam o hábito da leitura. O que o professor pode fazer para reverter esta
situação?
Jorge
- Este é o nosso grande desafio. Não apenas o hábito, mas a qualidade
da leitura está em jogo. O primeiro passo é certamente convencer o professor a
incentivar a leitura atenta de bons textos literários. Isso parece óbvio, mas
não é. A literatura perdeu seu caráter evidente, até mesmo em sua versão
“edificante”. Basta ver os currículos dos cursos de língua e literatura no
ensino médio: há cada vez menos espaço para a discussão de textos literários.
O módulo “A literatura na sociedade da informação” pretende discutir
esses problemas, apresentando sugestões e discutindo projetos de incentivo à
leitura. O fundamental é mostrar ao aluno a importância e riqueza da
literatura como forma de expressão e conhecimento do mundo e de si mesmo.
Educar
- Tolstoi disse que, para ser global, era preciso cultivar sua aldeia. A idéia
mantém-se válida para a literatura da era da informação?
Jorge
- A frase de Tolstoi se referia ao possível, e necessário,
caráter universal de um relato específico, e não à idéia de aldeia global,
tal como esta foi definida posteriormente por Macluhan. Diante da chamada
“globalização”, o problema adquire um novo significado. Tomemos como
exemplo a obra de Paulo Lins, “Cidade
de Deus”. Ao narrar as aventuras e desventuras dos moradores de um bairro na
periferia do Rio de Janeiro, o autor desvenda as conseqüências locais de
mecanismos econômicos e de poder que atuam mundialmente, em larga escala. Falar
do seu quintal, hoje, e permanecer digno de ser lido, é uma tarefa justamente
da literatura que enfrenta, em algum objeto específico, a própria
possibilidade de sobrevivência em um mundo onde mercadoria e informação cada
vez mais se confundem.
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