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Difícil
poder descrever, com justiça, o entusiasmo da equipe responsável
pelo curso, tanto daquelas mulheres que há anos dedicam seus
esforços acadêmicos e sua prática de vida a
essa questão, quanto das que, pela primeira vez, refletiam
sobre a sua prática profissional sob essa nova luz! Entusiasmo
e comprometimento que se revelaram no cuidado com que cada professor/professora
preparou sua aula para o curso, na delicadeza com que nos trataram
– a nós, professores-alunos -, e no respeito e na atenção
com que fomos ouvidos quando, nas discussões e apartes, relatávamos
nosso cotidiano em sala-de-aula. O fato é que tudo isso nos
“contaminou”, fazendo com que mergulhássemos
inteiramente, ao longo do ano, na temática do curso, nas
aulas, nas leituras, nas discussões, nas oficinas, nos trabalhos
de campo e no compartilhamento das nossas descobertas através
da “Comunidade Virtual” do módulo. (http://www.cidade.usp.br/educar/modulo8/
)
Para
a avaliação do curso, propôs-se a produção
de um livro on-line, destinado às alunas e alunos do Ensino
Médio, onde cada capítulo, elaborado por um grupo
de professores-alunos, corresponderia ao tema de uma das aulas teóricas
oferecida no módulo (e aqui, a possibilidade. Cada grupo
trabalharia seu texto através das ferramentas oferecidas
pelo “Educar”: fórum, chat e
wiki. Uma proposta que contemplava todas as minhas expectativas
nestes dois anos: a de um novo “fazer pedagógico”
com o professor como co-construtor do conhecimento, que pudesse
unir as duas áreas com as quais trabalho no Ensino Médio
(História e Orientação Sexual), dentro de uma
temática que encaminhasse à reflexão sobre
as diferenças (no caso, às relacionadas às
questões de gênero, corpo e sexualidade em diferentes
tempos e espaços).
Inseri-me
no grupo que trabalharia o tema “Ciência, Poder, Saber,
Prazer”, com base na aula ministrada pela Dra. Lilian Krakowski
Chazan, médica, psicanalista, mestre e doutoranda em Saúde
Coletiva pela IMS/UERJ, que ofereceu uma visão histórica
sobre o papel da Ciência e sua intersecção com
a questão do Poder, a partir das obras do filósofo
Michel Foucault. (http://www.cidade.usp.br/educar/modulo8/0007)
Embora
este grupo não tenha conseguido construir coletivamente o
seu texto, o trabalho que produzi individualmente, alimentou-se
das “conversas” (via e-mail e via chat) com as colegas
Maria Luisa Cenamo Cavalheiro e Marilda José Cremasco.
Para
este trabalho, foi fundamental a leitura da obra de Thomaz Laqueur:
“Inventando o Sexo. Corpo e gênero dos gregos a Freud”
(publicada pela Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, em
2001), que nos demonstrou que a visão do corpo em uma determinada
sociedade e época é sempre o resultado de uma interpretação
social. Assim, texto e atividade para os alunos do Ensino Médio
deveriam encaminhar para a reflexão sobre como o mundo social
constrói o corpo como uma realidade sexuada. A “transformação
da história em natureza” ou “do arbitrário
cultural em natural”, faz com que a diferença biológica
entre os sexos possa ser vista como justificativa natural da diferença
entre os gêneros - que é, na verdade, socialmente construída.
Como
diz Michel Foucault: “Pensamos que o corpo tem apenas as leis
de sua fisiologia, e que ele escapa à história. Novo
erro; ele é formado por uma série de regimes que o
constroem; ele é destroçado por ritmos de trabalho,
repouso e festa; ele é intoxicado por venenos - alimentos
ou valores, hábitos alimentares e leis morais, simultaneamente;
ele cria resistências”. O corpo pode ser modificado,
aperfeiçoado, e suas necessidades, produzidas e organizadas
de diferentes maneiras. Ele é maleável, flexível,
formado por diversos hábitos, valores e práticas,
estando, portanto, inscrito na história. É por não
ser um dado natural, as técnicas de Poder investem sobre
sua materialidade e força. O Poder, entretanto, não
apenas se utiliza de um Saber para tornar mais eficaz o seu exercício;
ele cria domínios de saber que fazem aparecer novos objetos,
novas técnicas, novos conceitos. Por sua vez, todo Saber
gera novas relações de Poder (o que produz efeitos
de dominação).
Em
torno dessas questões, pensamos na produção
de um material que pudesse sensibilizar o aluno do Ensino Médio
a perceber o corpo como uma variável histórica e socialmente
específica, cujo sentido e importância são reconhecidos
como potencialmente diferentes em contextos variáveis e a
pensar como essas concepções refletem as relações
do Poder com o Saber.
Produzimos
assim “Corpo e História I”. Esse material dirige-se
diretamente ao aluno (devendo estar disponível na web nas
versões “pdf” – permitindo a impressão
– e “html” - facilitando o acesso aos sites que
estão linkados), propõe atividades a serem desenvolvidas
individualmente e em grupos, mas não exclui a orientação
do professor para dirigir as atividades e sistematizar o que for
sendo construído.
O material está dividido em sete partes:
1ª. Diferentes épocas e diferentes formas de tratar
o corpo – atividade de análise iconográfica.
2ª. Corpo, Saber e Poder na Antigüidade Grega e na Idade
Média – textos e iconografia.
3ª. Atividades de análise iconográfica, debate
e síntese.
4ª. Corpo feminino e repressão na Idade Moderna –
relações entre Ciência, Sexualidade, relações
de Gênero e Poder – texto e iconografia.
5ª. Brasil: o corpo violentado (sécs. XVI a XIX) –
textos e iconografia (Debret e Rugendas).
6ª. Atualizando o tema da tortura: atividades de análise
de textos e de síntese (relações entre Corpo,
Controle e Poder).
7ª. Texto-síntese (conclusão) e orientações
para pesquisas sobre as visões do corpo, da sexualidade e
as relações de gênero na atualidade, com sugestões
de temas e links: A medicalização do corpo: remédios
para emagrecer, remédios para melhor desempenho sexual; A
biotecnologia, o corpo e a sexualidade: concepção
sem prazer; O culto ao corpo na atualidade; Corpos marcados: piercings,
tatuagens e cicatrizes; O corpo na literatura contemporânea;
Mulher e sexualidade no hip-hop (nas letras dos “raps”),
Prostituição; Corpo, mulher, violência; Sexismo
e relações de gênero; Corpo, sexualidade e Internet;
A mulher nos livros didáticos; Raça e gênero.
É,
principalmente, nesses temas propostos para a pesquisa que vemos
a possibilidade de um trabalho multidisciplinar, ao qual poderiam
concorrer as diferente disciplinas como: Língua Portuguesa
e Literatura, Língua Estrangeira – Inglês, Sociologia,
Filosofia, Biologia, Artes, etc.
Quando
ainda estava desenvolvendo o trabalho acima, tive a oportunidade
de fazer um curso, no colégio onde leciono (Colégio
Miguel de Cervantes), que me levou a desenvolver um segundo trabalho
dentro do mesmo tema, surgindo, assim: “Corpo e História
II. Uma viagem no Túnel do Tempo” – uma proposta
de “WebQuest” para os alunos do Ensino Médio.
WebQuest
é uma investigação orientada na qual as informações
com as quais os estudantes interagem são originadas de recursos
da Internet. É um modelo extremamente simples, cujo objetivo
é potencializar o uso educacional da web, tendo como fundamento
a necessidade da aprendizagem cooperativa e do processo investigativo
para a construção do saber.
A WebQuest estrutura-se da seguinte forma:
1º. Introdução da temática através
da criação de uma “situação-problema”
envolvendo os alunos (sempre em grupos). A partir de uma matéria
da Revista Época sobre “tribos” de jovens que
“procuram a dor física”, refletimos que para
conhecer os sentidos construídos para o corpo humano no presente,
é preciso passar pela História e ver os diferentes
modelos que determinaram como foram tratados o corpo, a sexualidade,
os gêneros. Assim, propusemos aos alunos uma “viagem
pelo túnel do tempo”, visitando diferentes épocas
e sociedades;
2ª. Descrição detalhada das tarefas que os alunos
deverão desenvolver (o que é de responsabilidade individual,
o que é de responsabilidade do grupo), bem como do produto
final que deverá ser apresentado;
3ª. Descrição do processo de trabalho (o que
deverá ser feito em cada etapa. No caso, dividimos o processo
em doze aulas, a serem desenvolvidas em classe e no laboratório
de informática);
4ª. Recursos: relação de todos os sites que poderão
ser consultados (estes já devem ter sido previamente visitados
e estudados pelo professor), com um breve comentário para
orientação do aluno;
5ª. Informação sobre os critérios de avaliação
que o professor utilizará (de modo que o aluno possa também
fazer sua auto-avaliação).
Segundo a apresentação da Escola do Futuro da Universidade
de São Paulo, o modelo de WebQuest, criado pelo professor
norte-americano Bernie Dodge, da San Diego State University pode
ajudar na consecução dos seguintes objetivos:
• Garantir aos alunos e professores acesso a informações
autênticas e atualizadas (na vida, as informações
não são tratadas para – supostamente, como nos
livros didáticos - facilitar aprendizagens. Se quisermos
que nossos alunos usem fontes autênticas – isto é,
que fazem parte do dia-a-dia das pessoas -, é preciso colocá-los
em contato com elas desde o início);
• Promover aprendizagem cooperativa, na convicção
que aprendemos mais e melhor com os outros, não individualmente;
• Desenvolver habilidades cognitivas através da especificação
da tarefa e do processo a ser seguido pelo estudante;
• Transformar ativamente as informações, ao
invés de simplesmente reproduzi-las (a tarefa planejada para
uma WebQuest deve engajar os estudantes em investigações
que favoreçam a criatividade);
• Incentivar o trabalho de autoria de professores (as WebQuests
devem ser produtos de PROFESSORES, que INVESTIGAM e CRIAM, e não
de “especialistas ou técnicos em informática”);
• Favorecer o compartilhamento dos saberes pedagógicas,
uma vez que as WebQuests devem estar publicadas no espaço
web, possibilitando intercâmbio entre docentes.
(http://www.webquest.futuro.usp.br/)
Não
temos a plena convicção de que este instrumental,
por si só, garanta todos esses objetivos. Ele pode ser, no
entanto, um auxiliar (dentre outros) para que os professores vivenciem
situações onde possam analisar sua própria
prática e a de outros professores, estabelecer relações
entre elas e as teorias subjacentes, participar de reflexões
coletivas, discutir perspectivas e buscar novas orientações.
“Somos
testemunhas de uma oportunidade histórica para criar novas
formas de produzir informação, conhecimento e sabedoria
que sejam mais compartilhadas, ou seja, ajudem a reduzir os problemas
globais de exclusão social e digital. Está em jogo
nossa capacidade de interpretar o mundo. Portanto, o que fica em
risco é nossa competência para mudá-lo para
melhor”.
SCHWARTZ,
Gilson – Vida e política na Cidade do Conhecimento.
Anotações sobre o projeto do IEA. http://www.usp.br/iea/cidade/
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