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Cidade do Conhecimento, agosto de 2003 - Ano 2 - No. 9
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O Educar está inaugurando a seção Monografias, onde serão publicados trabalhos de destaque que foram produzidos por alunos de módulos dos anos anteriores.

CIÊNCIA, PODER, SABER, PRAZER
Uma reflexão sobre o Módulo 8: “Ciência e Tecnologia: têm masculino e feminino?”

por Célia de Lourdes Amaral de Almeida

Em 2001 entrei em contato com o Projeto “Cidade do Conhecimento” ao cursar o Módulo 4 do Curso do “Educar na Sociedade da Informação” - “Novas Práticas na Educação: Tecnologia, Vocação e Emprego”, que me colocou diante da questão do papel do educador no acesso democrático e universal às novas tecnologias.

Para essa democratização, a proposta recorrente de “um computador em cada escola” não basta. Distribuir computadores não gerará, magicamente, “evolução”, “desenvolvimento”, “inclusão”. Saber operar o microcomputador, utilizar softwares, conectar-se à Internet, por si só, não construirá conhecimento. “A informação corre também o risco de se tornar ‘lixo’ se existir descolada das suas dimensões necessariamente humanas”. É preciso que haja um “mediador” que não só garanta a orientação desse processo, como também propicie (aos outros e a ele próprio) a produção do conhecimento.

Comecei o ano de 2002 com a convicção da necessidade de um novo “fazer pedagógico” que fosse ao mesmo tempo apropriação e produção; uma teia aberta e flexível, inter-relacionando conceitos, idéias, teorias e outras práticas; criando e recriando relações - possíveis através de contatos de parceria e de reciprocidade; contribuindo para questionar os preconceitos, os tabus e os aspectos sócio-político-culturais que permeiam a questão da diversidade. Uma prática que fosse, ela própria, uma experiência de compartilhamento, da unidade que surge da diversidade, de cidadania.

O conceito de cidadania surge dentro de cada grupo quando este reflete sobre suas ações cotidianas e busca compreender sua história, procurando entender as relações que se estabelecem dentro do grupo, entre o grupo e a comunidade e entre a comunidade e o mundo. Isto pressupõe uma visão da educação que acredita que tanto o professor quanto o aluno são capazes de produzir conhecimento e cultura, resgatando suas tradições e práticas sociais e permitindo sua reelaboração, bem como a criação de novas maneiras de interpretar o mundo.

Lembrando o Professor Paulo Freire: “A educação não é a chave para a transformação, mas é indispensável. A educação sozinha não faz, mas sem ela também não é feita a cidadania".
Nesse espírito é que optei pelo Módulo 8: Ciência e Tecnologia: têm masculino e feminino?” (http://www.cidade.usp.br/educar/modulo8/index_modulos ). Sob a coordenação da Professora Dra. Regina Festa, com a mediação de Neide Osada e com apoio acadêmico das mulheres cientistas e tecnólogas do IPT (Instituto de Pesquisa Tecnológicas/Campus USP) e da Prof.a Dra. Maria Tereza Citeli. Inserindo-se no projeto da Cátedra Regional Unesco “Mulher, Ciência
e Tecnologia na América Latina” (que tem como um de seus objetivos a formação de docentes
e estudantes para que se desenvolva uma educação não sexista em Ciência e Tecnologia),
o curso vinha de encontro, justamente, a essa expectativa: formar professores do Ensino Médio - homens e mulheres de todas as disciplinas – para uma educação pautada no princípio da eqüidade de gênero, contribuindo também para análise das formas de ensino e representações públicas na área de Ciência e Tecnologia. Nele seriam abordadas as questões do poder e do saber, a autoridade e a legitimidade da Ciência para atribuir diferenças e hierarquias entre os gêneros.

 

Difícil poder descrever, com justiça, o entusiasmo da equipe responsável pelo curso, tanto daquelas mulheres que há anos dedicam seus esforços acadêmicos e sua prática de vida a essa questão, quanto das que, pela primeira vez, refletiam sobre a sua prática profissional sob essa nova luz! Entusiasmo e comprometimento que se revelaram no cuidado com que cada professor/professora preparou sua aula para o curso, na delicadeza com que nos trataram – a nós, professores-alunos -, e no respeito e na atenção com que fomos ouvidos quando, nas discussões e apartes, relatávamos nosso cotidiano em sala-de-aula. O fato é que tudo isso nos “contaminou”, fazendo com que mergulhássemos inteiramente, ao longo do ano, na temática do curso, nas aulas, nas leituras, nas discussões, nas oficinas, nos trabalhos de campo e no compartilhamento das nossas descobertas através da “Comunidade Virtual” do módulo. (http://www.cidade.usp.br/educar/modulo8/ )

Para a avaliação do curso, propôs-se a produção de um livro on-line, destinado às alunas e alunos do Ensino Médio, onde cada capítulo, elaborado por um grupo de professores-alunos, corresponderia ao tema de uma das aulas teóricas oferecida no módulo (e aqui, a possibilidade. Cada grupo trabalharia seu texto através das ferramentas oferecidas pelo “Educar”: fórum, chat e wiki. Uma proposta que contemplava todas as minhas expectativas nestes dois anos: a de um novo “fazer pedagógico” com o professor como co-construtor do conhecimento, que pudesse unir as duas áreas com as quais trabalho no Ensino Médio (História e Orientação Sexual), dentro de uma temática que encaminhasse à reflexão sobre as diferenças (no caso, às relacionadas às questões de gênero, corpo e sexualidade em diferentes tempos e espaços).

Inseri-me no grupo que trabalharia o tema “Ciência, Poder, Saber, Prazer”, com base na aula ministrada pela Dra. Lilian Krakowski Chazan, médica, psicanalista, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela IMS/UERJ, que ofereceu uma visão histórica sobre o papel da Ciência e sua intersecção com a questão do Poder, a partir das obras do filósofo Michel Foucault. (http://www.cidade.usp.br/educar/modulo8/0007)

Embora este grupo não tenha conseguido construir coletivamente o seu texto, o trabalho que produzi individualmente, alimentou-se das “conversas” (via e-mail e via chat) com as colegas Maria Luisa Cenamo Cavalheiro e Marilda José Cremasco.

Para este trabalho, foi fundamental a leitura da obra de Thomaz Laqueur: “Inventando o Sexo. Corpo e gênero dos gregos a Freud” (publicada pela Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, em 2001), que nos demonstrou que a visão do corpo em uma determinada sociedade e época é sempre o resultado de uma interpretação social. Assim, texto e atividade para os alunos do Ensino Médio deveriam encaminhar para a reflexão sobre como o mundo social constrói o corpo como uma realidade sexuada. A “transformação da história em natureza” ou “do arbitrário cultural em natural”, faz com que a diferença biológica entre os sexos possa ser vista como justificativa natural da diferença entre os gêneros - que é, na verdade, socialmente construída.

Como diz Michel Foucault: “Pensamos que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia, e que ele escapa à história. Novo erro; ele é formado por uma série de regimes que o constroem; ele é destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos - alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais, simultaneamente; ele cria resistências”. O corpo pode ser modificado, aperfeiçoado, e suas necessidades, produzidas e organizadas de diferentes maneiras. Ele é maleável, flexível, formado por diversos hábitos, valores e práticas, estando, portanto, inscrito na história. É por não ser um dado natural, as técnicas de Poder investem sobre sua materialidade e força. O Poder, entretanto, não apenas se utiliza de um Saber para tornar mais eficaz o seu exercício; ele cria domínios de saber que fazem aparecer novos objetos, novas técnicas, novos conceitos. Por sua vez, todo Saber gera novas relações de Poder (o que produz efeitos de dominação).

Em torno dessas questões, pensamos na produção de um material que pudesse sensibilizar o aluno do Ensino Médio a perceber o corpo como uma variável histórica e socialmente específica, cujo sentido e importância são reconhecidos como potencialmente diferentes em contextos variáveis e a pensar como essas concepções refletem as relações do Poder com o Saber.

Produzimos assim “Corpo e História I”. Esse material dirige-se diretamente ao aluno (devendo estar disponível na web nas versões “pdf” – permitindo a impressão – e “html” - facilitando o acesso aos sites que estão linkados), propõe atividades a serem desenvolvidas individualmente e em grupos, mas não exclui a orientação do professor para dirigir as atividades e sistematizar o que for sendo construído.

O material está dividido em sete partes:

1ª. Diferentes épocas e diferentes formas de tratar o corpo – atividade de análise iconográfica.

2ª. Corpo, Saber e Poder na Antigüidade Grega e na Idade Média – textos e iconografia.

3ª. Atividades de análise iconográfica, debate e síntese.

4ª. Corpo feminino e repressão na Idade Moderna – relações entre Ciência, Sexualidade, relações de Gênero e Poder – texto e iconografia.

5ª. Brasil: o corpo violentado (sécs. XVI a XIX) – textos e iconografia (Debret e Rugendas).

6ª. Atualizando o tema da tortura: atividades de análise de textos e de síntese (relações entre Corpo, Controle e Poder).

7ª. Texto-síntese (conclusão) e orientações para pesquisas sobre as visões do corpo, da sexualidade e as relações de gênero na atualidade, com sugestões de temas e links: A medicalização do corpo: remédios para emagrecer, remédios para melhor desempenho sexual; A biotecnologia, o corpo e a sexualidade: concepção sem prazer; O culto ao corpo na atualidade; Corpos marcados: piercings, tatuagens e cicatrizes; O corpo na literatura contemporânea; Mulher e sexualidade no hip-hop (nas letras dos “raps”), Prostituição; Corpo, mulher, violência; Sexismo e relações de gênero; Corpo, sexualidade e Internet; A mulher nos livros didáticos; Raça e gênero.

É, principalmente, nesses temas propostos para a pesquisa que vemos a possibilidade de um trabalho multidisciplinar, ao qual poderiam concorrer as diferente disciplinas como: Língua Portuguesa e Literatura, Língua Estrangeira – Inglês, Sociologia, Filosofia, Biologia, Artes, etc.

Quando ainda estava desenvolvendo o trabalho acima, tive a oportunidade de fazer um curso, no colégio onde leciono (Colégio Miguel de Cervantes), que me levou a desenvolver um segundo trabalho dentro do mesmo tema, surgindo, assim: “Corpo e História II. Uma viagem no Túnel do Tempo” – uma proposta de “WebQuest” para os alunos do Ensino Médio.

WebQuest é uma investigação orientada na qual as informações com as quais os estudantes interagem são originadas de recursos da Internet. É um modelo extremamente simples, cujo objetivo é potencializar o uso educacional da web, tendo como fundamento a necessidade da aprendizagem cooperativa e do processo investigativo para a construção do saber.

A WebQuest estrutura-se da seguinte forma:

1º. Introdução da temática através da criação de uma “situação-problema” envolvendo os alunos (sempre em grupos). A partir de uma matéria da Revista Época sobre “tribos” de jovens que “procuram a dor física”, refletimos que para conhecer os sentidos construídos para o corpo humano no presente, é preciso passar pela História e ver os diferentes modelos que determinaram como foram tratados o corpo, a sexualidade, os gêneros. Assim, propusemos aos alunos uma “viagem pelo túnel do tempo”, visitando diferentes épocas e sociedades;

2ª. Descrição detalhada das tarefas que os alunos deverão desenvolver (o que é de responsabilidade individual, o que é de responsabilidade do grupo), bem como do produto final que deverá ser apresentado;

3ª. Descrição do processo de trabalho (o que deverá ser feito em cada etapa. No caso, dividimos o processo em doze aulas, a serem desenvolvidas em classe e no laboratório de informática);

4ª. Recursos: relação de todos os sites que poderão ser consultados (estes já devem ter sido previamente visitados e estudados pelo professor), com um breve comentário para orientação do aluno;

5ª. Informação sobre os critérios de avaliação que o professor utilizará (de modo que o aluno possa também fazer sua auto-avaliação).

Segundo a apresentação da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, o modelo de WebQuest, criado pelo professor norte-americano Bernie Dodge, da San Diego State University pode ajudar na consecução dos seguintes objetivos:

• Garantir aos alunos e professores acesso a informações autênticas e atualizadas (na vida, as informações não são tratadas para – supostamente, como nos livros didáticos - facilitar aprendizagens. Se quisermos que nossos alunos usem fontes autênticas – isto é, que fazem parte do dia-a-dia das pessoas -, é preciso colocá-los em contato com elas desde o início);

• Promover aprendizagem cooperativa, na convicção que aprendemos mais e melhor com os outros, não individualmente;

• Desenvolver habilidades cognitivas através da especificação da tarefa e do processo a ser seguido pelo estudante;

• Transformar ativamente as informações, ao invés de simplesmente reproduzi-las (a tarefa planejada para uma WebQuest deve engajar os estudantes em investigações que favoreçam a criatividade);

• Incentivar o trabalho de autoria de professores (as WebQuests devem ser produtos de PROFESSORES, que INVESTIGAM e CRIAM, e não de “especialistas ou técnicos em informática”);

• Favorecer o compartilhamento dos saberes pedagógicas, uma vez que as WebQuests devem estar publicadas no espaço web, possibilitando intercâmbio entre docentes.
(http://www.webquest.futuro.usp.br/)

Não temos a plena convicção de que este instrumental, por si só, garanta todos esses objetivos. Ele pode ser, no entanto, um auxiliar (dentre outros) para que os professores vivenciem situações onde possam analisar sua própria prática e a de outros professores, estabelecer relações entre elas e as teorias subjacentes, participar de reflexões coletivas, discutir perspectivas e buscar novas orientações.

“Somos testemunhas de uma oportunidade histórica para criar novas formas de produzir informação, conhecimento e sabedoria que sejam mais compartilhadas, ou seja, ajudem a reduzir os problemas globais de exclusão social e digital. Está em jogo nossa capacidade de interpretar o mundo. Portanto, o que fica em risco é nossa competência para mudá-lo para melhor”.

SCHWARTZ, Gilson – Vida e política na Cidade do Conhecimento. Anotações sobre o projeto do IEA. http://www.usp.br/iea/cidade/


 
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