Universidade de São Paulo
  busca        

    

 
 Cidade do Conhecimento, dezembro de 2003 - Ano 2 - No. 13
Agenda
Análise
Comunicados
Comunidade em Tempo
Editorial
Entrevista
Olho Vivo
   
   análise

Competência e Paixão

por Maria Lúcia Lanza,
supervisora de ensino – D.E. Região de Taboão da Serra
participante do Educar em 2002 e 2003

Já faz algum tempo que trabalho com formação de educadores – em serviço ou não – e um dos pontos que me intriga é a constatação de que – em um número muito maior de vezes do que seria desejável – a freqüência a cursos, orientações técnicas e capacitações não obtém os resultados esperados na prática docente.

Muitos educadores até incorporam o discurso progressista mas persistem na prática tradicionalíssima. Por quê?

Dá para levantar algumas hipóteses explicativas, que passam pela proverbial distância entre teoria e prática, pela ausência de reflexão sobre sua própria ação, pelo efeito desmotivador das difíceis condições de trabalho, pela auto-imagem negativa – fruto de anos e anos de baixa remuneração, o que resulta em uma estafante carga horária de trabalho -, pela precária formação inicial dada em cursos de graduação de baixa qualidade, pelas deficiências dos próprios cursos, orientações técnicas e capacitações...

Provavelmente, todas estas variáveis contribuem juntas – em maior ou menor medida, dependendo de cada situação – para que o efeito das ações de capacitação dos educadores fique aquém do esperado.

Mas isto não explica como, APESAR de todos estes fatores, ainda temos excelentes professores. Por que, mesmo submetidos às mesmas contingências de todos os outros, alguns se destacam?

Como é o professor que faz diferença? Fiquei pensando nos meus professores importantes... naqueles que continuam a existir em mim (como escreveu uma amiga), mesmo depois de muito tempo... é engraçado... porque esses professores eram bastante diferentes entre si.... pensando em qual seria o denominador comum entre eles, me ocorre que era...a competência!

Competência, como definida por Terezinha Rios (RIOS 2001, pg.23): “saber fazer bem o que é necessário e desejável no espaço da profissão.” E mais, “a ação docente competente, portanto de boa qualidade, é uma ação que faz bem, isto é, que é bem feita do ponto de vista técnico-estético, e uma ação que faz bem, do ponto de vista ético-político, a nós e àqueles a quem a dirigimos.”

Essa definição ganha, a meus olhos, MUITA legitimidade na medida em que é formulada por uma das minhas professoras de maior competência, a mesma que fez com que eu me apaixonasse pela Filosofia quando cursava o Ensino Médio.

Aliás, desconfio muito que aquela competência dos meus antigos professores era também resultado de paixão. O objeto da paixão era diferente para cada um deles: alguns eram apaixonados pelas pessoas e nós – os alunos – éramos agraciados com esta paixão por tabela, só pelo fato de pertencermos à espécie humana... outros eram apaixonados pela literatura, ou pela arte, ou pela filosofia... e nós éramos - felizardos – expostos e contaminados por essas paixões...

Semana passada, assisti a uma vídeo-conferência com o professor Pasquale Cipro Neto. Ele falava sobre oxítonas, paroxítonas, redondilhas... e tudo parecia fascinante... por quê?

O fascínio vinha dele mesmo... de sua contagiante paixão pelo texto. Aliás, foi a sua recomendação a alunos e professores: amem o texto!

 

Mas como ensinar paixão? Como ensinar amor? Bom... a primeira resposta que me ocorre e a mais óbvia é... amando! Apaixonando-se! Não dá para eu ensinar alguém a gostar de ler, se eu não gosto de ler. Ou ensinar alguém a gostar de matemática, se não gosto dela.

Shipley (1969, pg.157) escreveu que “a criatividade é alimentada por informações. Uma pobreza de conhecimentos faz definhar e limitar o crescimento da criatividade.” Talvez aconteça o mesmo com a paixão e o amor: só gostamos daquilo que conhecemos. Quanto mais gostamos, mais queremos conhecer e quanto mais conhecemos, mais gostamos: um círculo virtuoso.

Assim sendo, devemos insistir na ação de formação contínua dos recursos humanos do magistério, buscando novas alternativas para ela. O domínio das novas linguagens e tecnologias e o uso de mídias interativas podem ajudar o professor a ampliar o acesso ao conhecimento e, conseqüentemente, as possibilidades de se apaixonar por ele.

A Teia do Saber - parte de um programa de formação em serviço desenvolvido pela Secretaria de Educação do estado de São Paulo - espera “enredar” os professores - no sentido de envolvê-los - ampliando suas possibilidades de conhecer, para que se apaixonem por seu ofício e a Cidade do Conhecimento, programa do Instituto de Estudos Avançados da USP, pode funcionar como importante aliada - como se fosse um “Cupido” - facilitando e incentivando o uso de novas abordagens, de novos espaços e de novas formas de pesquisar e se relacionar.

Todavia o sucesso desta empreitada depende – não só, mas em grande medida - da atitude de todos os envolvidos. Diz o ditado popular, que quando um não quer, dois não brigam. Isto vale também para a paixão!

 
Cidade do Conhecimento