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 Cidade do Conhecimento, dezembro de 2003 - Ano 2 - No. 13
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   entrevista

A entrevistada deste mês é Lilian Starobinas, coordenadora do programa Educar na Sociedade da Informação. Nessa conversa, ela faz uma avaliação dos diversos projetos educacionais que utilizam tecnologias de informação e comunicação, comenta o desafio de se buscar a produção colaborativa e avalia as dificuldades de diversos professores para lidar com as novas tecnologias, contando com uma infra-estrutura que ainda favorece pouco essas iniciativas.


Você tem acompanhado diversos programas de formação e suporte a professores e estudantes de Ensino Médio que se utilizam de tecnologias de informação e comunicação. É possível fazer uma avaliação geral desses programas? Eles são muito diferentes entre si?

Lilian: Podemos falar de programas que buscam colocar as novas tecnologias de informação e comunicação na escola desde 1995, aproximadamente. São oito anos de estrada, que vão desde o envolvimento das escolas com novos softwares – aplicados especificamente em máquinas não conectadas – até a introdução da internet, que é um processo recente. Precisamos considerar essas duas categorias: de um lado, a aproximação do computador enquanto mecanismo de incremento da atividade educacional da escola. De outro, o sistema de informação interligado que permite não só que os alunos de uma escola estejam produzindo alguma atividade específica na sua escola, mas que eles possam comunicar e beneficiar outros alunos de outras escolas com a sua produção e receber também esse benefício de outros coletivos.

Esse tem sido o foco desses programas que você tem analizado atualmente ou ainda há programas que não trabalham com essa dinâmica de rede?

Lilian: Eu acho que cada vez menos temos iniciativas não preocupadas com dinâmicas de rede. Eu colocaria dois exemplos claros. Um deles são situações impeditivas à formação de redes, como os internos da Febem. Nesse sentido, os meninos têm alguns problemas de inclusão digital no sentido de saber operar e poder se beneficiar de alguns programas que o próprio computador oferece ou que são pensados para a informática educacional, mas que não podem estar conectados por motivos óbvios de uma questão de retenção. Ou programas que lidam com essa dificuldade muito grande da infra-estrutura, que é uma realidade verdadeira.

O que você quer dizer com problemas de infra-estrutura?

Lilian: Precisamos considerar que é recente que as escolas estejam com laboratórios aparelhados e com uma boa conexão. Isso já é uma realidade em boa parte das escolas da Prefeitura de São Paulo, onde existem laboratórios com uma tecnologia avançada e que podem propor projetos mais ousados, e no Estado isso está caminhando, mas não dá para considerar que exista generalizadamente o acesso a laboratórios com um número de máquinas suficientes e uma boa conexão. Então, muitas vezes os projetos já existentes ficam truncados por essa dificuldade de conexão.

Voltando aos programas, de modo geral, analisando esses oito anos e pensando no quadro atual, quais são as tendências desses programas? Quais os desafios para 2004 e para onde eles estão caminhando?

Lilian:
Existe uma nítida preocupação em que a utilização dessas tecnologias venha cada vez menos repetir o uso dos materiais didáticos que já existem independentemente delas. Então, os espaços educacionais estão preocupados em criar projetos que não façam que a internet ou os softwares existentes sejam só uma fonte de recursos de informação para alimentar conteúdos que poderiam, por exemplo, ser encontrados na biblioteca. Isso sempre é visto como algo muito generoso e muito importante da internet, a quantidade de fontes de acesso a pesquisas que as pessoas têm
, mas isso está sendo muito problematizado.

 

Há a preocupação de que os alunos criem critérios para avaliar essas fontes de pesquisas, encontrem outros sentidos na utilização dessas tecnologias que não simplesmente uma pesquisa tarefeira que é ‘encontre um conteúdo, devolva para o professor’. A tendência é procurar quais são as novas habilidades que os alunos podem desenvolver com qualidade, utilizando essa ferramenta de comunicação de uma maneira mais criativa do que simplesmente ficar estanque como se a internet fosse simplesmente uma biblioteca.

Que programas conseguem estimular essa utilização de forma ativa? O que eles estão buscando?

Lilian: Acho que a tendência mais forte nesse momento, e que eu apóio - o trabalho no qual estou envolvida também vai por aí - é a de buscar uma interação maior entre alunos e professores na produção colaborativa com a utilização da internet. O Educar na Sociedade da Informação faz isso. Existe um projeto do EducaRede, que é o Aulas Unidas, que caminha nesse sentido, quer dizer, de procurar que escolas façam parcerias para desenvolverem um projeto paralelamente, mas também criando esse intercâmbio de comunicação e debate entre os alunos.

Você citou a produção colaborativa. De certa forma, as novas tecnologias possibilitam um mecanismo de produção que é novo. Você pode falar um pouco mais sobre isso?

Lilian: Sempre houve um processo educacional em que se tinha uma certa idéia de transmissão do saber. Agora, a tendência é que esse circuito de produzir conhecimento, circular o conhecimento e retroalimentá-lo para outros membros está se consolidando e a internet permite isso de uma maneira mais fácil. Hoje – e nem digo só por causa da utilização de novas tecnologias – a tendência é os professores também se perceberem produtores de conhecimento, e verem também seus alunos como produtores de conhecimento. Quando você fala ‘vamos produzir colaborativamente’ e ‘vamos publicar, divulgar e criar contato’ você está colocando todos esses alunos em um circuito de produção. Eles não são só mais receptores de conhecimento, eles estão lidando com o conhecimento de uma maneira que aquilo faz sentido para eles, e eles podem também buscar esse vínculo e esse sentido para outros colegas. Nesse sentido, o apoio de professores a professores é muito importante, muito bonito, porque o compartilhar de experiências, sucessos, fracassos, expectativas, dificuldades políticas é algo que abre espaço para que eles consigam mais recursos para a elaboração do seu projeto didático e para a sua negociação no seu espaço educacional.

Na prática, como esses projetos colaborativos estão acontecendo?

Lilian: Existem exemplos que a gente já tem no próprio Educar na Sociedade da Informação. Há uma série de professores produzindo projetos coletivos, mas temos como um desafio para 2004 essa chegada aos alunos. Tivemos um ano frutífero em relação a perspectivas de produção colaborativa entre os professores e agora está na hora de ver como a gente envolve esse alunado de uma maneira mais dinâmica. Temos um projeto muito interessante, o Imagens Negras, no qual professores, todos da rede pública, estão organizando uma proposta de trabalho com literatura de língua portuguesa no Brasil e em países africanos para trabalhar a questão da imagem do negro. Há uma perspectiva de colocar professores do Brasil com professores da África trabalhando juntos, jovens do Brasil com jovens da África trabalhando juntos. Então, a perspectiva existe, ela está sendo amadurecida, mas ainda estamos esperando realmente conseguir materializar esse projeto.
Todos esses projetos com tecnologia muitas vezes têm não só as dificuldades de infra-estrutura como dificuldades de financiamento prático para as pessoas envolvidas. Boa parte desses professores estão na garra, se envolvendo por interesse próprio. Eles fazem cursos em horários que não são remunerados, eles intercambiam essas idéias com seus colegas pagando sua conta de internet de casa, escrevendo de madrugada. Então, esse espaço de desenvolvimento profissional de professores também tem contado muito com o enorme desejo desses professores de inovar.

Existem muitos professores que ainda não fazem parte dessa realidade tecnológica, que têm certo receio da internet. Como você vê essa crescente demanda tecnológica e ao mesmo tempo algumas pessoas com dificuldade para lidar com esse universo?

Lilian:
A assimilação das novas tecnologias na escola passa por algumas etapas, e esse processo é ainda recente. Por esse espaço de tempo, podemos tirar duas constatações: primeiramente, a escola é um espaço de resistência à mudança e que paulatinamente está abrindo espaço, mas com uma luta grande dos alunos e dos professores para metodologias mais modernas de trabalho. Por outro lado, você tem uma dificuldade, primeiro, de infra-estrutura, que eu já mencionei, e segundo, de aproximação dos profissionais de educação com essas novas tecnologias. Então, eu diria que temos hoje três tipos de postura. Os professores já familiarizados com o uso das novas tecnologias, com propostas de projetos e que estão trabalhando, produzindo e pensando. Nós temos os professores que estão sensibilizados com essas propostas e muito interessados nessa inclusão, apesar de ainda não estarem completamente familiarizados e sentirem dificuldade nessa aproximação. E nós temos um terceiro grupo com um certo ceticismo, com desinteresse, com alguma resistência. Eu diria que o grupo maior é o do meio, que é o grupo de professores que quer se aproximar, desenvolver alguns trabalhos e que ainda está em processo de familiarização. Já a tendência à resistência aos poucos vai se desvanecendo.

Seria correto dizer que todas essas iniciativas que lidam com a tecnologia da informação ainda são um “extra”, que elas ainda não estão incorporadas à dinâmica da escola?

Lilian: Em sua grande parte, sim, elas são vistas como um ‘plus’. Elas são vistas com muito interesse e muita garra pelos alunos, mas as propostas ainda dependem do cenário específico de um marco escolar para que possam ou não decolar. Se você tem um diretor ou um vice-diretor mais favorável, se você tem uma equipe cooperativa nesse sentido, se você tem às vezes algum apoio técnico na escola, tudo isso faz muita diferença. Mesmo os professores que estão estimulados se deparam com algumas dificuldades, como por exemplo, alocar tempo do seu dia-a-dia para poder se dedicar um pouco mais a chegar mais perto do computador, pensar como é essa tradução pedagógica do trabalho dele para um trabalho com novas tecnologias e encontrar espaço na escola para essa aplicação. Seja por causa da infra-estrutura, seja por causa da dinâmica da escola, que ainda é uma dinâmica dos espaços formais antiquados.

 
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