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Há
a preocupação de que os alunos criem critérios
para avaliar essas fontes de pesquisas, encontrem outros sentidos
na utilização dessas tecnologias que não simplesmente
uma pesquisa tarefeira que é ‘encontre um conteúdo,
devolva para o professor’. A tendência é procurar
quais são as novas habilidades que os alunos podem desenvolver
com qualidade, utilizando essa ferramenta de comunicação
de uma maneira mais criativa do que simplesmente ficar estanque
como se a internet fosse simplesmente uma biblioteca.
Que
programas conseguem estimular essa utilização de forma
ativa? O que eles estão buscando?
Lilian:
Acho que a tendência mais forte nesse momento, e
que eu apóio - o trabalho no qual estou envolvida também
vai por aí - é a de buscar uma interação
maior entre alunos e professores na produção colaborativa
com a utilização da internet. O Educar na Sociedade
da Informação faz isso. Existe um projeto do EducaRede,
que é o Aulas Unidas, que caminha nesse sentido, quer dizer,
de procurar que escolas façam parcerias para desenvolverem
um projeto paralelamente, mas também criando esse intercâmbio
de comunicação e debate entre os alunos.
Você
citou a produção colaborativa. De certa forma, as
novas tecnologias possibilitam um mecanismo de produção
que é novo. Você pode falar um pouco mais sobre isso?
Lilian:
Sempre houve um processo educacional em que se tinha uma
certa idéia de transmissão do saber. Agora, a tendência
é que esse circuito de produzir conhecimento, circular o
conhecimento e retroalimentá-lo para outros membros está
se consolidando e a internet permite isso de uma maneira mais fácil.
Hoje – e nem digo só por causa da utilização
de novas tecnologias – a tendência é os professores
também se perceberem produtores de conhecimento, e verem
também seus alunos como produtores de conhecimento. Quando
você fala ‘vamos produzir colaborativamente’ e
‘vamos publicar, divulgar e criar contato’ você
está colocando todos esses alunos em um circuito de produção.
Eles não são só mais receptores de conhecimento,
eles estão lidando com o conhecimento de uma maneira que
aquilo faz sentido para eles, e eles podem também buscar
esse vínculo e esse sentido para outros colegas. Nesse sentido,
o apoio de professores a professores é muito importante,
muito bonito, porque o compartilhar de experiências, sucessos,
fracassos, expectativas, dificuldades políticas é
algo que abre espaço para que eles consigam mais recursos
para a elaboração do seu projeto didático e
para a sua negociação no seu espaço educacional.
Na
prática, como esses projetos colaborativos estão acontecendo?
Lilian:
Existem exemplos que a gente já tem no próprio Educar
na Sociedade da Informação. Há uma série
de professores produzindo projetos coletivos, mas temos como um
desafio para 2004 essa chegada aos alunos. Tivemos um ano frutífero
em relação a perspectivas de produção
colaborativa entre os professores e agora está na hora de
ver como a gente envolve esse alunado de uma maneira mais dinâmica.
Temos um projeto muito interessante, o Imagens Negras, no qual professores,
todos da rede pública, estão organizando uma proposta
de trabalho com literatura de língua portuguesa no Brasil
e em países africanos para trabalhar a questão da
imagem do negro. Há uma perspectiva de colocar professores
do Brasil com professores da África trabalhando juntos, jovens
do Brasil com jovens da África trabalhando juntos. Então,
a perspectiva existe, ela está sendo amadurecida, mas ainda
estamos esperando realmente conseguir materializar esse projeto.
Todos esses projetos com tecnologia muitas vezes têm não
só as dificuldades de infra-estrutura como dificuldades de
financiamento prático para as pessoas envolvidas. Boa parte
desses professores estão na garra, se envolvendo por interesse
próprio. Eles fazem cursos em horários que não
são remunerados, eles intercambiam essas idéias com
seus colegas pagando sua conta de internet de casa, escrevendo de
madrugada. Então, esse espaço de desenvolvimento profissional
de professores também tem contado muito com o enorme desejo
desses professores de inovar.
Existem
muitos professores que ainda não fazem parte dessa realidade
tecnológica, que têm certo receio da internet. Como
você vê essa crescente demanda tecnológica e
ao mesmo tempo algumas pessoas com dificuldade para lidar com esse
universo?
Lilian: A assimilação das novas tecnologias
na escola passa por algumas etapas, e esse processo é ainda
recente. Por esse espaço de tempo, podemos tirar duas constatações:
primeiramente, a escola é um espaço de resistência
à mudança e que paulatinamente está abrindo
espaço, mas com uma luta grande dos alunos e dos professores
para metodologias mais modernas de trabalho. Por outro lado, você
tem uma dificuldade, primeiro, de infra-estrutura, que eu já
mencionei, e segundo, de aproximação dos profissionais
de educação com essas novas tecnologias. Então,
eu diria que temos hoje três tipos de postura. Os professores
já familiarizados com o uso das novas tecnologias, com propostas
de projetos e que estão trabalhando, produzindo e pensando.
Nós temos os professores que estão sensibilizados
com essas propostas e muito interessados nessa inclusão,
apesar de ainda não estarem completamente familiarizados
e sentirem dificuldade nessa aproximação. E nós
temos um terceiro grupo com um certo ceticismo, com desinteresse,
com alguma resistência. Eu diria que o grupo maior é
o do meio, que é o grupo de professores que quer se aproximar,
desenvolver alguns trabalhos e que ainda está em processo
de familiarização. Já a tendência à
resistência aos poucos vai se desvanecendo.
Seria
correto dizer que todas essas iniciativas que lidam com a tecnologia
da informação ainda são um “extra”,
que elas ainda não estão incorporadas à dinâmica
da escola?
Lilian:
Em sua grande parte, sim, elas são vistas como um ‘plus’.
Elas são vistas com muito interesse e muita garra pelos alunos,
mas as propostas ainda dependem do cenário específico
de um marco escolar para que possam ou não decolar. Se você
tem um diretor ou um vice-diretor mais favorável, se você
tem uma equipe cooperativa nesse sentido, se você tem às
vezes algum apoio técnico na escola, tudo isso faz muita
diferença. Mesmo os professores que estão estimulados
se deparam com algumas dificuldades, como por exemplo, alocar tempo
do seu dia-a-dia para poder se dedicar um pouco mais a chegar mais
perto do computador, pensar como é essa tradução
pedagógica do trabalho dele para um trabalho com novas tecnologias
e encontrar espaço na escola para essa aplicação.
Seja por causa da infra-estrutura, seja por causa da dinâmica
da escola, que ainda é uma dinâmica dos espaços
formais antiquados.
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