O
Panóptico, agora digital
Paulo
Brito(*)
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"(...)
O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa
composição. O princípio é conhecido: na periferia, uma
construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada
de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel;
a construção periférica é dividida em celas, cada uma
atravessando toda a espessura da construção; elas têm
duas janelas, uma para o interior, correspondendo às
janelas da torre; outra que dá para o exterior, permite que
a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar
um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco,
um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo
efeito da contraluz pode-se perceber da torre, recortando-se
exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas
nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos
teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente
individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico
organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e
reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra
é invertido; ou antes, de suas três funções – trancar,
privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e
suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um
vigia captam melhor do que a sombra, que finalmente
protegia. A visibilidade é uma armadilha. (FOUCAULT, M. Vigiar
e Punir. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1987.)
Os
dispositivos eletrônicos de telecomunicação distribuídos
na sociedade do século XXI, tais como telefones celulares e
pagers bidirecionais, são extremidades de grandes sistemas
interconectados que estão capturando, processando e
transmitindo voz, dados pessoais, comerciais, bancários,
corporais e de outras espécies num grau que, ao mesmo tempo
em que é extremamente alto, já se tornou cotidiano,
habitual e pouco-a-pouco vai se tornando natural, tendendo a
ser imperceptível pela onipresença. A combinação do
barateamento e disseminação desses dispositivos com a
disseminação das redes de telecomunicações está
inevitavelmente reunindo de modo perverso uma gigantesca
variedade de recursos de monitoramento dos cidadãos, e que
passam a estar disponíveis para governos, empresas,
instituições ou para o crime organizado. Pelas mais
variadas razões, o controle desses recursos torna-se estratégico
para a sobrevivência de grupos, organizações, processos
ou Estados. O atentado de 11 de setembro contra as duas
torres do World Trade Center consolidou definitivamente essa
necessidade: de agora em diante, a privacidade é apenas um
conceito bipolar: lícito para o Estado, suspeito para o
cidadão.
(*)
Jornalista da Agência Estado, em S. Paulo; graduou-se em
Economia em 1981 na Faculdade Pe. Anchieta, em Jundiaí-SP,
é professor do curso de Comunicação em Multimeios da
PUC-SP e mestrando em História da Ciência, também na
PUC-SP. |