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TEXTOS

 

Idéias, visões, métodos, ferramentas

Considerações sobre tempo e informação*

(Alfredo Bosi**)

O homem é um ser que existe no tempo. Por isso o homem nasce e morre. A matéria da sua vida se faz e desfaz: a medida dessa mutação é chamada tempo de vida. E o que é próprio do tempo? O ato de passar. O existir do homem é um passar. A vida humana é uma passagem. Os romanos diziam do tempo que ele é voraz: tempus edax rerum (tempo roedor das coisas).

Os meios eletrônicos de informação foram inventados para poupar tempo.

Os bens do conhecimento, como as informações, e os bens da chamada vida prática ou cotidiana, como os serviços e o dinheiro, demandam tempo para serem obtidos ou transmitidos. Os meios eletrônicos aceleram os movimentos de transmissão de sinais até o limite da instantaneidade.

Desde a revolução industrial dos fins do século 18, há pelo menos duzentos anos, isto é, há pelo menos sete gerações (um átimo na história do Homo sapiens), grande parte do esforço da tecnologia consiste em acelerar os procedimentos de produção de bens culturais, apressando igualmente a sua circulação. No sistema capitalista, esses bens assumem a forma de mercadorias.

A indústria, o comércio, os serviços e as atividades especificamente simbólicas ou culturais foram municiadas de técnicas que resultaram nesse "poupar" tempo: informar mais depressa, comprar e vender mais depressa, aprender signos e hábitos mais depressa.

A expressão "time is money", dizem que cunhada no século 18 por Benjamin Franklin, inventor-empresário, é significativa. O tempo passou a ser um valor que se pode representar, contar e, por hipótese, poupar. Poupar aqui certamente não é sinônimo de acumular.

A experiência também nos diz que o tempo, enquanto fluir contínuo da nossa existência orgânica e psíquica, não pode ser nem contado, nem poupado, nem acumulado. O nosso fluxo biopsíquico tem um dinamismo próprio que opera do nascimento à morte. Até o presente, ao que eu saiba, não houve ser mortal que pudesse subtrair-se a esse movimento involuntário e, quase sempre, inconsciente. Tempus edax. Tempus fugit.

Não estou (ainda) filosofando em termos de valores e opções existenciais radicais. Há religiões e filosofias milenares, como o Estoicismo, o Neoplatonismo, o Bramanismo e o Budismo, que aspiram (cada uma a seu modo) a superar a transitoriedade inquieta da existência pelo escolha da não-ação contemplativa, isto é, pela recusa de buscar e consumir avidamente imagens, palavras ou atitudes que se esvaem no tempo.

É sabido e consabido que não é esta a direção da tecnologia ocidental moderna e dos seus desdobramentos ditos pós-modernos. Bem ao contrário, A tecnologia, tal como se constituiu no âmbito da sociedade industrial, é diametralmente oposta à ascese e à pura contemplação: o seu projeto é multiplicar imagens, multiplicar palavras, multiplicar elementos de informação e multiplicar instrumentos práticos cujo desígnio é abreviar o tempo e poupar esforço, quer o esforço muscular, quer um certo tipo de esforço mental, como, por exemplo, o da memória.

Nós estamos, aqui e agora, em um encontro que gira precisamente em torno de sistemas eletrônicos globalizadores de circulação de imagens, palavras, informações. A expectativa é de que essas redes se aperfeiçõem (em rapidez e em nitidez), se multipliquem e atinjam o maior número possível de seres, ditos usuários. Ninguém, ao que parece, propõe que se detenha o processo em marcha. Todos, cidadãos mais ou menos ilustrados que somos da comunidade científica ou industrial ou política, desejaríamos ampliar as redes e beneficiar democraticamente o maior número possível de outros cidadãos que devem ter o mesmo direito de acesso aos bens da informática.

Então, o que nos cabe, aqui e agora, é exercer livremente outro direito universal, o de refletir. Para tanto fomos convidados a nos encontrar.

Repensemos o primeiro passo dessa intervenção: o tempo.

Se o tempo é a matéria da nossa vida psíquica, a qual nasce e se desenvolve em um corpo finito, então convém perguntar:

Se poupamos tempo cronológico (hora, minutos, segundos) com o fim de obter mais celeremente informações, disporemos então de mais tempo cronológico para viver uma existência que, por sua vez, não se esgotará nessa mesma aquisição de dados nem na prestação de serviços? Ou seja, fruiremos de uma vida que não se esgote nos meios de chegar ao ter, ao obter, ao reter?

A pergunta tem a sua lógica. Se poupamos tempo, acelerando as atividades-meio, supomos que nosso maior desejo é que nos sobre tempo para viver modos de vida que não se concentrem exclusivamente em economizar nosso tempo-de-vida, mas em deixá-lo passar. O paradoxo real ou aparente: poupar para gastar.

Se essa hipótese for válida, teremos que lidar com um paradoxo, e pensar se ele é aparente ou real.

O que parece paradoxal é que, embora a maioria absoluta das pessoas esteja de acordo no que respeita à necessidade imperiosa de poupar tempo, a mesma maioria estima como altamente preciosas e desejáveis as atividades que fazem passar o tempo e, não raro, muito tempo, sem que a consciência dê por conta dessa passagem.

Os jogos, e não falo só dos infantis e juvenis, onde esse fato é universal e inconteste, os jogos do adulto chamados de azar (é o "hasard" francês, que significa qualquer tipo de sorte), como os de cartas, são exemplos de passatempo a que milhões de homens e mulheres se entregam; e, se perguntados por que o fazem, responderão provavelmente: "jogamos para passar o tempo". Por passatempo, milhões de homens e mulheres em todo o mundo vêem TV, vão ao cinema, assistem a shows e a peças de teatro, deleitam-se horas e horas no videogame, colecionam selos, viajam, tocam, cantam, dançam, fazem yoga, karatê ou aeróbica ou simplesmente praticam este ou aquele esporte. Os jogos, as artes, as diversões são formas de vida nas quais a consciência como que ignora prazerosamente a passagem do seu tempo-de-vida. E não só a ignora como parece desejá-la.

O ser humano ora deseja segurar os minutos, abreviando e controlando o tempo, ora deseja abandonar-se ao correr do tempo até o limite da sua dissipação.

Mas não só o divertissement (tão mal visto pelos calvinistas e pelos jansenistas como Pascal) é aceitação voluntária da passagem do tempo. Também as atividades consideradas mais nobres do espírito, como a ciência, a filosofia e a meditação religiosa requerem do eu que ele esqueça o tempo empregado na pesquisa, na reflexão ou na oração.

Quem está atento a um fenômeno físico, biológico ou psíquico, deve absorver-se nele, logo abstrair-se do cuidado com as horas que passam e se dispensam no seu exame, pois a pressa e a precipitação seriam inimigas mortais da observação cuidadosa, do estudo consciencioso. O mesmo se diga da mente imersa na solução de um problema epistemológico ou estético ou ético. O tempo, como diz severamente o protagonista do "Misanthrope" de Molière a um mau poeta que se desculpa por ter escrito muito depresssa um soneto, "o tempo não tem nada a ver com isso" ("le temps ne fait rien à l’ affaire"). Quanto à experiência mística, os testemunhos dos santos cristãos são unânimes em apontar para uma anulação do tempo cronometrável. E, respeitadas as diferenças de intencionalidade, o mesmo acontece com os monges zenbudistas, cuja mente deve libertar-se das imagens mutáveis, logo do fluxo do tempo.

A criação do belo e a invenção do novo ignoram, pura e simplesmente, a preocupação com o tempo do relógio que, na verdade, como bem disse Molière, nada tem a ver com a qualidade da criação e da invenção. A música e o mito, na teoria antropológica de Lévi-Strauss, são máquinas de abolir o tempo. Enfim, a memória, saltando sobre a cronologia, recupera o tempo perdido enquanto anula o passado-como-passado e o chama para a consciência viva do presente.

No caso da descoberta científica, saber esquecer o relógio e o calendário e saber "perder" tempo parecem condição necessária para criar um estado mental disponível e propício ao surgimento das perguntas e das hipóteses mais belas e pregnantes. Quem não sabe perguntar, quem não sabe o que perguntar, o que fará com a torrente de informações potenciais que as redes eletrônicas lhe podem oferecer? É soltar um analfabeto na Biblioteca do Congresso de Washington.

O tempo aberto e livre que antecede a manipulação das teclas também deverá ocupar o espírito do pesquisador depois de receber a informação procurada. Há um estado da mente que gera as boas perguntas, e que vem antes da consulta aos arquivos. E há um estado da mente que interpreta sem pressa os dados recebidos, estado que não deve angustiar-se com a passagem do tempo cronológico.

A velocidade não é um fator interessante ou próprio nem da fase pré-acesso à Internet nem da fase do pós-acesso. A velocidade é uma característica própria dos meios: os meios que ficam no meio, entre o engendramento da hipótese feliz e a interpretação final dos dados. São o começo e o fim de um processo que determinam o seu sentido e a sua inteligibilidade. O que perguntar? é a origem. O que significam as respostas? - é a meta.

Voltemos agora o nosso olhar para o dinamismo dos desejos mais profundamente enraizados em nossa vida orgânica e psíquica. Definitivamente, a satisfação desses desejos se faz em um clima existencial alheio ao tempo do relógio. Assim, uma refeição tranqüila e agradável não pode nem deve ser medida pelos minutos que nela se dispensam, pois, como todo o mundo sabe, comer com pressa dá úlcera. O sono profundo e reparador, o sono sem sonhos, está fora do tempo cronológico; e, como também toda gente sabe, nada mais próprio do homem insone do que prestar atenção ao tic-tac do relógio. É o relógio do corvo de Edgar Allan Poe que diz: nevermore, nevermore... Para não falar da mais sagrada e abissal das experiências humanas, que envolve corpo e alma de maneira indissociável, a experiência amorosa, que os poetas comparam a um fogo inextinguível que permite às gerações seguirem-se às gerações em um desafio lançado à finitude do tempo individual.

Se o discurso parar por aqui, parece estar formulada uma proposta de disjunção: ou controlar tecnicamente o tempo, no sentido de abreviá-lo ao máximo até o limite do instantâneo; ou deixar o tempo correr ignorando e esquecendo a sua passagem. Produtividade e aceleração estariam de um lado; prazer, lazer, contemplação e criação do outro.

Mas é possível dialetizar esse esquema de opostos. É o que tentarei brevemente a seguir.

1. De um lado, é possível dizer que a rapidez no acesso à informação, que a Internet propicia, serve também àquele desejo profundo de reservar mais tempo "livre" às atividades criativas ou ainda ao dolce farniente. Trabalhar depressa para trabalhar menos ou, mais exatamente, trabalhar depressa para enfim sair da esfera do trabalho socialmente compulsório e controlado.

2. De outro lado, é possível dizer que os próprios meios eletrônicos de comunicação, nas suas múltiplas formas de multimeios, proporcionam momentos de satisfação de nossas curiosidades; e, em um nível humano superior, propiciam momentos de interlocução com o semelhante, os sempre almejados momentos de comunicação, efeito nada desprezível, considerando quanto é grande a solidão do homem em uma sociedade de massas. E aqui se desfaria o paradoxo: o que parece feito para abreviar o tempo é usado para deixar passar o tempo.

Acho as duas alternativas perfeitamente viáveis. Trabalhar depressa para não mais trabalhar (alternativa 1); ou poupar e deixar passar ao mesmo tempo o tempo (alternativa 2).

Enfim, para cair, como se diz com metáfora expressiva, para "cair na realidade", eu terminaria propondo esta última questão:

As duas possibilidades formuladas acima (a informática que nos libera do esforço e do relógio para favorecer o gozo da criação ou do lazer; e a informática que, por si mesma, faz os seus usuários passarem agradável e/ou indeligentemente as suas horas), em suma, ambas as alternativas entrarão no mercado da desigualdade que reina hoje na sociedade brasileira e na sociedade internacional, ou contribuirão para superar essa desigualdade?

É muito difícil tanto responder quanto deixar de responder a uma pergunta de natureza social dessa envergadura.

Faço essas considerações para mostrar que tanto os desejos primeiros e vitais quanto os chamados processos simbólicos da cultura vão na direção contrária às práticas de poupança extrema ou de contagem do tempo. Essas práticas, no entanto, são absolutamente relevantes e centrais na esfera da produção e da circulação de bens que, mais cedo do que se pensa, serão descartados e substituídos por outros, que, por seu turno, terão que ser também preteridos por outros e assim sucessivamente em um ritmo que se precipita e beira a vertigem.

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* Texto apresentado no seminário "Internet, Mente e Sociedade", realizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP em maio de 1995.

** Alfredo Bosi é professor titular de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e diretor do IEA. Bosi é autor de "História Concisa da Literatura Brasileira" (1970), "O Ser e o Tempo da Poesia" (1977), "Dialética da Colonização" (1992) e "Machado de Assis: o Enigma do Olhar" (1999), entre outras obras.

 

 

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